Talento x contexto: Seleção precisa decifrar com urgência o “enigma Vini Jr.”
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Não sou defensor da tese de que existem jogadores que nasceram para atuar na seleção e outros destinados a fazer história em clubes. Me parece que alcançar ou não o sucesso em determinado ambiente está mais vinculado às circunstâncias — que podem assumir a figura de Paolo Rossi, por exemplo, impedindo que a geração de 1982, brilhante em seus clubes, se consagrasse também com a camisa da Seleção Brasileira. Por outro lado, nomes lendários do futebol de seleções, como Ronaldo Fenômeno, Maradona e Romário, jamais levantaram a taça da Libertadores ou a Liga dos Campeões.
Nada disso acima exposto é impeditivo para se surpreender com a diferença entre o Vinicius Jr. que já marcou seu nome na história do Real Madrid e sua outra versão, vestida de amarelo, que soma atuações apagadas com a camisa do Brasil. Faltando dois meses e meio para a Copa do Mundo, o desempenho do melhor jogador brasileiro em atividade deveria assumir status de questão de Estado. Enquanto isso não ocorre, o enigma do futebol que de repente desaparece certamente faz Carlo Ancelotti fritar o cérebro a ponto de multiplicar os cabelos grisalhos.
Vini Jr Vinicius Junior Malo Gusto Brasil x França
Adam Richins/EFE
Pelo nível que alcançou e por sua potência técnica, é normal que as maiores expectativas (e, logo, também as maiores exigências) recaiam sobre o jogador formado no Flamengo, escolhido melhor do mundo em 2024. No entanto, também é importante salientar que não é apenas Vinicius, 25 anos, que anda devendo apresentações brilhantes pelo Brasil — nos últimos quatro anos, com todo o caos que vivenciamos na Seleção, ninguém consegue se destacar.
Por maior que seja o talento, é importante dispor de um ambiente minimamente estável — e, por isso, pintores e escritores de tempos remotos se refugiavam em cabanas praticamente apartadas da civilização. Mas Vinicius precisa ficar, pois, como diria um amigo baiano, o futebol é coletivo. E há uma Copa do Mundo pela frente.
Em 46 jogos pela Seleção, o atacante do Real Madrid tem números modestos: oito gols e sete assistências. Trata-se de um desempenho incompatível com o protagonismo que se espera de Vinicius Jr — patamar que ele fez por merecer. E a teoria de que ele sente a pressão de ter se tornado o maior referencial do time, grande esperança na busca pelo Hexa, também não se sustenta, afinal de contas Vinicius Jr. enfrenta, jogando na Europa, uma realidade bastante hostil — defende o maior clube do mundo e ainda precisa confrontar frequentes atitudes racistas. Em todos esses aspectos, ele tem mostrado coragem e maturidade.
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É provável que o “enigma Vinicius Jr.” não precise de alguma figura mítica para ser devendado. Talvez a desproporção de desempenho entre Real Madrid e Seleção Brasileira esteja realmente dentro do campo. Na Espanha, ele tem ao seu lado praticamente um selecionado mundial com o qual treina diariamente, onde seu estilo de jogo já se desenvolve naturalmente — o aproveitamento por espaços e a busca por profundidade, partindo para o confronto direto. O Real Madrid, mesmo passando por eventuais turbulências, tem uma estrutura consolidada, enquanto o Brasil ainda engatinha numa concepção coletiva.
Essa explicação não exime Vinicius Jr. de sua parcela de responsabilidade: mesmo com a desordem coletiva e as limitações táticas vividas pela seleção, ele vem se equivocando em decisões absolutamente individuais. Carlo Ancelotti certamente sabe disso e acerta quando oferece respaldo ao seu principal jogador, como fez após a derrota para a França. Um jogador com a qualidade de Vinicius Jr. jamais pode ser considerado um problema: no momento, ele é uma enorme solução em potencial, que precisa ser encontrada (e se encontrar) dentro de campo.
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