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“Vai jogar como?”: bom de bola, menino sem os braços aprende a não cair e quer ser jogador no Rio

“Vai jogar como?”: bom de bola, menino sem os braços aprende a não cair e quer ser jogador no Rio

“Falta oportunidade”: conheça a história de Allanzinho, o menino sem os braços que quer ser jogador
Allanzinho é um evento nos treinos do sub-15 do Goytacaz, clube de Campos dos Goytacazes, no Norte do Rio de Janeiro. O menino cumprimenta presidente, treinador e companheiros de time com a mesma intimidade e alimenta a resenha com risadas e provocações. “Olha lá, ele chegou” são os comentários, como se estivesse faltando apenas isso para começar a atividade.
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Quem não está acostumado se espanta com o fato de Allanzinho não ter os dois braços. Ele naturalmente precisa de ajuda dos colegas para se vestir, calçar as chuteiras e colocar o colete sobre o uniforme. Essas tarefas costumam caber a Darlan, seu melhor amigo. Para beber água, Allanzinho consegue se virar, mas antes alguém tem que encher a garrafa para ele.
Presidente do Goytacaz, Sérgio Alves, o Serginho, se lembra perfeitamente do dia em que conheceu o jovem jogador. Foi há dois anos, quando o clube organizou as peneiras para abastecer as categorias de base com novos jogadores.
– Quando estávamos treinando, ele apareceu falando que queria jogar. Eu até brinquei com ele: “Vai jogar como, rapaz?”.
Allanzinho, o menino que não tem os braços, é o camisa 10 do sub-15 do Goytacaz
Raphael Bózeo*
Allanzinho respondeu jogando futebol. Quando a bola rola, tudo muda. Esse é o momento em que o menino domina o meio de campo, distribui passes, arrisca dribles e mostra o porquê de ser o camisa 10 da equipe. Ele é diferente – e por motivos que nada têm a ver com a ausência dos dois braços.
No treino coletivo que o ge acompanhou, realizado no Estádio Ary de Oliveira, o Aryzão, Allanzinho abriu o placar da atividade com um bonito gol de cobertura (veja no vídeo acima). No banco, algum distraído perguntou “quem fez?”. E ouviu como resposta: “o Allanzinho, claro”.
“As pessoas olham assim e acham que eu não tenho capacidade, mas é porque nunca viram eu jogar, entendeu?”, conta o jogador.
Colega do Goytacaz ajuda Allanzinho a colocar o colete no treino
Raphael Bózeo*
Com 15 anos recém-comemorados, o jovem jogador está sendo preparado pelo clube de Campos para disputar uma competição sub-16 com participação de times de todo Brasil que será realizada em maio. No ano passado, ele atuou na categoria sub-15, mas foi pouco aproveitado nos jogos.
Tudo indica que dessa vez será diferente.
– Os jogadores pedem para botar ele, você tem que ver – conta o presidente Serginho, antes de completar:
– E você sabe que é uma competição entre os jogadores jovens, os pais e todo mundo. Te falo de coração, não tem um pai, um jogador que fale que não quer ver o Allanzinho jogar.
“Ele não cai mais, amigo!”
Allan da Silva Pontes nasceu dessa maneira por causa de uma malformação congênita. No braço direito, que é severamente atrofiado, ele tem dois dedos. É com eles que o menino consegue pegar alguns objetos e manusear o telefone, por exemplo. O braço esquerdo praticamente não existe.
– Quando ela (a mãe) nos contou, ela falou assim: “Allan não tem os braços”. Meu deus! Aquilo… eu fiquei sem chão – se lembra dona Jocinea Soares, bisavó do menino.
“Nós quase enfartamos”.
Allanzinho, hoje camisa 10 na base do Goytacaz, nasceu sem os dois braços
Arquivo Pessoal
A mãe de Allanzinho entregou a guarda para a avó, dona Vera da Silva Souza, que é a responsável por acompanhá-lo na maior parte do tempo. Ela e o neto recentemente se mudaram para Linhares, no Espírito Santo, para que ele pudesse participar do projeto de uma equipe de vôlei sentado. O objetivo é futuramente, quem sabe, disputar a Paralimpíada.
Mas o maior sonho de Allanzinho, motivo pelo qual frequenta os treinos do Goytacaz sempre que está em Campos, é ser jogador profissional de futebol. Para isso, o menino sem os braços precisou adaptar o corpo para compensar a falta de equilíbrio.
– Eu caía bastante, todos os dias. Caía muito – se lembra Allanzinho.
No início, Allanzinho sofria uma queda atrás da outra jogando futebol. Ele passou a se sustentar por mais tempo à medida que foi crescendo e fortalecendo o corpo, principalmente as pernas. Até pouco tempo atrás, quando começou a treinar na base do Goytacaz, ele ainda caía algumas vezes. Os trabalhos de musculação foram essenciais nesse sentido.
– Depois que eu comecei a fazer academia, melhorou bastante para mim. Cresci mais também, fiquei mais forte um pouco. Foi bastante dedicação da minha parte, né. No meu caso, tem que ter bastante força na perna, que eu uso bastante – explica Allan.
Allanzinho é derrubado com falta e sorri no treino do sub-15 do Goytacaz
Raphael Bózeo*
No treino que o ge acompanhou, Allanzinho só foi ao chão para dar carrinho ou quando foi derrubado com falta. Os companheiros de clube não aliviam para ele.
– O quê!? Não tem essa de pena, não. Os garotos tratam ele de igual para igual. Ele bate, ele entra duro. Ele adquiriu uma força com o quadril e as pernas que eu não consigo entender – afirma, admirado, o presidente Serginho.
– Ele não cai mais, amigo! – conclui.
O fiel amigo Darlan
Allanzinho, hoje um adolescente, se vira muito bem. A família entra em cena nos momentos em que uma pessoa sem os braços naturalmente precisa de ajuda, como ir ao banheiro ou tomar banho. Mas o menino é capaz de fazer outra infinidade de coisas sozinho – até andar a cavalo.
– Ele abre a geladeira, pega uma água. Se for para tirar uma comida, ele tira – diz a bisavó.
Allanzinho, jogador do sub-15 do Goytacaz que não tem os braços, mostra que é capaz de andar até a cavalo
Tébaro Schmidt / ge
De toda forma, Allanzinho mostrava-se ansioso antes da entrevista ao ge. Ele ligou, na véspera, para saber a que horas exatamente a equipe de reportagem chegaria. “É que o Darlan só sai da escola às 13h”. Ficou aliviado ao saber que o amigo já estaria em casa.
Darlan dos Santos Almeida, que também tem 15 anos, é o parceiro inseparável de Allanzinho. Os dois não se desgrudam desde que se conheceram soltando pipa em uma rua no distrito de Travessão, aos seis anos. Quando estão juntos, Darlan é os dois braços do amigo.
– Ele é um menino bom, gosto muito dele – diz Darlan, cheio de timidez.
Allanzinho descreve a amizade de quase uma década de maneira um pouco mais elaborada.
– A gente é bastante feliz junto, no nosso dia a dia. Agora que eu estou um pouco mais distante que está sendo um pouco mais complicado, mas ele me ajuda. Quando é para jogar bola, ele bota o meião, bota a chuteira, bota a blusa também. Me ajuda bastante.
Darlan ajuda Allanzinho a colocar o uniforme do Goytacaz antes do treino
Raphael Bózeo*
Antes dos treinos no Goytacaz, Darlan é quem ajuda Allanzinho a colocar o uniforme e calçar as chuteiras
Raphael Bózeo*
Darlan é atacante, joga ao lado do amigo no sub-15 do Goytacaz e também alimenta o sonho de ser jogador de futebol.
“Falta oportunidade”
Allanzinho, que não tem empresário, está em busca de uma oportunidade. Seu objetivo neste momento é entrar para a base de um clube médio ou grande, embora seja grato por tudo que o Goytacaz fez e faz por ele.
“O que falta é uma pessoa para me ajudar, uma oportunidade, né. Alguém para me indicar, entendeu? Sem empresário, sem uma pessoa para ajudar assim, tudo é mais difícil”.
O menino já fez teste na base de outras equipes, saiu de Campos em busca de chances em outro lugares, mas encontrou todas as portas fechadas antes de chegar ao Goytacaz. O clube alvianil, que este ano vai disputar a Série B1 do Carioca (equivalente à terceira divisão), tem uma estrutura precária. Mas oferece ao menino o que ele mais precisa neste momento: acolhimento.
O presidente Serginho é um entusiasta do futebol de Allanzinho e, desde que assumiu o clube, levanta a bandeira da inclusão. Na temporada passada, o time foi campeão da Série B2 com um jogador que atuou na competição inteira com uma tornozeleira eletrônica, história que o ge contou em dezembro. Yuri de Carvalho fez o gol do título na final contra o Macaé.
– Eu falo para ele: “Allanzinho, a chance que eu tiver de te encaminhar, eu vou te encaminhar. Não é porque você tem qualquer problema ou é bonito, não, porque você é feio (risos). Eu vou te encaminhar pela tua condição, pelo futebol que você tem, por essa cabeça maravilhosa que você tem – garante Serginho.
“Eu sou presidente, tenho quatro anos aqui. Se eu ainda estiver aqui e ele estiver no Goytacaz, o Goytacaz vai lançá-lo como profissional”, completa.
Allanzinho comemora bonito gol no treino do sub-15 do Goytacaz
Raphael Bózeo*
O presidente do Goytacaz acredita, do fundo do coração, que o menino sem os braços não faria feio em um clube grande.
– Hoje, se você botar o Allanzinho num sub-15, que é a idade dele, ele se torna titular de qualquer clube. Ele é diferente. Qualquer clube hoje, não tenho medo de errar, que fizer uma experiência com o Allanzinho na idade dele ou sub-16, vai falar “esse menino não existe”.
A esperança é a mesma da família humilde, que ainda procura entender o caminho que o menino deve seguir para isso. Jocinea, a bisavó, diz que Allanzinho quer jogar “numa tal de base”. Mesmo sem saber muito do que se trata, é defensora voraz do sonho do bisneto.
– Nós torcemos por ele para ele ser o jogador que ele quer, que ele tem paixão. É o nosso sonho também. Eu acredito, tenho fé em Deus que ele vai ser um jogador.
Allanzinho ao lado do amigo Darlan e da família: todos na torcida para que ele vire um jogador
Tébaro Schmidt / ge
*Fotos cedidas pelo jornalista Raphael Bózeo, pesquisador da infância torcedora e da relação das crianças com o futebol, e integrante do Grupo de Pesquisa Kékeré, do ProPEd/UERJ. Allanzinho é um dos interlocutores do estudo. geRead More