Da Quinta Divisão à briga pela Premier League: como atores de Hollywood reergueram o Wrexham
Wrexham 2 x 3 Chelsea | Melhores momentos | Copa da Inglaterra
Um clube de uma pequena cidade, sem muita tradição futebolística, mas muita paixão dos torcedores. Á beira do fracasso, ele é comprado por bilionários de Hollywood, se torna uma sensação mundial e começa a brigar com potências do futebol da região. Parece roteiro de filme, mas aconteceu de verdade. O protagonista dessa história é o Wrexham, que está mais próximo do que nunca de chegar à Premier League pela primeira vez.
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Depois de ser expulso pelo seu próprio dono e se reconstruir com uma arrecadação da torcida, o clube estava à beira do rebaixamento na Quinta Divisão há cinco anos. Os dois heróis que salvaram o Wrexham são Ryan Reynolds e Rob McElhenney, atores famosos por obras como Deadpool e Lost, respectivamente.
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Os dois compraram o time, reformularam o clube e a marca do Wrexham no mercado e levaram o time de volta à Segunda Divisão inglesa depois de 43 anos. Agora, a cinco rodadas do fim do torneio, o clube está em sexto – posição que classifica para os playoffs em busca de uma vaga na Premier League.
O Wrexham é uma inspiração. Claro que não é todo clube que pode contar com a chegada de atores de Hollywood que realmente tenham boas intenções e afeto pela cidade. O Wrexham tirou a sorte grande. Mas há três anos estavam na Quinta Divisão. Se o Wrexham pôde fazer isso, porque qualquer outro não poderia?
Ryan Reynolds (Deadpool) e Rob McElhenney (Lost) acompanham Wrexham x Charlton Athletic
Robbie Jay Barratt – AMA/Getty Images
O passado
O Wrexham é um time fundado em 1864 na pequena cidade homônima, que abriga cerca de 60 mil habitantes no norte do País de Gales, quase na fronteira com a Inglaterra. O diferencial do clube está na tradição que ele defende: a equipe se afirma a mais antiga do nação e a terceira mais velha do mundo. Apesar de ser galês, o time joga o futebol inglês, já que existe antes mesmo da criação da liga nacional de seu país.
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O Wrexham surgiu como um desejo da cidade de proporcionar mais atividades de lazer aos jovens e, desde então, criou uma profunda relação com os conterrâneos. Mas nas competições nunca conseguiu grandes feitos e nunca atuou na elite do futebol. Na sala de conquistas, o time tem apenas duas taças profissionais expostas: a de campeão da Terceira Divisão (77/78) e do Troféu EFL (04/05), torneio anual que reúne equipes de diferentes níveis do futebol inglês.
Os primeiros problemas graves do clube surgiram em 2002, curiosamente também por causa de uma dupla: Alex Hamilton e Mark Guterman. O primeiro era um ex-advogado que comprou 78% da equipe do ex-dono, que estava há 20 anos no comando e lotou o time de dívidas. O outro era o antigo proprietário do maior rival do Wrexham, o Chester City, clube que ele levou à falência em 1999.
“Wrexham, o orgulho de Gales”, diz adesivo nos arredores do estádio do clube
Jess Hornby/Getty Images
Da força popular à intervenção hollywoodiana
A primeira ação de Hamilton no comando foi comprar o terreno do estádio do clube (Stok Cae Ras) em nome do Wrexham e passar a propriedade para sua empresa. Um ano depois, segundo o “The Guardian”, ele exigiu “um cheque gordo” para que o time pudesse permanecer ali, caso contrário seria despejado.
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A salvação do Wrexham veio em 2004, quando entrou um processo de administração judicial, já que Alex Hamilton se negava a quitar os débitos pendentes. O time foi punido com a perda de pontos, caiu para a Quarta Divisão, mas recuperou a posse do seu estádio por meio de processos jurídicos. Os anos se passaram, as dificuldades permaneceram, e o clube chegou a ter mais um rebaixamento.
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Em 2011, a força da torcida salvou o Wrexham. Os torcedores arrecadaram mais de 100 mil libras (cerca de R$ 600 mil na coração atual) em só 24 horas para pagar o caução que manteria o clube na Quinta Divisão. E, em setembro do mesmo ano, um fundo de torcedores – intitulado Wrexham Supporters’ Trust – conseguiu um acordo para comprar o time e assumir a gestão. A administração era humilde, sem grandes reforços ou conquistas, mas evitou novas quedas.
Mural com o rosto dos novos donos do Wrexham e a frase “Bem-vindo a Wrexham” em galês
Cody Froggatt/PA Images
O Wrexham voltou a enfrentar crises a partir de 2020, na época da paralisação pela pandemia da Covid-19. Estava perto de cair para a Sexta Divisão e “sem perspectiva de futuro”, segundo a análise de Sutcliffe.
Foi nesse momento que McElhenney e Ryan Reynolds fizeram a proposta de comprar 100% da equipe por por aproximadamente 2 milhões de libras (R$ 15 milhões na cotação da época). O projeto foi aprovado por uma votação dos torcedores, e a dupla assumiu em fevereiro de 2021.
Os novos donos se mostraram verdadeiros entusiastas do projeto do Wrexham, o que conquistou a cidade. O jornalista do “The Athletic” contou ao ge que muitos moradores duvidavam das boas intenções da dupla de atores no início do projeto, principalmente por não entenderem porque justo o time deles tinha sido escolhido para essa transformação.
Ryan Reynolds e Rob McElhenney conquistaram a confiança no dia a dia: mostrando na prática as mudanças que prometeram e fazendo parte da rotina do time. Os dois são frequentadores assíduos das partidas do Wrexham em casa, mesmo morando nos Estados Unidos.
Bandeirão com escudo do Wrexham ao lado do personagem Deadpool antes de jogo na Copa da Liga
David Davies/PA Images via Getty Images
Isso mostra seu comprometimento. A relação entre os donos e a cidade é muito forte. A conexão com o clube agora vai bem mais longe do que um laço financeiro
Comunidade, marketing e esporte
Os primeiros aportes da dupla de Hollywood foram destinados a trazer de reforços e à infraestrutura do clube. Cinco meses depois que chegaram, os novos presidentes contrataram Phil Parkinson, treinador que está até hoje no comando e soma apenas 51 derrotas em 255 partidas.
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— Acho que o maior diferencial que o Wrexham tem é o técnico. É justo dizer que todo sucesso que o clube deve desde a compra foi pelo Phil, sem ele essa transformação histórica não teria acontecido. Os reforços que ele trouxe, a maneira intensa de gerenciar e de manter o time jogando para frente. É um trabalho incrível, é um treinador experimente, já tinha três acessos no currículo por outros times quando foi contratado. Agora tem seis, pode chegar a sete neste ano — destacou o jornalista Sutcliffe.
Mural nos arredores do estádio do Wrexham exalta técnico Phil Parkinson: “O chefe”
Cody Froggatt/PA Images
Se McElhenney e Reynolds são frutos do meio midiático, era natural que eles também transformassem o Wrexham em um produto de sucesso para além dos gramados. A dupla lançou em 2022 a “Welcome to Wrexham” – série que conta a trajetória de reconstrução da equipe, tornou o time mundialmente conhecido e já conquistou oito prêmios no Emmy.
Outro exemplo da valorização de marca do Wrexham surgiu de uma ideia do ator de Deadpool. Em 2018, Ryan Reynolds se tornou coproprietário da Aviation American Gin, uma empresa de destilados. Ele vendeu a companhia dois anos depois para a gigante de bebidas Diageo, em um negócio de 610 milhões de dólares (cerca de R$ 460 milhões à época).
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O acordo previa que ele seguisse como o rosto da marca por dez anos, mesmo sem ser dono da Aviation. Daí surgiu a ideia de lucrar com a junção entre Wrexham e a marca de bebida. As empresas lançaram uma garrafa de edição ilimitada para celebrar o retorno do clube à Segunda Divisão, em abril de 2025.
A versão especial do gin incluía elementos personalizados do time, rótulo texturizado com o escudo e um código que dava acesso a conteúdos exclusivo do Wrexham. A ação também contava com um sorteio valendo uma viagem completa para o País de Gales, com ingressos para um jogo do time e um tour privado pelo estádio. E, claro, o próprio Reynolds foi a estrela do comercial, com o humor à la Deadpool, ironizando o sucesso do produto em cidades de clubes rivais. Confira:
Dono do Wrexham, ator de Deadpool promove parceria do clube com marca de gin
O projeto desenvolvido no Wrexham também envolve investimentos na cidade-sede. O clube criou uma parceria com a Universidade Wrexham para desenvolver áreas de convivência e esportes e pretende fundar um centro nacional de desenvolvimento do futebol.
Rob e Ryan também já disseram em entrevistas que as próximas metas incluem ampliar as instalações do CT, tanto no time feminino quanto masculino. O time das mulheres, aliás, conquistou o mais recente título do Wrexham.
No dia 29 de março, elas venceram o Cardiff City por 4 a 1 e conquistaram o Campeonato Galês pela primeira vez. Além de terem classificado o clube para a Champions League feminina – o primeiro torneio europeu da história do clube.
Rumo à Premier League
A primeira promoção do Wrexham sob nova direção veio na temporada seguinte à da compra, 2022/2023. Em 23/24 e 24/25, o time ascendeu outras duas vezes. Em resumo: foram três mudanças de divisão em cinco anos, sendo o primeiro a conseguir três acessos consecutivos na história das cinco maiores competições da liga profissional de futebol da Inglaterra.
Torcida do Wrexham invade o gramado após subir novamente de divisão
A última foi a mais marcante delas. O Wrexham venceu o Charlton por 3 a 0 em abril do ano passado, com um gol de Oliver Rathbone e dois de Sam Smith. O resultado levou o time à Championship com a segunda melhor campanha, atrás apenas do campeão Birmingham. Foi o retorno do clube à segunda divisão depois de 43 anos.
A emoção foi tanta que os torcedores invadiram o gramado. O próprio intérprete do Deadpool se juntou a festa e distribuiu bebidas para os apoiadores, ao lado da atriz e esposa Blake Lively.
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Vamos ficar loucos. Nunca mais eu vou dormir
Torcida invade o gramado para celebrar acesso do Wrexham à Segunda Divisão
Kya Banasko/Getty Images
Em janeiro, o Wrexham recebeu um novo investimento para apoiar o sonho de chegar na Premier League. Os donos injetaram 47 milhões de libras (cerca de R$ 350 milhões), depois de um aporte de 30 milhões de libras (R$ 217 milhões) há sete meses.
O último relatório financeiro divulgado pelo clube revelou um crescimento de 24% no faturamento até junho de 2025, com valor recorde de 33,3 milhões de libras (R$ 232,1 milhões). Por outro lado, o balanço também apontou um prejuízo operacional de 14,8 milhões de libras, devido ao aumento dos custos na última campanha de acesso.
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Na atual temporada, o Wrexham participou da Copa da Inglaterra, mas foi eliminado na quinta rodada em uma derrota de 4 a 2 para o Chelsea. O time de McElhenney e Reynolds está em sexto lugar na Championship, a última posição que classifica para os playoffs, com 64 pontos. Logo atrás, em sétimo, está o Southampton, que tem um ponto a menos e enfrenta o Wrexham na terça, às 16h (horário de Brasília).
O atual regulamento da segunda divisão garante que líder e vice vão direto para a Premier League, enquanto do terceiro ao sexto colocados se enfrentam em um mata-mata. São duas semifinais com ida e volta, 3º contra o 6º e 4º contra o 5º – o vencedor fica com a última vaga para se juntar à elite. Nesse momento, Middlesbrough, Ipswich e Hull City também estão se classificando para os playoffs. geRead More


