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FalleN, maior nome dos esports no Brasil, anuncia aposentadoria do CS; veja entrevista

FalleN, maior nome dos esports no Brasil, anuncia aposentadoria do CS; veja entrevista

Gabriel “FalleN”, o maior nome da história dos esportes eletrônicos do Brasil, anunciou que encerrará a carreira de jogador profissional de Counter-Strike ao fim da temporada 2026.
O anúncio ocorreu nesta sexta-feira, no palco da IEM Rio, competição internacional de CS realizada na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro.
O capitão da FURIA se emocionou ao comunicar ao público que deixará de competir profissionalmente, depois de 23 anos jogando CS e com inúmeros títulos conquistados, entre eles dois campeonatos mundiais, em 2016 e 2017.
Poucas horas antes do anúncio, FalleN conversou com exclusividade com o blog para explicar a decisão de parar – uma ideia que vinha amadurecendo nos últimos anos -, analisar a sua trajetória de duas décadas e contar o que pretende fazer daqui para a frente.
FalleN em ação em campeonato de Counter-Strike
Stephanie Lindgren/BLAST
Ele já estava prestes a se aposentar em 2023, quando entrou para a FURIA, contratado por valor milionário, na esperança de retornar ao topo do cenário internacional. O time, totalmente brasileiro naquela ocasião, não deu certo e amargou insucessos.
No ano passado, a organização contratou dois estrangeiros, o cazaque Danil “molodoy” e o letão Mareks “YEKINDAR”, o que fez a equipe melhorar de rendimento, conquistar competições importantes e dar a FalleN a segurança necessária para deixar o elenco.
— Estou no momento da minha vida que estou buscando viver outras coisas, com família e minha esposa. Fica impossível de manejar tudo isso ao mesmo tempo. É a mistura de fazer o time ter o melhor balanço possível, sair da melhor maneira possível, e ao mesmo tempo abrir espaço na minha vida para viver outras coisas que eu quero viver também.
Apesar da aposentadoria como jogador, FalleN continuará trabalhando com esports – não como treinador, ele faz questão de ressaltar -, ajudando organizações, times e jogadores, fazendo lives e produzindo conteúdo, especialmente ensinando sobre o game, algo que o fez se tornar o principal incentivador do CS no Brasil, na época do lançamento da versão Global Offensive.
— Eu desejo que as pessoas vençam muito mais do que venci, desejo que elas sejam maiores do que eu fui. Não tenho nenhuma pretensão de tentar preservar qualquer tipo de posto que eu esteja, porque se tem uma coisa que eu sei é que, desta vida, não levamos nada, só realmente o que a gente pode fazer de bom ao próximo. O pessoal pode contar comigo no que for possível.
Leia e assista à entrevista com FalleN:
Como está se sentindo, horas antes do seu anúncio público de aposentadoria?
FalleN explica sentimento antes de anúncio: “Consciente do que quero fazer”
— Um pouco emocionado e nervoso também. É um grande momento. Até dei preferência para fazer um dia antes do jogo para não afetar muito a cabeça antes de jogar. Mas estou animado. Foi bastante tempo de reflexão para chegar a essa conclusão. Já estou há alguns anos trabalhando nessa etapa final da minha carreira, que é uma carreira grande. Estou consciente do que quero fazer, curtindo esse momento, e ainda vou ter mais vários dias para jogar até o final do ano. É pré-final, vamos dizer assim, e o começo de uma nova época.
Por que você decidiu que a sua aposentadoria será ao final deste ano?
FalleN explica decisão de se aposentar em 2026: “Abrir espaço para viver outras coisas”
— Como eu estou já há alguns anos nesse processo e, como eu falei, é uma carreira grande, é um pouco natural. Eu sinto que eu precisava realmente colocar uma data, sabe? Essa data poderia ter sido o começo deste ano, por exemplo, agora em janeiro, já estava nesse processo pensando sobre isso. Mas o sucesso do time do ano passado, poder jogar com a molecada, a gente ganhou muitos torneios, isso me deu uma certa ressalva de terminar dessa maneira.
— Por um lado seria muito bom, ganhou quatro torneios, “olha, galera, foi legal, obrigado, tchau”. Mas, por outro lado, o time também precisa de mim e precisa de tempo para arrumar um substituto. Eu senti que, se eu saísse em janeiro, isso não seria da melhor maneira possível para todo mundo. A gente resolveu ficar até o final do ano justamente para poder aproveitar mais essa temporada e ter o tempo de realmente achar um substituto depois, pensando no time.
— Para mim, obviamente, é uma situação muito boa. Eu gosto muito do que faço, são 23 anos jogando. Não é como se estivesse fazendo um sacrifício, em um trabalho insuportável. Eu gosto muito do que faço, do dia a dia, mas a verdade é que tem outras coisas na vida que esse tipo de carreira, esse tipo de vida de atleta, não permitem. São muitas e muitas viagens, muito tempo fora de casa. Estou no momento da minha vida que estou buscando viver outras coisas, com família e minha esposa. Fica impossível de manejar tudo isso ao mesmo tempo, embora ela se esforce muito para que seja meu suporte durante todos esses anos.
— É a mistura dessas duas coisas, fazer o time ter o melhor balanço possível, sair da melhor maneira possível e ao mesmo tempo abrir espaço na minha vida para viver outras coisas que eu quero viver também.
Você falou que continuar não era insuportável, mas qual era o seu sentimento nesses últimos anos ao seguir jogando? Não estava mais sendo divertido?
FalleN admite “montanha-russa” ao continuar jogando: “Tudo que é demais tem seu preço”
— Eu não vou negar que, nesses últimos anos, em alguns momentos, foi um pouco de montanha-russa nesse sentido, o que para mim foi novidade, depois de tanto tempo jogando e sempre fazendo a profissão dos meus sonhos, tendo conseguido construir uma profissão que eu ajudei a construir e com a qual eu sonhava quando era garoto. Quando via os outros jogadores do Brasil indo competir lá fora, pensava: “Será que um dia vai ser eu, será que eu vou conseguir?”
— Depois de muitos anos estando nessa posição, nos anos recentes eu me via muitas vezes em uma montanha-russa, lidando não tão bem com as derrotas em alguns momentos, desejando viver outras coisas. É natural, né? São 23 anos fazendo a mesma coisa, e tudo que é demais muitas vezes também vem com o seu preço.
— Não vou negar que teve alguns momentos em que eu senti “putz, não está mais fazendo sentido”. Até mesmo alguns dos títulos do ano passado, quando eu venci. Foram anos longos buscando esses títulos, e o tempo de duração de uma vitória é muito pequeno. Hoje, eu estava fazendo umas contas, eu completo mais de 8.050 dias de Counter-Strike jogados na vida. É muito tempo. Dias que você está comemorando títulos são menores ainda. São bem pequenos, são 15, 20, 25 dias para levar os títulos brasileiros. E muitas vezes eu me peguei pensando “tá, mas e agora? Foram mais sete anos para ganhar esse título. O que vem depois?” Conforme a gente vai vivendo algumas experiências na vida, parece que a gente vai desejando outras e elas passam a ter um pouco menos de importância. A gente vai tentando se identificar no meio disso tudo.
— De qualquer maneira, o processo tem sido muito bacana também. Colocar um outro time no topo aqui junto com a FURIA foi um baita desafio e vivi coisas incríveis para poder fazer isso e estou vivendo ainda. Está valendo muito a pena.
Quando você entrou para a FURIA, em 2023, esperava-se muito daquele time, e não deu certo. Naquele momento, você pensou em parar porque a equipe não estava indo bem ou aquilo, na verdade, te motivou?
FalleN relembra insucesso de primeiro time na FURIA e revela autocrítica
— Um dos principais motivos de eu ter desejado entrar na FURIA foi porque eu ia ter a chance de jogar com alguns jogadores do Brasil que estavam vivendo bons momentos recentes do CS, que eram a próxima geração do nosso Brasil. Quando eu entrei no time, de fato existia uma expectativa, até mesmo minha, de que que a gente conseguiria dar voos maiores que eu não vinha conseguindo dar. A gente até conseguiu ir bem em algumas competições, mas nada perto de realmente estar à frente de vencer os grandes títulos, e isso fez a gente questionar algumas coisas com o passar do tempo.
— Tentamos algumas trocas de liderança e adicionar jogadores brasileiros diferentes e, mais no final desses primeiros dois anos de FURIA, a gente resolveu fazer um experimento, que seria uma adaptação, buscando uma nova função. Justamente porque eu ocupava duas funções dentro do time, de capitão e AWP. Fazendo uma autoavaliação mesmo, um exercício de humildade, e tendo observado que as pessoas que estavam fazendo a minha função do AWP tinham um impacto muito grande na partida, como eu já tive em anos anteriores, eu percebi que, se fosse para tentar mais alguma coisa, teria que ser nesse caminho, buscando outra pessoa para fazer a função de AWP.
— Por sorte, achamos um garoto incrível, que realmente tem esse potencial de fazer a diferença. Tivemos de buscar no Cazaquistão. Não foi fácil encontrá-lo, mas valeu muito a pena. Esse movimento final foi meio que um respiro. Gostaria muito que desse certo e que eu pudesse sair alcançando os objetivos aqui na FURIA, levando um time mais para o topo. Mas, para isso, teríamos que nos adaptar novamente, se desafiar mais uma vez e fazer o que ninguém esperava.
— E acabou dando certo. Fui para outra função, assumi outras responsabilidades e passei outras para outras pessoas, e a gente conseguiu, com essa mistura doida com a adição do Molodoy e do YEKINDAR, fazer uma mágica juntos no ano passado e estamos atrás de fazer a mesma neste final de semana.
Esse novo time, com os dois jogadores estrangeiros, te deu a segurança necessária para poder se aposentar sem deixar a FURIA em maus lençóis?
Sucesso de novo time da FURIA deu segurança para aposentadoria, diz FalleN
— Com certeza. Foi conversado isso junto com o Sid e o Guerri principalmente, também com o pessoal da diretoria da FURIA, que esse processo, ao mínimo, começaria a abrir novas portas para construir um time competitivo na FURIA. Para a FURIA é muito importante ter um time competitivo de CS. O CS é a base da organização, e é um desejo meu e do pessoal continuar dessa maneira. A gente vai fazer um trabalho legal nesses nove meses, buscando mais títulos comigo na lineup, ao mesmo tempo em que, mais para os momentos finais do ano, a gente vai trabalhar em conjunto com os jogadores e a comissão para pensar em um possível substituto, para manter o time e quem sabe até elevar (o nível). Quem sabe vai ser na minha saída que o negócio vai decolar mais ainda. É trabalhar para isso.
E você vai participar ativamente dessa busca do seu substituto? E esse substituto será capitão ou não necessariamente?
— É cedo para dizer exatamente como vão ser as transições. Em termos de liderança, sinto que o YEKINDAR assumiu um papel dentro do time, que ele compartilha essa liderança comigo em vários sentidos dentro da equipe. Vai depender muito das pessoas que podem substituir, de como alocar.
— Toda vez que a gente coloca alguém no time, se perde muita coisa no jogador que sai e se ganha muita coisa no jogador que entra. Um time não é uma receita de bolo. Seria muito fácil se a gente soubesse qual é a adição que precisa fazer para sair a fórmula secreta, mas a verdade é que se descobre no processo. Eu pretendo continuar com a FURIA. Vou continuar com a FURIA em diversos outros projetos e pretendo estar nessa posição de ajudar o time de Counter-Strike também.
— Para o meu futuro tem coisas ainda a serem descobertas, mas é certo de que eu vou continuar fazendo coisas legais para o ecossistema. O molho da minha carreira foi melhorar a mim mesmo para poder melhorar os demais que estão ao meu redor. Então é continuar trabalhando na minha pessoa para que eu possa continuar pensando em maneiras de inovar e maneiras de ser criativo para ajudar as pessoas do ecossistema. Talvez eu não faça mais isso jogando dentro do servidor, mas vão existir muitas outras maneiras de fazer isso em outros trabalhos.
Quando você bateu o martelo que iria se aposentar ao fim deste ano?
FalleN conta quando decidiu que iria parar: “Estava interessado em marcar uma data”
— Foi umas três, quatro semanas atrás. Voltei a conversar com o Guerri e disse que eu realmente estava interessado em já marcar uma data para a gente poder começar a fazer as mudanças necessárias, porque não é bacana deixar supetão. “Estou saindo, se virem aí agora”. É uma transição grande e precisa de bastante atenção. Umas três semanas atrás eu conversei bastante com o Guerri e o Akkari, e a gente veio pensando em coisas legais, maneiras de se fazer isso. O Akkari comentou: “Por que você não aproveita o IEM Rio? Faz alguma coisa, fala com a galera. Carreira grande, merece fazer uma coisa bacana”. A gente pensou em maneiras de dar essa mensagem e, aos poucos, estamos pensando também em coisas que a gente pode fazer no futuro.
Encerrando a carreira de jogador, quais são os planos profissionais daqui para a frente?
FalleN detalha planos profissionais e admite ser dirigente: “Não consigo viver fora do CS”
— Meus planos profissionais são certamente de não deixar o ecossistema. Não consigo viver fora do Counter-Strike, é praticamente impossível.
— Não tenho pretensão de ser treinador de CS. Tenho pretensão de ajudar a equipe de outras maneiras, ir para algum torneio, acompanhar e tal, mas de ser treinador não tenho pretensão. Primeiro que temos um grande treinador aqui no time, o Sid, e segundo que a vida de treinador é muito semelhante à de jogador. É tão difícil e viajada quanto. Seria loucura sair dessa posição para entrar numa outra sequência e não faria nenhum sentido.
— Minha pretensão é realmente passar mais tempo num local. Eu tenho preparado uma base para mim, uma casa no exterior e uma em Itapetininga, no interior de São Paulo, para que, quando estiver tanto no Brasil quanto fora, eu tenha o meu local de transmissões, local de trabalho, onde possa criar meus conteúdos. Eu pretendo me colocar numa posição de tentar passar conhecimento do jogo para as equipes brasileiras, dentro das transmissões ou em conteúdos no YouTube mesmo. Pretendo, quem sabe, abrir um canal de comunicação mais no estilo podcast, conversando com o pessoal sobre assuntos. Tem diversas coisas que eu posso buscar, estar mais em contato com o pessoal, agora que eu vou ter mais tempo livre para trabalhar na questão de conteúdo.
— Além de continuar nessa gestão junto com a liderança de CS da FURIA. Quem sabe assumir alguns outros papéis dentro da organização. Tem bastante coisa legal para a gente fazer. Ainda é difícil de materializar tudo o que dá para fazer, mas eu tenho certeza que, quando tiver com bastante tempo livre, vai aparecer muita coisa bacana para ser feita.
Pode ter, então, um FalleN como dirigente na FURIA, é isso?
É possível, sim. Inevitavelmente, aos poucos, conforme eu for poder auxiliando e tiver espaço, com certeza vou estar à frente de outras oportunidades.
O seu contrato acaba no final desse ano ou você vai ter que rescindir?
Contrato de FalleN termina no fim de 2026: “Sabem que já estou nesse processo há tempo”
— O meu contrato acabava dois anos depois que eu entrei na FURIA. E aí eu renovei para estender mais seis meses para terminar a temporada. E aí agora, neste começo de ano, a gente renovou por mais um ano, para terminar esta temporada. Mas é aquela renovação do tipo “renova e vamos ver até onde a gente consegue ir”. O pessoal me acomoda muito bem. Eles sabem que eu já estou nesse processo há algum tempo. É muito bem conversado entre as duas partes no sentido de vamos levando o máximo que você puder e vamos fazendo conforme for bom para os dois.
E como os seus companheiros reagiram à sua decisão de parar neste ano?
FalleN admite que saída traz incertezas a companheiros: “Mas o pessoal tem levado bem”
— Eles já têm vivido esse processo um pouco comigo, então inevitavelmente eles já sabiam do risco de eu parar até mesmo antes. É um sentimento de que estamos estendendo o máximo possível, que eles estão aproveitando o máximo que eles podem esse tempo comigo.
— De certo modo, adiciona um pouco de incerteza, não vou negar, na carreira deles. Um pouco do dia a dia, “putz, daqui um tempo vai ter uma outra pessoa conosco, vou sentir falta, quem será que vai ser, como a gente vai fazer para repor”. Ao mesmo tempo dá aquela sensação de “final da carreira do FalleN, vamos dar um gás, vamos fazer ser especial, vamos nos comprometer ainda mais”. É uma mistura dessas duas coisas, mas o pessoal tem levado bem.
— Querendo ou não, nossas diferenças de idade são grandes. Maioria deles têm 26 anos, o Molodoy tem 20, eu estou indo para 35 neste ano. É uma oportunidade de aprender também que as pessoas vivem coisas semelhantes em momentos diferentes da vida, e cada uma delas exige e abre oportunidades para coisas diferentes.
Fazendo um balanço da sua carreira, você foi um melhor AWPer ou capitão?
FalleN foi um melhor capitão ou AWPer? Ele mesmo reponde
— Comparado com os demais do mundo, seria seguro dizer que eu fui um melhor capitão. Nas discussões entre os melhores da história, eu entraria melhor colocado como capitão do que como “alper”. Mas, sem dúvida, fui um grande AWP também. Tive muito tempo de carreira. Considero que minha melhor fase individual foi em 2009 e 2010. Embora eu não tenha conseguido vencer grandes torneios internacionais, eu realmente jogava muito bem em termos individuais nessa época. Tive um outro auge em 2016 e 2017, o grande auge, dos títulos recentes, os mundiais. E agora tenho vivido um auge como equipe, como capitão, numa equipe de novo em 2025. Eu responderia como capitão devido à comparação com os demais companheiros de profissão.
Qual balanço você faz da sua carreira? Você concorda que é o maior nome dos esports no Brasil?
FalleN relembra início e carreira no CS: “O que vou levar são as pessoas e os momentos”
— É difícil ficar se autoafirmando. Eu posso dizer que comecei muito garoto, em uma época que não existia a pretensão de ser profissional de esporte eletrônico. Foi um grande risco ter apostado nisso. Ajudei a construir um pouco o caminho para as pessoas aceitarem mais essa profissão no nosso país.
— Tinha um desejo de jogar com meus irmãos no início. Eu comecei a jogar nas lan houses em 2003, meus irmãos me levaram. Eles voltavam para casa extasiados. E eu falei: “Será que um dia vão me levar? Os caras estão felizes, nunca os vi tão felizes assim”. Meus pais que não deixavam eu ir no começo, meu irmão que brigava para me levar. E um dia eu fui. Quando eu fui, peguei a primeira kill no servidor e apareceu na tela “você ajudou as forças do seu time a vencer um ponto”, algo assim. Falei: “É isso, muito legal, se eu ficar bom neste jogo aqui, vou ajudar mais ainda”.
— Foi nascendo esse desejo de melhorar o meu jogo. Lembro no começo que outra coisa que me impulsionou muito foi meus irmãos não deixarem eu jogar no time deles, eu não era bom o suficiente. Tinha que dar um jeito de provar para eles que eu merecia entrar no time deles. Eventualmente consegui entrar, mas hoje estamos aí, 8050 dias de carreira depois, quem sabe agora eles acham que eu posso jogar no time deles, vamos dizer assim.
— Muito tempo de estrada se passou desde esse desejo inicial. Para mim, esses são os pontos marcantes da carreira, o porquê eu comecei a jogar e tudo que eu passei para conseguir construir essa oportunidade de profissão. Tantos e tantos times pelos quais passei, pessoas maravilhosas que eu conheci, jogadores incríveis com quem joguei junto, grandes orgs, todo esse ecossistema. Os pontos principais mesmo que eu vou levar dessa experiência toda são as pessoas que eu conheci nesse processo e os momentos que eu vivi com eles. Pessoas que marcaram muito na minha carreira foram o Dead e a Camila, quando abriram a oportunidade a gente de viver no exterior e abriram a casa deles quando a gente mais precisava. São momentos assim que marcaram. São os pontos-chaves que fizeram tudo valer muito a pena.
Qual foi o momento mais feliz da sua carreira?
FalleN elege 1º Major como melhor momento da carreira: “Ninguém tinha garantia de vida ainda”
— O momento mais feliz da carreira certamente foi o primeiro Major. Ali culminou de a gente estar subindo como time naquela época, nesse projeto nos Estados Unidos, todo mundo sacrificando muito e tendo que buscar o osso para roer, ninguém tinha uma garantia na vida ainda. Todo mundo se arriscando e a gente dividia quartos para poder competir. Era uma vibe totalmente diferente da que hoje é capaz de se viver, uma vibe muito especial. Quando a gente venceu o primeiro Major, minha esposa Letícia estava lá presente também. Foi uma junção assim, parecia que todos os pontos tinham convergido para aquele momento, então todas as decisões que eu tomei na minha vida, todos os riscos, todas as escolhas convergiram para aquele momento de felicidade, de levantar um título mundial e colocar o Brasil no topo. Nada, nenhum outro título depois disso, deu a onda que esse campeonato deu. Foi uma convergência muito grande de todos os acontecimentos da minha vida. Foi o mais incrível.
E o pior momento da carreira?
FalleN coloca eliminação em jogo inicial de torneio na Suécia como pior momento da carreira
— O pior? Essa é boa. Tiveram alguns momentos difíceis, não vamos negar. São 8050 dias de carreira, alguns dias de títulos e muitos outros dias de muita garra e luta. Foram muitos dias difíceis. Teve um campeonato que a gente viajou. A gente estava fazendo um projeto da Seleção Brasileira de Games com o Gaules, em 2011, 2021, por ali, e a gente foi jogar um campeonato na Suécia, em que tinha que levar os próprios computadores e, para entrar no torneio, tinha que jogar um torneio aberto contra o pessoal que levou os PCs também. A gente acabou enfrentando um time bem decente na época no primeiro jogo e perdemos por tipo 16 a14 e acabou ali o torneio. Eu lembro do Fênix passando e falando “e aí, qual é o próximo jogo?” Meio desligadão, o Fênix não estava ligado. “Não tem próximo jogo, é só este mesmo”. Foi, fizemos um puta bootcamp, jogamos uma partida só. Foi um dia muito triste, porque era um time que tinha como jogar muito bem e acabou não podendo fazer muita coisa.
Do que você mais se orgulha e do que se arrepende na carreira?
FalleN nega arrependimentos na carreira: “A gente costuma fazer o melhor que pode na ocasião”
— O que eu mais me orgulho na carreira, realmente é de ter conseguido, nesse processo todo de 23 anos, pensar em como melhorar o meu jogo, como melhorar como pessoa e me descobrir como pessoa durante todas as oportunidades, ao mesmo tempo que sempre tentei estender a mão e ajudar a melhorar outras pessoas ao meu redor também. Foram muitas e muitas coisas que eu fiz, muitos projetos, muitos conteúdos, muitos companheiros de time que tive. Sempre foi muito natural. Eu acho que é uma coisa pessoal minha, buscar uma maneira de melhorar a mim e aos que estão ao meu redor. Esse é o meu maior orgulho de tudo que eu fiz em 23 anos.
— E o arrependimento é difícil dizer, porque a gente costuma conseguir fazer o melhor que pode na ocasião. Depois que passa um tempo, a gente amadurece, [olha para trás e fala “caraca, de repente aquela pessoa que eu removi do time deveria ter feito diferente”, “deveria ter me posicionado um pouco diferente nisso ou naquilo”, “se eu tivesse mais maturidade e pudesse encarar um pouco mais alguns enfrentamentos que eu deveria ter tido, talvez tivesse tido outros resultados” ou “vi que alguém estava vacilando em alguma coisa e no momento eu não consegui lidar da melhor maneira, mas meses depois, anos depois, valia a pena ter conversado com essa pessoa antes, feito ela enxergar uma outra coisa que a gente jogava na época, quem sabe a gente teria tido outro resultado”.
— É difícil dizer, porque na época a gente só faz o que consegue, então eu tenho um sentimento de não ter arrependimento nesse sentido, porque é uma certa aceitação também sobre quem a gente é nas ocasiões. Certamente tiveram muitos aprendizados de coisas que eu faria bem diferente, mas depois de mais experiente. Engenheiro de obra pronta está cheio, né, ainda mais no CS. Depois que o jogo já foi, depois que o mapa já foi, o ponto já foi, o campeonato já acabou, “putz, tinha que ter jogado aquele mapa” ou “aquela tática seria melhor”. Mas na hora é o que importa.
Você é, desde o CS:GO, o principal nome do Counter-Strike. Tem alguém com potencial para despontar e passar a ser o seu substituto como principal jogador brasileiro?
— Essa é uma posição que vai ser um pouco difícil de ser atingida pelo fato de que são muitos anos. Está comparando com alguém que ficou 23 anos no cenário fazendo alguma coisa. Desejar passar isso para alguém, não sei se… Já tive essa conversa com as pessoas, “a gente precisa encontrar uma outra pessoa, FalleN, como é que vai ficar? Vamos ficar carentes de alguém fazendo isso”. O mais importante é que eu consiga continuar fazendo essa propulsão do Counter-Strike de outras maneiras agora, como eu venho fazendo. É a minha intenção, porque esse jogo é muito importante na minha vida e mudou a minha vida. Minha vida inteira é baseada nele. Se parar para pensar, eu estou há 23 anos jogando, tenho só 13 sem jogar. Estou quase no dobro de tempo de CS sem CS, então eu não consigo nem me enxergar sem o Counter-Strike. É importante que eu consiga usar isso a nosso favor, em termos de comunidade, de dar espaço e voz para mostrar essas outras pessoas que existem no Brasil, mas a ponto de elas conseguirem repor esse espaço ou talvez eu crescer dessa maneira, eu acho que só fazendo uma boa trajetória também, só sendo elas mesmas, só conseguindo conquistar os objetivos que estão buscando.
— E, sim, tem pessoas no Brasil com muito potencial. Tem jogadores na FURIA, nos times que estão bem e podem despontar. E o destino só a eles e ao trabalho duro deles reserva. Cada um deles vai ter que buscar seu próprio caminho, e eu espero poder auxiliá-los do jeito que for possível. Diferentemente dos campeões do Penta, que a gente brinca que não torcem para ganhar, eu não tenho esse sentimento. Eu desejo que as pessoas vençam muito mais do que eu venci, eu desejo que elas sejam maiores do que eu fui. Não tenho nenhuma pretensão de tentar preservar qualquer tipo de posto que eu esteja, porque se tem uma coisa que eu sei é que, desta vida, não levamos nada, só realmente o que a gente pode fazer de bom ao próximo. O pessoal pode contar comigo no que for possível.
— Esse assunto me dá oportunidade de dizer que, mesmo continuando de alguma maneira na FURIA, eu pretendo ajudar as outras organizações do Brasil em outros projetos e outros jogadores do Brasil. Podem contar comigo como alguém que que vai brigar pelas boas oportunidades para todos que estão no nosso cenário e não só para um grupo seleto. Eu realmente estou para ajudar os brasileiros no que for possível, e todos os projetos no futuro vão ter esse viés de complementar a comunidade da melhor maneira possível. geRead More