Ídolo como poucos, Oscar transcendeu as quadras para habitar o cotidiano brasileiro
Não há qualquer problema na propensão brasileira de se encantar, de tempos em tempos, com esportes historicamente menos populares. Em um país que tem as atenções voltadas quase que exclusivamente ao futebol, onde a cultura dos esportes olímpicos ainda se estabelece, é a forma encontrada para dialogar com outras modalidades. Assim, quando um ídolo surge fora dos gramados, o seu caminho exigiu o dobro do esforço — e o seu impacto muitas vezes transcende o próprio esporte.
Uma das lembranças de infância persistentes me remetem a quando a gurizada da rua resolveu que se dedicaria ao basquete. Pegamos um aro de bicicleta, tiramos os raios e pregamos a cesta improvisada em um poste, em altura condizente com o tamanho dos futuros campeões olímpicos (cerca de um metro e meio, no caso).
Essa gambiarra suburbana aconteceu logo após a seleção brasileira de basquete vencer o time dos Estados Unidos, em Indianápolis, em 1987. Naquele jogo, uma espécie de Maracanazo para o basquete norte-americano, Oscar Schmidt havia marcado nada menos que 46 pontos, muitos deles nas sete cestas de três que converteu. Além de talento indiscutível, o Mão Santa, na verdade, tinha uma mão incansável: era um obsessivo dos arremessos, treinando até quinhentos movimentos por dia.
Adeus de uma lenda do basquete: Oscar Schmidt morre aos 68 anos
O desempenho da seleção brasileira naquela jornada em terras yankees transformou a própria história do basquete, pois os Estados Unidos perceberam que, para não correrem o risco de sucumbir novamente, não havia opção a não ser formar o Dream Team que anos depois entraria em quadra. Dessa forma, apenas devido à performance avassaladora de Oscar foi possível assistir, jogando juntos, nomes como Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, Charles Barkley e Karl Malone.
Mas isso é um aspecto mínimo na trajetória de Oscar. Os americanos que se virem lá com suas derrotas e seus traumas. Por aqui, o impacto foi mais profundo: em um país que convivia com inflação galopante e incertezas de toda ordem, após sair de uma ditadura e ingressar em uma democracia ainda titubeante, o choro vitorioso de Oscar era uma pausa para a felicidade. O momento de perceber que era possível. O incentivo para pregar aros de bicicleta nos postes, e o futuro que nos aguardasse porque dali em diante seria só arremesso de três.
Oscar é um dos três brasileiros que integram o Hall da Fama do basquete dos EUA
Nathaniel S. Butler/NBAE via Getty Images
Ao saber de sua morte ontem, aos 68 anos, nos despedimos de alguém que conquistou o que poucos conseguem, mesmo quando falamos de ídolos: Oscar interferiu no nosso cotidiano e passou a fazer parte da vida rotineira do país. Tornou-se praticamente sinônimo do esporte que representava, e não apenas por ser o maior pontuador da história das Olimpíadas e, até pouco tempo atrás, o maior cestinha do basquete — com mais de 49 mil pontos, havia superado Kareem Abdul Jabbar e apenas há um par de anos teve seu recorde batido por Lebron James. (Percebam o nível dos nomes envolvidos.)
Graças a Oscar, crianças de várias gerações em algum momento pensaram que haviam nascido para jogar basquete, mesmo vivendo no país do futebol. Assim como todo mundo improvisou uma raquete de madeira depois do surgimento de Guga. São nomes que transcendem a sua modalidade. A influência no esporte supera mesmo a medalha olímpica que não veio, e prova disso é o reconhecimento de alguém como Kobe Bryant. Esse era o tamanho de Oscar: idolatrado pelos ídolos. Mais do que isso, em muitos momentos um personagem capaz de alterar a forma como Brasil enxergava a si mesmo.
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