Júnior Moraes lembra traumas da guerra na Ucrânia e dificuldades no Corinthians: “A batalha da mente é a pior”
Júnior Moraes, ex-Corinthians, conta como liderou grupo para fugir da guerra na Ucrânia
Poucos jogadores viveram o que Júnior Moraes enfrentou durante a carreira. Desde ser revelado pelo Santos e deixar o Brasil ainda jovem, passando por defender a seleção de outro país até liderar um grupo para fugir de uma guerra. O ex-Corinthians conversou com o ge sobre essas experiências, que são detalhadas em seu novo livro: “A estratégia da mente blindada”.
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— Eu não queria me abrir para a imprensa e nem para ninguém (quando foi para o Corinthians após conseguir sair da Ucrânia). Eu achei que era uma guerra minha comigo mesmo, que eu tinha que lutar sozinho. E hoje eu posso falar para os atletas, para todo mundo, que essa guerra não é sua. Você precisa de ajuda, você precisa compartilhar isso com as pessoas certas, com os profissionais certos. Você precisa entender que a batalha da mente é a maior batalha que a gente pode enfrentar — contou Júnior sobre a luta contra o trauma.
Júnior Moraes em ação pelo Corinthians
Marcos Ribolli
Faz dois anos desde que Júnior Moraes entrou em campo pela última vez. Ele estava no Corinthians e havia pouco mais de um ano tinha vivido a experiência mais traumática de sua vida: tentar sair da Ucrânia, onde defendia o Shakhtar Donetsk, em meio ao início dos ataques da Rússia.
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Júnior conta como a lembrança do dia 24 de fevereiro de 2022 ainda é viva na sua memória.
— Eu fui dormir em paz no meu apartamento. Acordei às cinco da manhã com meu fisioterapeuta me chamando. Minha família estava no Brasil, eles iam chegar dois dias antes da guerra. Só que por uma, não posso dizer coincidência, mas uma obra de Deus, a babá que trabalhava com a gente testou positivo para Covid e eles não puderam voar. O fisio entrou no meu quarto, totalmente transtornado, mas não conseguia expressar. Eu acordei pensando que era um pesadelo. Ele ficava apontando para eu escutar um áudio. Quando eu escuto, dizia que a guerra começou e já tinha ataques em Kiev.
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A partir dali, segundo suas palavras, começaram o “caos e uma corrida contra o tempo”. O foco era reunir os jogadores e conhecidos do clube, achar mantimentos e descobrir uma maneira de deixar o país o mais rápido possível.
Júnior Moraes, ex-atacante, lança o livro ” A estratégia da mente blindada” pela Editora Gente
Divulgação
Júnior relata que formou um grupo de 40 brasileiros, incluindo familiares, idosos e crianças – a ideia era se unir para buscar uma solução coletiva e evitar uma tragédia maior. Com pouco acesso à comunicação e comércios fechados, o passo seguinte foi pedir ajuda ao diretor do Shakhtar para conseguir um lugar seguro para permanecer.
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— Tinha um hotel onde a gente se concentrava, que não tinha um bunker, mas tinha uma sala no meio do hotel. Então, no caso de cair o míssil, bateria primeiro numa parede e depois a segunda parede era a gente. Teria uma proteção extra. Lógico que a parede não ia segurar o míssil, mas pelo menos a gente não ficava em janelas — explicou sobre o local onde ficaram por cerca de quatro dias.
Júnior manteve contato com o governo brasileiro e com o presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, que buscava opções de resgate através da Federação da Ucrânia. Depois de dias “sem dormir” e uma viagem de trem que demorou o dobro do tempo normal por causa dos ataques, o grupo conseguiu deixar o país.
Júnior Moraes ganha abraço da família no Aeroporto de Guarulhos
Reprodução
A despedida naquelas condições teve um peso ainda maior para Júnior Moraes. Além da tristeza pela guerra, ele nutre uma relação de carinho com a Ucrânia. Foram quase dez anos no país, com atuações no Metallurg Donetsk, no Dínamo de Kiev e no Shakhtar. A adaptação não foi fácil inicialmente pelas diferenças culturais, mas aos poucos o lugar se tornou sua casa.
O ex-jogador se naturalizou ucraniano, disputou 11 partidas pela seleção do país e até hoje mantém contato com os amigos que fez por lá.
A Ucrânia me trouxe aprendizados muito fortes para a vida, e eu não falo só para mim, mas para minha família. Eu me emociono porque vi meus filhos orando todos os dias, pedindo para que essa guerra acabe e a gente possa voltar para lá
Ao voltar ao Brasil, o Corinthians foi o clube que o recebeu, mantendo a tradição de só atuar em times paulistas no futebol brasileiro – ele foi revelado pelo Santos e também defendeu Ponte Preta e Santo André.
Júnior Moraes comenta estresse no Corinthians: “Batalha da mente é a pior de todas”
O alívio de voltar a jogar se misturou com o choque de perceber que o corpo não estava pronto para essa decisão. Um “misto de sentimentos”, segundo Júnior. A passagem pelo Corinthians foi marcada por alergias descontroladas, febres e calafrios sem explicação, dores e inchaços. As crises resultaram em uma trajetória modesta no time: ele disputou 21 jogos e marcou apenas um gol.
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— Eu fazia muita força para conseguir treinar, para ir aos jogos, mas eu nunca conseguia chegar nem perto do meu normal. Tomava várias injeções de imunidade, até por uma desconfiança de ter uma doença autoimune, então eu pagava 12 mil reais em cada injeção. Uma por semana. Antes do meu único gol pelo Corinthians, eu passei a madrugada no hospital tomando remédio para desinchar a cara depois de uma crise alérgica.
Eu gostaria de ter curtido muito mais o Corinthians, porque a gente tinha um time muito bom. Eu joguei contra Real Madrid, Manchester City, França, mas eu nunca vi nada igual à torcida do Corinthians, queria ter vivido mais isso
Depois de ser afastado pelo então treinador Vanderlei Luxemburgo, ele entrou na Justiça do Trabalho para obter a rescisão do contrato. Obteve uma liminar e fez um acordo com o Corinthians, em que o clube se comprometeu a pagar valores que devia, e Júnior concordou em abrir mão da indenização por dano moral e outras verbas.
Júnior Moraes abre goleada do Shakhtar sobre o Basel
Wolfgang Rattay / POOL / AFP
— Eu nunca tinha vivido uma guerra. Então, no pós-guerra minha cabeça era assim: “Passei o momento mais difícil da minha vida. Eu saí, não estou correndo risco. Então agora eu vou voar, vou jogar muito pelo Corinthians e vou promover a paz da Ucrânia”. Esses eram meus dois objetivos. O time era muito bom, tinha ali uma expectativa muito grande. Eu queria performar, até pela história de como fui em todos os lugares em que joguei. E aí chegando no Corinthians e não conseguindo, a maior cobrança não foi externa, a maior cobrança veio da minha mente. Por isso que hoje lançando o livro eu falo muito sobre mente blindada, para a gente entender que, se a mente não estiver saudável, o corpo vai gritar. E ele gritou e eu não estava entendendo o que era — contou Júnior.
A saída permitiu que ele focasse na sua saúde mental. O anúncio da aposentadoria veio cerca de um ano depois, quando Júnior entendeu que precisava de mais tempo com a família e que queria se dedicar a novos desafios.
A escrita, por exemplo, foi um hábito construído com o tempo até que ele decidisse escrever um livro. O objetivo era compartilhar os aprendizados que teve na carreira e ajudar no crescimento de outras pessoas mostrando que as “dificuldades são oportunidades de crescimento”. geRead More


