Opinião: mais que três pontos, vitória traz à Lusa paz, ambiente e foco para Série D
Pouso Alegre perde por 3 a 0 para a Portuguesa na Série D do Brasileiro
Uma vitória fundamental. Não só pela pontuação, pela boa classificação no grupo A13 ou por ter sido o primeiro jogo em casa nesta Série D do Campeonato Brasileiro. Foi fundamental, principalmente, por tudo que significou no atual momento da Portuguesa.
Foram duas semanas caóticas. Que começaram com desgaste entre torcida e SAF, passaram pela saída conturbada e litigiosa do técnico Fábio Matias, dispersão total de foco entre o elenco, e início de trabalho do novo treinador Ademir Fesan.
Aquele empate por 1 a 1 com a Portuguesa-RJ, na Ilha do Governador, na primeira rodada, foi totalmente impregnado pelo extracampo. Era preciso, diante do Pouso Alegre-MG, no Canindé, como escrevi aqui, estrear de fato na competição.
Era preciso vencer para acalmar os ânimos na arquibancada e na SAF, reunir e embalar novamente o elenco, iniciar com moral e ótimo clima a fase Ademir Fesan e, acima de tudo isso, finalmente eliminar as distrações e voltar todo o foco para a Série D.
Portuguesa venceu o Pouso Alegre no Canindé
Divulgação / SAF Pouso Alegre
Quando se fala em “vencer ou vencer”, o velho clichê do futebol, pensa-se mais em resultado do que em desempenho. No caso da Lusa, ao superar o Pouso Alegre-MG por 3 a 0, houve um casamento entre as duas coisas. Foi uma vitória incontestável.
A Portuguesa teve superioridade ao longo dos cerca de 100 minutos. Teve a bola, o domínio e o controle das ações. Abriu o placar cedo, aos 15 minutos, com mérito. Thiaguinho vinha pela intermediária, encontrou João Vitor descendo livre. O lateral direito dominou, levantou a cabeça e cruzou à perfeição para Igor Torres.
Igor Torres, perto da marca do pênalti, subiu para cabecear. Um cabeceio forte, seco, certeiro, sem chances para o goleiro Thiago Braga. Ou seja, em poucos minutos, a Lusa tratou se demolir a clara estratégia do Pouso Alegre-MG de amarrar a partida.
Dava para a Portuguesa ter ampliado tranquilamente nos minutos seguintes. Houve duas chances com Cadorini, uma de cabeça e outra entrando na área pela esquerda, parando no goleiro. E outras duas com Maceió, um furo de cabeça e um chute rente à trave.
Oportunidades desperdiçadas que permitiram ao Pouso Alegre-MG ter a esperança de buscar o empate. O time que começou fazendo cera terminou o primeiro tempo tendo levado um belo de um susto à meta defendida pelo goleiro Bruno Bertinato.
Contragolpe em velocidade, descida pela direita, defesa rubro-verde desarmada. Coube ao lateral direito João Vitor salvar quase em cima da linha. Não só o primeiro chute. Mas o rebote, quando a zaga lusitana conseguiu ainda perder a bola dentro da área.
Portuguesa x Pouso Alegre, Série D do Brasileiro
Victor Bessa / Portuguesa SAF
Esse gás para buscar o resultado perdurou até o início do segundo tempo, quando André Anderson desceu por um corredor direito novamente livre, invadiu a área e só não marcou porque demorou a finalizar. O zagueiro Gustavo Henrique travou de carrinho.
Não muito depois, a equipe mineira ainda quase aproveitou um escanteio pela direita para balançar as redes. Bertinato defendeu em dois tempos. No entanto, naquela quase sobra no rebote, muito torcedor lusitano prendeu a respiração e sentiu o frio na barriga.
Foi depois de o técnico Ademir Fesan começar a mexer no time que a Portuguesa voltou a transformar a posse de bola e a superioridade técnica em chances de gol. Naquela altura, a entrada do meia-atacante Guilherme Santos na vaga do meia Denis.
Logo de cara a Lusa voltou a ter mais volume e pisar mais no campo de ataque. O lance que marca essa virada é a finalização de João Vitor, da entrada da área, para boa defesa. Desse caldo saiu um escanteio que Maceió cobrou com muita perspicácia. Viu o meia Guilherme Portuga livre na intermediária. Em vez de cruzar, tocou para trás, para ele.
Portuguesa x Pouso Alegre, Série D do Brasileiro
Victor Bessa / Portuguesa SAF
Portuga teve tempo de dominar, olhar e finalizar com força. A bola desviou na zaga mineira e foi morrer no fundo das redes. O goleiro Thiago Braga não conseguiu alcançar e, não a toa, queixou-se do desvio. Era o gol que matava o jogo: 2 a 0.
Ali, sim, o Pouso Alegre-MG sentiu. Ademir Fesan tratou de fazer as outras alterações. Cecchini e Hudson no lugar de Portuga e Thiaguinho, reforçando a marcação no meio. João Diogo e Cauari na vaga de Igor Torres e Maceió, dando novo fôlego à frente.
João Diogo, aliás, contratação tão contestada pela torcida, por carregar no histórico recente más atuações e casos de indisciplina, teve a chance de estrear da melhor maneira possível. Cadorini interceptou uma péssima saída do goleiro Thiago Braga e, dentro da área, rolou para João Diogo. O atacante estava na pequena área e com o gol aberto.
O chute foi em direção à chaminé da churrascaria, para não dizer a Marginal Tietê. Difícil não considerar o psicológico, a ânsia de fazer dar certo, a afobação. Como no cartão amarelo que tomou naquele instinto de reagir à agressão a um colega.
Mas o terceiro gol veio. Ligação direta de Bertinato para a intermediária do ataque, desvio de cabeça providencial de Cadorini que virou um passe milimétrico a Cauari, toque de primeira, certeiro, matando o goleiro já na área. Placar final: 3 a 0.
Portuguesa x Pouso Alegre, Série D do Brasileiro
Victor Bessa / Portuguesa SAF
É bastante precoce tirar conclusões do que tem ou não tem o dedo do técnico Ademir Fesan. Assim como é bastante injusto fazer críticas a dificuldades desse time. Afinal, o novo treinador foi para a estreia com menos de uma semana de trabalho com o elenco.
É verdade que a Lusa vem de um primeiro trimestre muito bom. Um time que foi evoluindo, ganhando corpo e construindo uma identidade própria de jogo com o agora ex-técnico Fábio Matias. E que, portanto, não se encara uma bagunça ou terra arrasada. Por óbvio, Ademir Fesan acertadamente repetiu a escalação da rodada anterior.
Mas também é exagerado dizer que Fesan tem a tarefa de apenas dar continuidade. A Portuguesa do Paulistão perdeu cinco titulares: o lateral esquerdo Caio Roque, os meias Zé Vitor e Gabriel Pires, e os atacantes Ewerthon e Renê. Foco no meio para a frente.
Fábio Matias não teve nem tempo de encontrar uma solução para esses pontos. Pode ter treinado, testado, mas saiu quando começou o campeonato. Não são tantas as opções dentro do elenco para se criar algo totalmente novo, é também uma verdade.
Só que essa solução caberá à gestão Ademir Fesan. Uma solução que demanda tempo, trabalho, conhecimento de elenco, testes. A primeira fase da Série D, aliás, é um período perfeito para isso. E é ótimo que esse período se inicie com essa vitória.
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Sim, há dúvidas quanto ao meio-campo. Se esse, que foi desenhado por Fábio Matias, é o ideal. Se não há o que mexer ainda dentro do elenco. Ou se não seria necessário ainda ir ao mercado para reforçar o setor, apesar de a SAF entender que não precisa.
Também há algumas preocupações bastante plausíveis em relação ao ataque. Que, diante de outros adversários, mais qualificados, poderia pagar caro pelas chances perdidas. Ou até por certa dificuldade de finalizar entre o primeiro e o segundo gols.
É impossível avaliar a primeira fase da Série D sem ter os olhos voltados ao mata-mata. Acaba sendo, e tem de ser mesmo, uma preparação. Que será conduzida por Ademir Fesan. Técnico que não só merece como precisa de calma e paz para trabalhar.
Só com o andamento das rodadas é que se poderá avaliar essas preocupações com justiça e coerência. De momento, é celebrar. A vitória real talvez nem seja a do campo, mas o bom início de uma nova fase, a volta da paz e finalmente o foco na Série D.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site. geRead More


