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Sacrifício do pai e fuga da guerra forjaram Vitão para viver sonho no Flamengo: “Superou a expectativa”

Sacrifício do pai e fuga da guerra forjaram Vitão para viver sonho no Flamengo: “Superou a expectativa”

Vitão comenta disputa por vaga na zaga do Flamengo: “Para mim, é uma honra”
Vitor Eduardo da Silva Matos nasceu em Jacarezinho, no interior do Paraná, em fevereiro de 2000. Aos 13 anos, mudou-se para uma cidade a 150 km da família. Antes dos 15, quase triplicou a distância. Aos 19, já estava a 40 horas da terra natal. Tudo aconteceu muito rápido na vida do zagueiro, mas nada foi fácil. Sentiu falta de casa, viu o pai enfrentar dificuldades, encarou uma guerra. Aos 26 anos, Vitão colhe os frutos da luta individual e familiar no Flamengo.
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Voz do Setorista: Vitão comenta preparação do Flamengo na Data Fifa
O reforço chegou ao clube depois de temporadas de destaque no Internacional, mas, apesar do prestígio, que fizeram clubes brigarem pelo seu passe, Vitão encontrou no Rio de Janeiro um tipo diferente de batalha. Concorre com uma linha defensiva digna de seleção brasileira e ainda não se firmou como titular. Participou de oito dos 17 jogos do time na temporada.
— Para mim é uma honra, todos com nível de seleção brasileira, tanto que todos já foram convocados. Quando surgiu a oportunidade, eu não pensei duas vezes. Procuro ao máximo aprender com eles nos treinamentos, é uma disputa muito boa e quem tem a ganhar é o Flamengo. É muito tranquilo. Eu como o mais novo de idade e de casa, procuro aprender com eles e mostrar nos treinamentos. Tento agarrar as oportunidades e ajudar o máximo possível — declarou Vitão ao ge.
— Já joguei com os três. Estreei com o Léo Pereira, depois joguei com o Léo Ortiz e com o Danilo. Cada zagueiro tem sua característica, também procuro acrescentar o máximo para eles. Assim como eles passam muita coisa para mim, eu também passo algumas coisas para eles, e é isso que dá esse casamento muito bem. Eu consegui me adaptar bem — completou o zagueiro.
Zagueiro Vitão, do Flamengo, em entrevista ao ge
Emanuelle Ribeiro
A Data Fifa vai dar a Vitão mais uma oportunidade como titular com Leonardo Jardim. Com Danilo e Léo Pereira convocados, o zagueiro deve jogar ao lado de Léo Ortiz nesta quinta-feira, às 21h30, contra o Red Bull Bragantino, fora de casa, pelo Brasileirão.
— O começo do ano não foi como a gente planejou, mas o Campeonato Brasileiro é longo e permite você perder alguns pontos, mas não permite você ficar perdendo pontos ao longo da competição. Se fosse para escolher o momento do campeonato para perder pontos, que seja no início. Depois, tem tempo para ajustar e conseguir uma sequência de vitórias. Já melhoramos bastante na competição e vamos melhorar mais ainda. É muito difícil jogar em Bragança, um adversário muito qualificado, mas independentemente do adversário, o Flamengo sempre entra para vencer — destacou o jogador.
O início de tudo
Vitão recorda sacrifícios do pai para que ele seguisse a carreira de jogador
Na apresentação ao Flamengo, Vitão se emocionou ao lembrar do começo da carreira de jogador de futebol. Com o pai acompanhando a entrevista coletiva no Ninho do Urubu, o zagueiro não conteve as lágrimas. Claudinei Matos é um dos responsáveis pela trajetória profissional do filho, que teve dificuldades para se adaptar longe da família e viu o pai largar tudo para acompanhá-lo.
— Sempre gostei muito de futebol, comecei a jogar futsal e, com 11 para 12 anos, fui para o campo. Quando surgiu a oportunidade de ir para o PSTC, de Londrina, eu fui sozinho. Tinha 13 anos, senti falta da família e dos amigos. Meu pai era pintor, ele conseguiu um quartinho lá e pegou alguns “bicos” para ficar comigo. Por isso me emocionei na minha chegada também. Depois quando, fui para São Paulo, foi a mesma coisa. Meu pai abandonou tudo, conseguiu um quartinho para ficar perto de mim.
— Foi bastante sofrido para mim e mais ainda para ele. Abdicou de muita coisa. Eu morava no alojamento, para mim nunca faltou nada, tinha café da manhã, almoço, janta, ceia… Para o meu pai faltou muita coisa para ele estar próximo de mim — recordou Vitão.
Vitão começou a carreira no Palmeiras
Cesar Greco/Ag. Palmeiras
Guerra
A carreira do zagueiro decolou longe de casa. Vitão se destacou na base do Palmeiras e foi convocado para todas as seleções brasileiras de base — foi capitão na conquista do Sul-Americano Sub-17 em 2017, no Chile. Entrou na mira do Barcelona e, depois de estrear pelo time alviverde, foi vendido para o Shakhtar Donetsk. Demorou a se firmar, mas, em 2020, o zagueiro esteve na equipe que venceu duas vezes o Real Madrid na Champions League:
— Primeiramente, um sonho realizado. Todo jogador de futebol quer jogar uma Champions League, e eu consegui realizar esse sonho muito jovem. Foi tudo muito rápido. Cheguei ao Shakhtar com 19 anos, já tinha passado por muitas coisas. Me adaptei muito rápido, era um clube com muitos brasileiros, morávamos todos no mesmo condomínio. Fiquei alguns meses sem jogar, jogando no time B, para ter ritmo, mas quando consegui a vaga de titular não saí mais do time.
Vitão conta que viveu dias tensos na Ucrânia por causa da guerra
Foi justamente quando pareceu que ia engrenar na Europa que o zagueiro do Flamengo sofreu um dos maiores baques da carreira e se viu no meio de uma guerra. Em 2022, a Rússia atacou Kiev pela primeira vez, marcando o início da invasão em grande escala da Ucrânia. Vitão e a esposa, Camila Souza, estavam dormindo quando mísseis e drones foram lançados sobre a cidade.
— Foram dias muito tensos. A gente estava em pré-temporada na Turquia, pronto para voltar para a Ucrânia para retomar o campeonato. As notícias já estavam circulando no Brasil, meus familiares todos perguntando, fomos conversar com o presidente do clube, e eles nos tranquilizaram. Confiamos e voltamos em um domingo, sendo que o campeonato ia retomar no sábado seguinte. Treinamos segunda e terça, quando foi na madrugada de quarta a guerra estourou — contou o atleta.
— Minha esposa tinha acabado de voltar para lá com meu filho de três meses. Ela acordou assustada com os jatos, claridade, e já vi a mensagem no grupo do Shakhtar, orientando que não saíssemos de casa, porque a Rússia estava atacando. De manhã, o clube informou que tinha um abrigo no hotel onde a gente concentrava. Os brasileiros combinaram de ir juntos, fomos em comboio para o hotel, no caminho poderíamos ser atacados, foi um momento bem difícil — completou ele.
Vitão deixou o Shakhtar Donetsk por causa da guerra na Ucrânia
Shakhtar Donetsk
Vitão relatou fuga da guerra nas redes sociais em 2022
Reprodução/Instagram
Dois dias depois do ataque, que aconteceu em 24 de fevereiro de 2022, Vitão deixou a Ucrânia com a família. Para retornarem ao Brasil, eles precisaram seguir para a Romênia e, depois, para a França. Chegaram a São Paulo no dia 1º de março.
— A retomada foi bem difícil. Assim que eu cheguei, o Internacional e outros clubes entraram em contato, mas eu não queria falar de futebol nas primeiras semanas. Minha mulher estava muito assustada, quando desembarquei minha mãe me abraçava e chorava. Precisei cuidar da minha cabeça e da minha família, não queria falar sobre futebol, mas dei minha palavra para o Internacional que, se eu optasse em ficar no Brasil, ia jogar lá. Fiquei duas semanas me cuidando, depois a Fifa abriu a possibilidade do empréstimo, e fechei com o Inter.
Vitão viveu temporadas de destaque no Inter
Ricardo Duarte/Divulgação, Internacional
“Fase ruim passa”
O Flamengo apareceu na vida de Vitão em janeiro de 2025. José Boto, com quem trabalhou no Shkhtar, tentou a contratação do zagueiro, mas o Inter não quis libera-lo. No decorrer da temporada, o clube rubro-negro flertou com o jogador, Filipe Luís falou pessoalmente que o esperava no Rio de Janeiro e, em dezembro, o “sim” aconteceu. A vinda ao Rio foi em um momento diferente da carreira, já consolidado e mais valorizado, com custo de R$ 65 milhões para o Fla.
— Acho que o sonho de 90% dos jogadores brasileiros é jogar no Flamengo, no Maracanã lotado, sentir o calor da Nação. Então fiquei muito feliz, o choro na apresentação também foi de alegria e sonho realizado. Superou a expectativa. Eu já tinha jogado contra o Flamengo, mas jogar a favor é diferente, com a Nação apoiando, Maracanã lotado. Estreei no clássico contra o Vasco e com vitória, não tinha maneira melhor, foi tudo como sonhei — disse ele.
— Foi um começo de ano bem complicado, perdemos dois títulos, mas todos continuaram trabalhando sério, firme, sabendo que os resultados iam voltar. A fase boa passa, e a fase ruim também passa. Estamos voltando ao caminho das boas atuações, e espero contribuir para terminarmos o ano com títulos — acrescentou.
Vitão foi apresentado pelo Flamengo em janeiro deste ano
Adriano Fontes / Flamengo
Vitão chegou ao clube em um momento diferente. Depois dos títulos do Brasileirão e da Libertadores no ano passado, dos quais ele não participou, o Flamengo perdeu duas taças no começo de 2026. O técnico que tinha feito lobby pela sua contratação foi demitido três meses depois. As boas-vindas foram no “modo pressão”, mas o vento está mudando. O Fla foi campeão carioca, e o elenco ganhou tempo na Data Fifa para se adaptar ao estilo de Leonardo Jardim:
— Eu aprendi muito com o Filipe Luís, não só como técnico, mas como pessoa. É uma pessoa espetacular. Estou aprendendo bastante também com o Mister, o Leonardo Jardim. São estilos de jogo diferentes, cada um com suas características, mas os dois com grande nível de profissionalismo.
— O Filipe tinha um jogo mais de atração, a gente atraía os adversários para achar os espaços. Com o Leonardo Jardim é um jogo mais vertical, ele gosta que acelera a bola, prefere que a gente balance o adversário do que atraia para achar os espaços. Muda para a gente porque a gente ficava mais tempo com a bola no pé, agora ele prefere que a gente faça a bola andar com um pouco mais de velocidade para balançar o time adversário para achar os espaços — concluiu Vitão.
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