Toto Wolff comenta mudanças nas regras da F1: “Agir com bisturi, não taco de beisebol”
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O dirigente austríaco Toto Wolff, chefão da Mercedes, avaliou as modificações no regulamento da Fórmula 1 que foram anunciadas na última segunda (20). O diretor da equipe alemã disse que as reuniões entre as partes da categoria foram construtivas e ponderou que as mudanças nas regras não podem ser feitas de forma abrupta, traçando um paralelo de que é preciso agir com um bisturi, não com taco de beisebol.
— Devo realmente dizer que as discussões que vêm ocorrendo entre os pilotos, a FIA (Federação Internacional de Automobilismo), a Fórmula 1 e as equipes têm sido construtivas, e todos compartilhamos os mesmos objetivos. É a forma como podemos melhorar o produto, torná-lo uma corrida completa e olhar para o que podemos melhorar em termos de segurança, mas agir com um bisturi e não com um taco de beisebol — comentou Wolff, segundo a emissora Sky Sport.
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As alterações abordam quatro pontos principais: as classificações, a segurança e consistência durante as corridas, as largadas e disputas na chuva. Com exceção das alterações nas largadas, que ainda serão testadas, as regras passam a valer já no GP de Miami, no dia 3 de maio.
Wolff também aprovou a forma como a situação vem sendo tratada e acrescentou que a Fórmula 1 não pode tomar decisões precipitadas, sendo que a temporada ainda está no início. Além disso, ele se mostrou com esperanças de que as mudanças tenham o efeito desejado nas provas. A necessidade de mudanças partiu das preocupação de pilotos e de parte do público com a segurança e a “artificialidade” nas disputas devido à excessiva necessidade de gerenciar a energia dos carros.
Toto Wolff, chefe da Mercedes, no GP da China da F1 em 2026
Artur Widak/NurPhoto via Getty Images
— Acho que estamos chegando a boas soluções para evoluir, porque foram apenas três corridas. E, de certa forma, precisamos aprender com o passado, onde às vezes as decisões eram tomadas de forma equivocada, e depois exageramos e percebemos que não era bom, porque somos guardiões desse esporte. Nesse sentido, estou cuidadosamente otimista de que vamos melhorar as corridas enquanto alinhamos os objetivos mencionados, mantendo a corrida realmente boa.”
Nas últimas semanas, a F1 debateu as demandas dos pilotos em três reuniões virtuais, com a última ocorrendo ontem. A categoria aproveitou para tratar as questões durante o mês de abril sem etapas. A pausa forçada se deve pela não realização das etapas do Bahrein e da Arábia Saudita em função da guerra no Oriente Médio entre EUA, Israel e Irã.
O chefe da Mercedes ainda alertou sobre as declarações e desabafos públicos de integrantes da categoria sobre o regulamento de 2026. Ele não entrou no mérito das críticas , mas enfatizou que as discussões devem ser feitas internamente entre os “guardiões do esporte”, e não de forma aberta para o público.
— Os pilotos, a FIA, a Fórmula 1 e as equipes, nós precisamos entender nossa responsabilidade como guardiões deste esporte. E precisamos respeitar o que o esporte fez por nós e trabalhar construtivamente em conjunto para melhorar onde as coisas precisam ser melhoradas e proteger quando for necessário. E todos nós temos nossas opiniões, e isso é absolutamente legítimo. Mas essas opiniões e discussões devem acontecer mais entre os interessados do que sob os olhos do público, porque o esporte está em um ótimo momento — afirmou.
Temos centenas de milhares de fãs que amam o esporte. Há outros que não gostam de certos aspectos do esporte. Mas, para proteger toda essa enorme oportunidade que o esporte nos oferece, não devemos falar mal do nosso próprio esporte em público.
Largada do GP do Japão da F1 em 2026
Artur Widak/NurPhoto via Getty Images
— E todos nós já caímos nisso no passado por causa de interesses ou por tentar proteger uma situação ou melhorar uma questão do regulamento. Mas precisamos ter muito cuidado, porque as coisas que dizemos em público podem não ter uma repercussão imediata sobre como os fãs percebem o esporte. Isso vem com um atraso e essa é a responsabilidade que temos. Claro que todo mundo tem direito de ter uma opinião, mas acho que devemos a nós mesmos expressar essa opinião nos grupos interessados. Agora, isso aconteceu nas últimas semanas de forma construtiva. Definimos nossos objetivos da forma que queremos melhorar onde acreditamos que possa melhorar — concluiu Wolff.
Quais foram as alterações?
Classificação
Em relação à classificação, a quantidade máxima de recarga passa de 8 para 7 megajoules (MJ), com o objetivo de reduzir o gerenciamento de energia em voltas lançadas e permitir que os pilotos pisem fundo no acelerador. O limite já tinha diminuído no Japão — o máximo era de 9MJ anteriormente.
Além disso, a potência máxima no superclipping – isto é, quando o carro passa a usar a parte elétrica do carro para carregar a bateria (mesmo que o piloto esteja acelerando) sobe de 250 para 350kW. A expectativa é de que o tempo de recarga diminua, e a mudança também vale para as corridas. Outra mudança tem a ver com limites de uso de energia alternativos durante as provas.
Gabriel Bortoleto no GP do Japão de F1 2026
Issei Kato/Reuters
Corrida
Junto com o aumento da potência do superclipping, que já era um pedido dos pilotos, a potência que é liberada com o uso do botão de boost passa a ter um teto de 150 kW. O objetivo é evitar diferenças de velocidade repentinamente grandes, o que ajudou a causar o forte acidente de Oliver Bearman durante o GP do Japão, em disputa com Franco Colapinto.
Outra mudança limita o uso do MGU-K (sistema no motor que recupera energia cinética) em zonas que não sejam os principais pontos de aceleração nas pistas. Além de evitar as diferenças de velocidade, o intuito também é seguir permitindo as possibilidades de ultrapassagem, que têm ocorrido com maior frequência neste ano.
Oliver Bearman tenta ultrapassar Franco Colapinto durante o GP do Japão
Alastair Staley/LAT Images
Largadas e corridas com chuva
A FIA anunciou que foi desenvolvido um novo sistema capaz de identificar carros com aceleração “anormalmente baixa”, logo depois de o piloto soltar a embreagem. Alguns monopostos têm ficado para trás durante os inícios, e o caso mais emblemático foi de Liam Lawson na largada da Austrália: parado na pista, o neozelandês só não foi atingido porque Franco Colapinto usou os reflexos e pôde desviar no último instante.
Largada do GP da China de Fórmula 1
Rudy Carezzevoli/Getty Images
Caso esse sistema detecte algum problema do tipo, o MGU-K vai ser acionado automaticamente para garantir um nível mínimo de aceleração. O objetivo é diminuir os riscos nas largadas, garantindo que o piloto ajudado também não receba nenhuma vantagem esportiva. Um novo mecanismo será introduzido para ativar as luzes laterais e traseiras, como forma de alertar aos demais competidores caso o problema ocorra.
Em relação às corridas com chuva, as mudanças estão na redução do uso do sistema de recuperação de energia e na simplificação das luzes traseiras, além do aumento de temperatura dos cobertores dos pneus intermediários para aumentar a aderência.
O que levou às mudanças?
A necessidade de alterações no regulamento surgiu após as primeiras corridas da F1 2026 gerarem reclamações de parte do público e, principalmente, dos pilotos. Vários competidores criticaram alguns dos efeitos colaterais causados pela introdução das novas regras técnicas e de motores.
Com o novo regulamento da Fórmula 1 para este ano, a parte elétrica passou a ganhar maior protagonismo e corresponde a quase 50% da potência do carro — a outra parte é de responsabilidade do motor à combustão. No entanto, as alterações fizeram com que os carros passassem a ter dificuldade para recuperar energia e carregar a bateria.
Como resultado, os pilotos têm se preocupado muito mais em gerir o uso da energia, o que inclui a utilização de técnicas de recarga da bateria, como o superclipping.
George Russell à frente de Max Verstappen no GP do Japão de F1 2026
Wan Mikhail Roslan/NurPhoto via Getty Images
Embora o número de ultrapassagens tenha crescido em relação ao ano passado, alguns pilotos classificaram o novo regulamento como “artificial”. Um deles foi o tetracampeão Max Verstappen, que considera até mesmo deixar a categoria ao fim de 2026.
Além disso, o desempenho dos carros nas classificações também foi alvo de críticas, visto que os pilotos estão precisando gerir a bateria até mesmo em voltas lançadas. No entanto, as discussões – que já estavam previstas para abril – ganharam ainda mais peso depois do acidente de Bearman no Japão.
O piloto inglês vinha muito mais rápido que Franco Colapinto na entrada da curva Spoon quando, após um pequeno movimento do argentino, perdeu o controle do carro e bateu forte no muro. A pancada aconteceu a 262 km/h e foi de 50G (50 vezes a força da gravidade).
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