Fim do ‘sabor chocolate’? Queda no preço do cacau pode baratear produtos e mudar receitas
Miniatura do chocolate recheado com manteiga de amendoim Reese’s.
Mike Blake/Reuters
Após um ano de barras menores, mais wafers e alternativas com menos cacau, fabricantes começam a voltar às receitas tradicionais de chocolate.
Essa mudança, impulsionada por uma queda de quase 70% nos contratos futuros de cacau em relação aos recordes do fim de 2024, pode levar a preços mais baixos para os consumidores, à recuperação da demanda e à redução no uso de alternativas com pouco cacau, que nem sempre são consideradas chocolate.
A fabricante americana Hershey’s, por exemplo, anunciou planos de aumentar o teor de cacau em produtos que hoje funcionam como alternativas ao chocolate, chamados pela empresa de “chocolate candy”.
A mudança vem após o neto do fundador da Reese’s criticar a empresa por alterações na formulação de produtos icônicos da marca. Com isso, a expectativa é que tanto os itens da Hershey’s quanto o da Reese’s voltem às receitas originais a partir do próximo ano.
Guia do empreendedor: Renda extra vs negócio principal
Representantes e especialistas do setor alertam, ainda, que outras empresas devem seguir o exemplo.
“Com os preços atuais do cacau, faz todo o sentido voltar a consumir chocolate de verdade”, disse o consultor independente Roger Bradshaw à Reuters.
A fabricante de snacks Mondelez não respondeu aos pedidos de comentário sobre suas receitas, enquanto Nestlé e Ferrero não se pronunciaram.
Queda no preço do cacau
Após quase triplicarem e superarem US$ 12 mil (R$ 60,5 mil) por tonelada em 2024, puxados por problemas climáticos e doenças nas lavouras, os preços do cacau levaram fabricantes a reduzir o tamanho das barras, adicionar mais wafers, frutas e nozes e lançar alternativas ao chocolate.
As empresas também reduziram estoques, aumentaram preços e investiram mais em produtos como o ChoViva, uma alternativa ao chocolate sem cacau feita com sementes de girassol e aveia. Desenvolvido pela startup alemã Planet A Foods, o produto é comercializado em parceria com a Barry Callebaut, maior fabricante de chocolate e processadora de cacau do mundo.
Esse movimento derrubou a demanda por cacau e, segundo especialistas, ajudou a provocar uma queda de cerca de 70% nos preços do grão em relação aos picos do fim de 2024.
A demanda pode atingir o menor nível em nove anos nos 12 meses até setembro, afirmou Steve Wateridge, especialista em cacau, à Reuters. A queda nos preços, no entanto, deve levar a uma recuperação a partir do segundo semestre, acrescentou.
“É provável que todos os fatores que nos levaram a esses preços tão baixos se revertam”, disse Wateridge.
Preços mais baixos, maior demanda
Pode levar cerca de 10 meses para que mudanças no preço do cacau cheguem ao consumidor, já que os fabricantes costumam fixar preços com antecedência e manter estoques elevados.
Assim, supermercados e outros compradores vêm pressionando os fabricantes a reduzir preços desde meados de 2025 — e alguns já cederam.
A Mondelez afirmou no mês passado que havia reduzido alguns preços de chocolate na Europa e que estava começando a observar um aumento no volume de vendas.
A Barry Callebaut — cujos ingredientes estão presentes em cerca de um quarto dos chocolates do mundo — espera crescimento de 1% a 5% no volume de vendas nos seis meses até agosto, na comparação anual, segundo cálculos da Reuters.
A empresa, que fornece chocolate para marcas como KitKat (Nestlé) e o sorvete Magnum (Unilever), afirma que, aos preços atuais do cacau, produzir chocolate pode ser mais barato do que fabricar alternativas que usam gordura vegetal no lugar da manteiga de cacau.
Isso significa que “alguns clientes estão voltando a consumir chocolate”, disse o diretor executivo Hein Schumacher em abril, sem mencionar os nomes das empresas envolvidas.
Há também iniciativas legislativas que incentivam o retorno ao cultivo do cacau em algumas regiões.
No Brasil, sexto maior consumidor mundial de chocolate per capita, foi sancionada no início deste mês uma lei que exige que todos os produtos rotulados como chocolate amargo contenham, no mínimo, 35% de cacau.
A medida aproxima o Brasil de mercados como a Europa e a América do Norte, ao tornar mais rigorosos os seus requisitos de teor de cacau.
Um retorno lento
Um retorno à produção mais tradicional de chocolate seria positivo para cerca de 2 milhões de agricultores de cacau em situação de pobreza na Costa do Marfim e em Gana, principais produtores do mundo, ao indicar melhora na demanda e nos preços.
No entanto, a recuperação deve levar tempo até que os volumes voltem aos níveis de antes da alta dos preços.
“Prevejo que levará 2,5 anos para voltarmos ao nível anterior a 2023/24” em termos de demanda, disse um consultor veterano de cacau e ex-comerciante que preferiu não ser identificado.
Segundo a especialista, isso se deve a tendências que, embora pequenas isoladamente, têm efeito relevante no conjunto. Entre elas, a maior abertura da Geração Z a produtos como chocolate sem cacau e o impacto de medicamentos para emagrecer nos hábitos alimentares.
No entanto, com os fabricantes de chocolate temendo que os preços do cacau voltem a subir, algumas alternativas provavelmente permanecerão.
Isso ocorre porque esses produtos continuam lucrativos no mercado de massa, observou Jean-Philippe Bertschy, analista da Vontobel.
Baixe o GloboPop para assistir a vídeos curtos verticais da Globo
*Com reportagem da agência de notícias Reuters.g1 > EconomiaRead More


