Vitórias, traição e tragédia: a história de Gilles Villeneuve, herói do Canadá na F1
Jornalista Rodrigo França lembra Gilles Villeneuve, que batiza circuito do GP do Canadá
O GP do Canadá de F1 será disputado neste final de semana no circuito Gilles Villeneuve, batizado em homenagem a um dos maiores ídolos do esporte canadense – e também da apaixonada torcida da Ferrari, os “tifosi”, que se encantaram com o estilo agressivo e aguerrido de seu piloto nas pistas.
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A breve vida do canadense reúne todos os ingredientes para uma novela ou um filme, sendo até mais intensa do que a ficção poderia imaginar. Ela inclui uma ascensão meteórica na F1, vitórias e disputas épicas com a Ferrari que até hoje fazem parte da memória dos torcedores. Mas a trajetória também reúne drama com muitas doses de traição, decepções e uma grande tragédia, com o acidente fatal nos treinos do GP da Bélgica de 1982, na pista de Zolder.
Gilles Villeneuve conquistou seis vitórias na Fórmula 1
Getty Images
A trajetória inicial de Villeneuve por si só já seria o suficiente para o diferenciar da grande maioria dos pilotos que correram na F1. O sucesso nas corridas começou em uma categoria bem diferente: provas de snowmobile (motos de neve) no Canadá.
Filho de um afinador de pianos em Quebec, Villeneuve sofria para custear suas primeiras provas no automobilismo e usava a premiação das provas em snowmobile para financiar a carreira em fórmulas. Deu certo: em 1973, foi campeão da Fórmula Ford, vencendo sete das dez provas daquele ano.
Além disso, o controle na neve com baixíssima aderência em máquinas que superavam 160 km/h ajudou Villeneuve a ter um controle de carro considerado extremamente impressionante nos carros de corrida, inclusive na F1.
Corrida de snowmobile em etapa do campeonato nacional canadense, em 1978
Keith Beaty/Toronto Star via Getty Images
Depois do título na F-Ford canadense, Villeneuve subiu para Fórmula Atlantic. E foi justamente nesta categoria onde ele carimbou seu passaporte rumo ao topo do automobilismo mundial. Gilles venceu uma prova em Trois Riviere, no Canadá, contra grandes talentos da F1, incluindo James Hunt, que seria o campeão em 1976.
A impressionante performance rendeu um convite para disputar alguns GPs como um terceiro carro da McLaren, em um equipamento da temporada de 1974, o M23, o mesmo que deu o título para Emerson Fittipaldi, mas que já estava em seu terceiro ano de uso (prática relativamente comum naquela época da F1).
A estreia foi no GP da Inglaterra de 1977. Villeneuve não teve grandes resultados, mas chamou atenção do dono de equipe mais influente de toda história da F1: Enzo Ferrari. “O Comendador” teria se encantado logo de cara pelo canadense, cujo estilo o lembrava Tazio Nuvolari, grande campeão dos anos 1930 na era pré-F1.
Gilles Villeneuve acelera sua Ferrari no GP do Canadá de 1978, o primeiro em Montreal
Reprodução
Com a saída de Niki Lauda, no final de 1977, Villeneuve estreou na Ferrari nas últimas duas corridas daquele ano, no Canadá e no Japão, fazendo em 1978 sua primeira temporada completa na F1 e justamente pela equipe italiana pela qual sempre sonhou.
O primeiro ano não foi promissor em resultados, mas terminou de forma histórica com sua primeira vitória na F1 sendo conquistada justamente no circuito da Ilha de Notre-Dame, em Montreal, hoje batizado com seu nome. Até hoje, Gilles é o único canadense a ter vencido um GP em casa.
Em 1979, já como vencedor de GP, Villeneuve seria imortalizado por mais vitórias com a Ferrari e disputas históricas, como a do segundo lugar do GP da França, em Dijon-Prenois, em que luta curva a curva contra o francês René Arnoux, da Renault, pelo segundo lugar. Após diversas trocas de ultrapassagens, Gilles vence o duelo e leva os tifosi a loucura pelo estilo agressivo e aguerrido, sem nunca desistir.
Gilles Villeneuve no GP da África do Sul da F1, em 1979
LAT Images
No final do ano, Villeneuve tinha chance de ser campeão, mas adotou ordens de equipe para não atacar o companheiro de Ferrari, Jody Scheckter no GP da Itália, e, com o segundo lugar na dobradinha, ficou sem chances matemáticas de título – que seria conquistado pelo sul-africano em 1979, o último antes de um longo jejum da Ferrari, somente encerrado em 2000, com o primeiro título do então bicampeão Michael Schumacher com a equipe italiana.
A expectativa de Villeneuve era que, no ano seguinte, a Ferrari lembraria de seu gesto e usaria isso a seu favor, mas a temporada de 1980 foi desastrosa para o time italiano, que marcou seis pontos com Villeneuve e apenas dois com Scheckter, ficando longe da briga pelo título. Em 1981, o canadense teria um novo companheiro de equipe que mudaria sua história na Ferrari: o francês Didier Pironi.
Didier Pironi e Gilles Villeneuve no GP da Argentina da F1 em 1981
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A competitividade da Ferrari melhorou, permitindo que Villeneuve ganhasse em dois circuitos mais travados, como Monaco e Jarama, na Espanha, mas ainda assim sofriam para acompanhar os Renaults e também a Brabham de Nelson Piquet, que acabou conquistando seu primeiro título na F1 naquele ano.
Em 1981, Villeneuve também protagonizou uma cena famosa em sua passagem na categoria, competindo na chuva com a asa dianteira quebrada e levando o carro mesmo com o dano na frente até o final para receber a bandeirada em terceiro lugar no Canadá. O estilo inspirava jovens que sonhavam em chegar na F1 naquela época, como Ayrton Senna, que sempre enalteceu o canadense “por seu arrojo, controle do carro e levar sempre o carro ao limite”.
Em 1982, tudo parecia estar alinhado para o título de Villeneuve. A Ferrari começou o ano de forma bastante competitiva, mas o clima interno já não era dos melhores.
Gilles Villeneuve acelera Ferrari com asa traseira curiosa em 1982
Getty Images
Competindo em casa, em Ímola, com um grid enfraquecido pela briga política entre FISA e FOCA (as entidades que controlavam a categoria na época), a equipe italiana pediu a seus pilotos para economizar combustível e garantir a dobradinha, com Villeneuve em primeiro e Pironi em segundo.
Mas o francês ultrapassou o canadense, que deu o troco e voltou a ter um ritmo mais tranquilo na liderança, acreditando que não seria atacado pelo companheiro de equipe. Na última volta, no entanto, Pironi passou Villeneuve e venceu o GP de San Marino, deixando o canadense furioso com aquela atitude.
Sentindo-se traído, o canadense chegou para o GP da Bélgica disposto a dar o troco. Mas a história de traição se tornou uma grande tragédia: a oito minutos do final da classificação, Villeneuve vem rápido e encontra Jochen Mass, que vinha bem mais lento, na linha ideal.
Villeneuve puxa para a direita para ultrapassá-lo, mas o carro que vinha adiante lento faz o movimento na mesma posição e ambos se chocam, com a Ferrari de Gilles decolando e arremessando o piloto ao chão, a 50 metros dos destroços. O canadense chegou a ser levado para o hospital, mas morreu naquela mesma noite.
Carro de Villeneuve ficou destruído após acidente em Zolder, em 1982
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A tragédia causou grande comoção, com seu funeral reunindo milhares de torcedores e pilotos no Canadá. Villeneuve também recebeu homenagem da Seleção Italiana de Futebol, na conquista da Copa do Mundo de 1982. Naquele mesmo ano, o circuito da Ilha de Notre Dame foi batizado com seu nome, no palco que recebe a F1 neste final de semana, com a inscrição “Salut Gilles” na linha de chegada.
A tragédia também envolveu o rival de Villeneuve. Pironi teve a carreira encerrada na F1 naquele mesmo ano de 1982 após um grave acidente em Hockeinhem, após atingir o Renault de Alain Prost debaixo de muita chuva.
Sua Ferrari decolou, em uma dinâmica parecida com o acidente fatal de Villeneuve, e o choque violento provocou múltiplas fraturas em Pironi, incluindo as duas pernas. Pironi liderava o campeonato e, mesmo perdendo as quatro provas finais, ainda foi vice-campeão em 1982, superado por cinco pontos por Keke Rosberg, da Williams.
Didier Pironi morreu num acidente de lancha em 1987
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O francês até tentou voltar para F1 e fez testes em 1986, mas por conta da gravidade de suas lesões, não conseguiu voltar para a categoria, dedicando-se a corridas de lanchas de alta velocidade em mar aberto. E foi em uma destas corridas que sofreu um acidente fatal em 1987.
Sua namorada estava grávida de gêmeos na época, e deu aos filhos os nomes de Didier e Gilles. Gilles Pironi inclusive subiu no pódio da F1, como engenheiro da equipe Mercedes, em 2020, recebendo o troféu pela equipe no GP da Inglaterra, vencido por Lewis Hamilton. Já o sobrenome Villeneuve também teve sequência na F1, em uma história bem mais conhecida.
Jacques Villeneuve foi campeão da Fórmula 1 em 1997 pela Williams
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Gilles fechou sua carreira com seis vitórias e um vice-campeonato, mas seu sobrenome está na lista dos campeões graças a seu filho, Jacques Villeneuve, campeão mundial em 1997 com a Williams.
Embora o filho sempre tenha afirmado em entrevistas que perseguia seu próprio sonho, sem buscar dar sequência ao legado do pai ou mesmo ao seu estilo de pilotagem, Jacques conseguiu, com sua conquista, corrigir um erro histórico. Não ter o sobrenome Villeneuve na lista de campeões da F1 seria uma grande perda. Não só para os canadenses, mas para todo esporte.
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