Biquíni, 80 anos: como traje batizado por causa de bomba nuclear se tornou símbolo de brasilidade
Biquíni, 80 anos: como traje batizado por causa de bomba nuclear se tornou símbolo de brasilidade
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Como uma boa história de impacto global, a do biquíni tem ingredientes de várias partes do mundo.
Pensando apenas na sua criação e na sua consolidação inicial podemos citar a França, onde nasceu; as Ilhas Marshall, de onde pegou emprestado o nome; os Estados Unidos, cuja cultura pop o disseminou; o Brasil — país que acabou virando o habitat natural para a peça, principalmente graças às praias e à imagem do Rio de Janeiro e a Alemanha, onde nasceu a mulher pioneira na introdução da peça de vestuário no Brasil.
A sacada foi de um engenheiro mecânico francês de 50 anos que acabava de fazer uma inusitada mudança de carreira — deixava o ramo automobilístico para assumir a empresa de lingeries da mãe.
Trata-se de Louis Réard (1896-1984). Em julho de 1946, ele lançou um item que seria revolucionário para a moda mundial: uma roupa de praia feminina em duas peças, mais parecido com uma calcinha e um sutiã do que com os recatados maiôs que se usavam na época.
“No lançamento, ele foi apresentado como o menor maiô do mundo”, conta a designer de moda e historiadora Simone Ferreira de Albuquerque, professora na Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Embora trajes de banho de duas peças já existissem, Réard reduziu ainda mais a quantidade de tecido, deixando o umbigo à mostra pela primeira vez.
Catorze anos antes do lançamento, o estilista francês Jacques Heim (1899-1967) havia tentado emplacar um maiô de duas peças semelhante, que ele chamou de átomo, em alusão às dimensões diminutas, mas não teve aderência nas clientes, resistentes a exibir as barriguinhas e os umbigos em público.
Autora do livro Marketing de Luxo Contemporâneo e professora de moda na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a consultora Maya Mattiazzo também conta que existem registros semelhantes desde a Antiguidade, com mulheres “usando peças semelhantes a um top e uma calcinha”, só que diferentes dos biquínis modernos.
Mas foi mesmo o modelo de Réard que conseguiu “romper com os padrões morais da época”, explica a jornalista especializada em moda Andreia Meneguete, professora e coordenadora acadêmica do hub de moda da ESPM.
Louis Réard era um engenheiro mecânico francês que deixou o ramo automobilístico para assumir a empresa de lingeries da mãe
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E, se as notícias da época eram sobre testes nucleares que os Estados Unidos faziam no Atol de Bikini, nas Ilhas Marshall — em pleno Oceano Pacífico —, Réard decidiu que a invenção, bombástica que era, assumiria o mesmo nome.
Nenhuma modelo profissional topou trajar a novidade e aparecer seminua em público. Réard contratou então a dançarina Micheline Bernardini, que fazia shows eróticos no Casino de Paris, na França, e tinha de 18 para 19 anos.
Ela entraria para a história após se exibir vestindo o biquíni criado por Réard na piscina pública parisiense Molitor.
Mas essa história não é simples assim nem termina aí.
Micheline Bernardini entrou para a história ao se exibir vestindo o biquíni criado por Réard
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Uma bomba na sociedade
“O biquíni já nasceu carregando um discurso de ruptura”, comenta a professora Meneguete, da ESPM.
“Não era apenas um novo traje de banho. Era uma provocação aos costumes, aos códigos de moralidade e à forma como o corpo feminino era regulado socialmente.”
A nova peça foi logo considerada escandalosa por setores religiosos, autoridades públicas e parte da imprensa.
“Em diversos países europeus, seu uso foi restringido ou proibido em praias públicas, e durante vários anos ele permaneceu associado à ousadia e à transgressão”, explica Nadja Pimentel, educadora e técnica do ateliê do núcleo de moda da Universidade Anhembi Morumbi.
Até o papa se incomodou. Em 1951, a modelo sueca Kerstin Håkansson (1929-2024) venceu o concurso Miss Mundo, em sua primeira edição. Ela foi coroada trajando o minúsculo traje de banho.
O sumo pontífice da época, Pio 12 (1876-1958), condenou: chamou o biquíni de “pecaminoso” e contrário aos padrões cristãos de modéstia.
Há também registros de policiais multando moças que trajavam biquínis em praias italianas até o fim dos anos 1950.
Apesar da resistência, Réard conseguiu causar um estrondo na moda, impulsionado pelo marketing e por um contexto revolucionário favorável no pós-Segunda Guerra.
Se chocou conservadores, o biquíni foi caindo aos poucos nas graças de celebridades.
Nos anos 1950, atrizes como Brigitte Bardot (1935-2025) passaram a ser vistas e fotografadas de biquíni em praias da Riviera Francesa.
A atriz marcou a história do cinema ao aparecer de biquíni no filme E Deus Criou a Mulher, produção de 1956 que sofreu com a censura em diversos países. A atriz suíça Ursula Andress, com seu biquíni branco no filme 007 Contra o Satânico Dr. No, de 1962, é outro ponto importante dessa história
“Na década de 1960, com a revolução sexual, o cinema e a cultura pop, o biquíni deixou de ser visto apenas como escândalo para se tornar símbolo de liberdade”, diz Meneguete.
Pio 12 chamou biquíni usado pela modelo sueca Kerstin Håkansson — a primeira Miss Mundo — de “pecaminoso”
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A chegada ao Brasil
Quando chegou ao Brasil, o biquíni encontrou nas praias locais o terreno mais adequado para fincar raízes e logo tornou-se símbolo nacional.
A partir das décadas de 1950 e 1960, atrizes, vedetes dos teatros de revista, modelos e musas das praias cariocas ajudaram a popularizar a peça, explica o historiador Marcos Valer.
Entre elas, estavam atrizes como Carmem Verônica e Angelita Martinez (1931-1980), que causavam furor e disputavam as atenções nas areias de Copacabana ao aparecerem de biquíni.
“Frequentemente fotografadas nas praias de Copacabana, elas deram grande visibilidade ao biquíni e contribuíram para sua popularização entre as brasileiras. A partir daí o traje deixou de ser uma curiosidade isolada para se tornar um elemento cada vez mais presente na cultura de praia do país”, afirma a designer de moda Nadja Pimentel.
Outra que popularizou a peça foi a modelo Marta Rocha (1932-2020), que usou um traje em duas peças durante o certame que a elegeria Miss Brasil em 1954.
Também não podemos não mencionar pioneiras famosas como a atriz Leila Diniz (1945-1972), que desafiou o moralismo ao aparecer grávida na praia de biquíni, e a ex-modelo e empresária Helô Pinheiro, eternizada como a “garota de Ipanema”.
Antes delas, porém, uma mulher já havia sido registrada usando biquíni no Brasil.
Alemã que se estabeleceu no Rio de Janeiro nos anos 1930 fugindo do nazismo, a estilista e pintora Erna Miriam Etz Kaufmann (1914-2010) costumava trajar um maiô em duas peças, maior que os biquínis, confeccionado por ela própria em seus banhos de mar no Arpoador antes mesmo da criação moderna de Réard.
A professora Simone de Albuquerque conta que ela adotou o traje porque sua mãe dizia que grávidas precisavam tomar sol no umbigo.
No livro O Biquíni Made In Brazil, a jornalista Lilian Pacce situa Kaufmann usando a peça concebida na França pela primeira vez no Rio em 1948.
Mas por que o biquíni encontrou terreno tão fértil a ponto de virar símbolo no Brasil?
“Essa associação foi construída por uma combinação de fatores: o clima tropical, o estilo de vida praiano, a projeção internacional da moda de praia brasileira e a ampla difusão dessa imagem pelo turismo, pelo cinema, pela televisão e pela publicidade”, explica Pimentel.
Agora no g1
A professora Meneguete explica que o biquíni também ressaltou a ideia brasileira de corpo menos rígida do que em outras culturas.
Mas a chegada no país também não veio sem polêmicas.
Em 1961, o então presidente Jânio Quadros (1917-1992) também engrossou o cerco moralista à peça na esteira de suas políticas conservadoras. Ele chegou a proibir o biquíni em espaços públicos e vetou seu uso em concursos de beleza.
“A proibição revela um paradoxo da época: enquanto o biquíni se popularizava nas praias e se tornava símbolo de modernidade e liberdade feminina, o Estado ainda tentava controlar a exposição do corpo e impor determinados padrões morais à sociedade”, comenta o historiador Marcos Valer.
A historiadora Maíra Rosin, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lembra que esse impacto inicial é decorrente também da transformação das praias enquanto espaço público. Até o início do século passado, banhar-se no mar não era visto como lazer, mas como atividade terapêutica.
“Quando se começou a ir a praia [como diversão] as pessoas vão de forma mais contida. Até os trajes masculinos eram mais fechados”, lembra Rosin, que pesquisa o relação de mulheres com o espaço urbano .
“E aí essas duas peças do biquíni, lembrando uma roupa de baixo, uma lingerie, isso causou um furor enorme.”
Até a chegada do biquíni, os maiôs dominavam as praias do Rio de Janeiro (a foto foi tirada em 1946)
Acervo Rafael Cosme
Liberdade ou sexualização do corpo feminino?
Mas se significou um afronta das mulheres contra conservadores, o biquíni também trava, desde o início, uma batalha entre liberdade e sexualização do corpo feminino, segundo especialistas.
Do lado da autonomia, Pimentel ressalta que, para muitas mulheres, “vestir um biquíni representa a liberdade de ocupar espaços públicos, exercer escolhas sobre o próprio corpo e expressar sua identidade sem que isso seja interpretado como um julgamento moral”.
Por outro lado, “essa mesma imagem foi apropriada internacionalmente para construir um estereótipo da mulher brasileira excessivamente sensualizada. Em muitos momentos, o corpo feminino passou a representar uma espécie de cartão-postal do país, reduzindo a diversidade das mulheres brasileiras a uma única narrativa”, completa Meneguete.
Maíra Rosin também vê o item, desde o início, no centro de uma narrativa entre autonomia e controle dos corpos femininos.
“O biquíni pode ser ao mesmo tempo libertador e problemático. Dá a ideia de que a mulher pode vestir o que ela quiser, claro. Mas também carrega em si o controle do corpo feminino”, argumenta.
A especialista Andreia Meneguete diz que o Brasil não só adotou o biquíni como o reinventou
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Mas a historiadora ressalta que o discurso contemporâneo permite hoje uma análise mais adequada sobre o papel da peça.
“O biquíni pode ser lido de várias formas, dependendo do contexto social e político. Hoje há muitas campanhas enfatizando que o seu corpo de praia é o seu próprio corpo. Podemos pensar dessa forma e não como o biquíni enquanto símbolo de mulher brasileira gostosa”, explica.
Biquíni se tornou um ícone de brasilidade — tanto no país como no resto do mundo
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O biquíni na moda, década a década
Nesses 80 anos, o biquíni passou por muitas mudanças, e muito por conta do Brasil.
A especialista Meneguete diz que o país não só adotou o biquíni como o reinventou. Sobretudo após os anos 1970, “com modelagens próprias, cortes menores e uma estética que influenciou o mundo”.
Para Mattiazzo, essa primazia mundial se explica pela relação que o brasileiro tem com a praia.
“Em muitos países, é um espaço sazonal. Aqui, faz parte do cotidiano”, define.
O biquíni, neste cenário, reina inconteste.
“E, no mundo da moda, poucas peças conseguiram se manter relevantes por 80 anos”, celebra a professora Mattiazzo.
A partir de um questionamento da BBC News Brasil, a professora definiu as principais fases que marcam a evolução do biquíni ao longo dessas oito décadas.
Da criação até a virada dos anos 1950
A época do “escândalo, principalmente por expor o umbigo feminino”, e “um marco simbólico muito importante, já que o umbigo estava associado ao erótico”.
A criação do biquíni foi “um escândalo, principalmente por expor o umbigo feminino”, diz a professora Maya Mattiazzo
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Anos 1950
Era o biquíni das pin-ups, as estrelas de Hollywood com estética sensual que ajudaram a popularizar o item. “As modelagens eram grandes e cobriam boa parte dos quadris, valorizando uma silhueta bem feminina”, contextualiza.
Anos 1960
Década marcada pela revolução sexual e a liberalização dos costumes.
O biquíni evoluiu para representar melhor a mentalidade daquele tempo. É quando, lembra Mattiazzo, surgiram ideias mais ousadas ainda, como o monoquíni, idealizado pelo estilista austríaco Rudi Gernreich (1922-1985), que eliminava a parte de cima, deixando os seios à mostra. Também são desse período os modelos extremamente cavados conhecidos como “fio-dental”.
Anos 1970
Mattiazzo conta que a década ficou marcada pela “expressão por meio do corpo”, com o Brasil se posicionando como um influenciador efetivo da moda-praia. “As laterais [do biquíni] diminuem, o bronzeado se torna parte da estética da praia e o Rio de Janeiro se consolida como palco dessa narrativa”, diz.
Anos 1980
Nesta década, inventaram o estilo chamado de “asa-delta”. “Com as laterais super altas e modelagem bem cavada, o modelo cria um efeito visual de alongar a silhueta”, explica. “Se espalhou pelo mundo e, algumas décadas depois, é visto nas passarelas internacionais.”
Fim do século 20
Uma nova maneira de culto ao corpo. “Foi um período com estética mais minimalista dominando a moda, se contrapondo aos exageros da década anterior. Os biquínis ficaram mais simples. O corpo começava a ser visto como um projeto pessoal”, esclarece a professora.
Os anos 2000
Começaram com o chamado “biquíni brasileiro” sendo encarado como uma categoria, o suprassumo do segmento, a referência global. E, pontua Mattiazzo, essas modelagens menores, com amarrações laterais e cortes mais cavados se tornaram item de exportação, valorizado em países europeus e nos Estados Unidos.
Anos 2010
Temos a diversidade dos corpos [sendo destacada]”, diz a especialista. “A sociedade debate temas como: inclusão, representatividade, diversidade de corpos e perfis de mulheres. O mercado começa a reconhecer que não existe apenas um corpo para usar biquíni. E entram em pauta assuntos como conforto”, ressalta.
E agora? Para Mattiazzo, vivemos a era da liberdade e da consciência, com múltiplos cenários. “O resort, o esportivo, a valorização do artesanal, a variedade de tecidos… Fica mais difícil apontar uma estética que o defina”, comenta.g1 > Mundo Read More


