Brasil não perdeu a Copa por falta de identidade. Perdeu por acreditar que ela sempre existiu.
CBF acertou na renovação de Ancelotti? Radar debate
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Dois dias depois da eliminação do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo, é hora de olhar para o jogo com a cabeça fria e ir além dos 90 minutos.
Toda derrota costuma produzir culpados e explicações simples. Em 1998, foi a convulsão de Ronaldo. Em 2006, a falta de comprometimento. Em 1990, 2014 e 2022, os treinadores. Indo um pouco mais além, em 1986 foi a convocação envelhecida de Telê Santana, e em 1982, o “time faceiro” do Sarriá.
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Agora em 2026, muito se fala sobre a preparação ruim para essa Copa do Mundo. Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti dividiram o comando em anos tumultuados, com troca de presidência, denúncias na CBF e Ancelotti anunciado em 2023 apenas para negar a contratação. Também se fala sobre uma suporta perda de identidade, com o Brasil escolhendo ficar atrás e ter apenas 36% de posse de bola contra a Noruega.
Será que o Brasil perdeu por conta disso? Basta um rápido olhar para algo que costumamos pouco ver, nossa história, para entender que os problemas são bem mais profundos.
Ancelotti consola Vini Jr Vinicius Junior Brasil x Noruega
John Sibley/Reuters
Improviso e confusão sempre foram regra número um do futebol brasileiro
O Brasil nunca foi campeão do mundo após um ciclo longo, linear e planejado. Todos os cinco títulos vieram depois de mudanças importantes às vésperas da Copa, com treinadores assumindo a seleção poucos meses antes do torneio e remodelando a equipe em pouco tempo, exatamente como foi com Carlo Ancelotti neste ano.
1958: Vicente Feola chegou em janeiro daquele ano. A então CBD de João Havelange apostou em um técnico do futebol paulista pela primeira vez e, diz a lenda, foi contra a convocação de um jovem de 17 anos que jogava pelo Santos e não era conhecido no Rio de Janeiro.
1962: Aymoré Moreira assumiu o comando no início de 1961 e conviveu com críticas por manter os veteranos Didi, Zagallo e Vavá no time. Também teve que improvisar o ponta Amarildo no ataque após a contusão de Pelé.
1970: Zagallo assumiu o comando do Brasil em março daquele ano e acumulou polêmicas: colocou Tostão, mesmo com problemas oculares, no time e decidiu por montar o time com Rivellino no lado esquerdo.
1994: Carlos Alberto Parreira assumiu em 1991, no então maior jejum sem Copas. O treinador também contrariou a vontade popular ao sacar Raí, o melhor jogador do país, e manter Dunga como volante.
2002: Luiz Felipe Scolari assumiu em 13 de junho de 2001, convocou muita gente e virou vilão nacional ao deixar Romário de fora e apostar em Ronaldo, após tudo o que acontecera em 1998, como titular na campanha do penta.
Rivaldo, Felipão, Luiz Felipe Scolari, Copa do Mundo de 2002
Matthew Ashton/EMPICS via Getty Images
O mesmo se aplica ao seu clube de coração. Quantas vezes seu time foi campeão após um planejamento coeso de futebol, com a manutenção do treinador mesmo após a derrota e um projeto de formação de base?
Basta pegar os ciclos mais vencedores da história: Telê Santana chegou ao São Paulo em 1991, como bola de segurança após campanha ruim no Paulistão. Abel Ferreira jamais foi um planejamento do Palmeiras em 2020. E Jorge Jesus no Flamengo, que chegou durante a pausa da Copa América em 2019?
O ciclo de Carlo Ancelotti no Brasil não foi exceção. Foi a regra, tanto em clubes como na seleção.
Mas se sempre foi tão bagunçado assim, por que dava certo? É aí que moram as respostas que buscamos.
A identidade do futebol brasileiro nunca foi método, mas sim consequência de um país
Entre as décadas de 1950 e 1990, o Brasil produziu mais jogadores de alto nível do que qualquer outro país na história. O mito começou na Suécia com Pelé, mas antes dele, se discutia sobre Julinho Botelho ser o melhor ponta do mundo e o tamanho de Evaristo de Macedo na história.
Esse talento bruto nunca foi formado pelos clubes. Era uma consequência do futebol de rua jogado num país que estava começando a se urbanizar e tinha muitos campos de terra e areia, com traves e chuteiras improvisadas. Esse ambiente era propício para o desenvolvimento de jogadores com decisões espontâneas como o drible. O fato dos times terem idades diferentes estimulava a coragem.
Com muito talento à disposição, o trabalho do treinador era muito simples: bastava organizar o talento com um volante mais marcador ou compensações como Zagallo voltando para marcar em 1958 e 1962. O Velho Lobo foi o mentor e criador desse jeito de jogar presente em todas as Copas:
1970: Rivellino voltando para marcar pela esquerda
1994: Zinho para manter a posse de bola no calor do EUA
2002: Três zagueiros e Kléberson para os “3Rs” decidirem
2026: Raphinha e Rayan fechando na direita para Vinícius Júnior decidir.
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As coisas começaram a mudar em 1990. O Muro de Berlim caiu, o Bug do Milênio não aconteceu e a Lei Bosman alterou o eixo econômico do futebol. O futebol começou a virar um negócio num mundo cada vez mais globalizado. Muitos clubes passaram a ser empresas e buscaram a fórmula mais antiga do capitalismo para lucrar: comprar na baixa e vender na alta.
Não é por acaso que a FIFA foi buscar Arsène Wenger, o mentor da Premier League como conhecemos hoje, para compor sua chefia técnica em 2020.
Junto da globalização, outro fenômeno aconteceu: a Europa começou a se organizar e estudar o jogo. A pergunta era sempre a mesma: por que o Brasil produzia tantos craques? As respostas começaram a aparecer na década de 1980 em Portugal, com Vitor Frade e a escola da Periodização Tática. O desenvolvimento de jogadores e de modelos de jogo passou a ser tratado como objeto de pesquisa, metodologia e ciência.
Esse estudo logo foi para as federações. O craque deixou de ser tratado como um acaso e passou a ser consequência de um sistema. O futebol europeu e global passou a investir pesado na formação de jogadores, com três exemplos claros:
A França estruturou uma rede nacional de academias em 1973, tendo Clairefontaine como principal referência. Lá, onde Mbappé , onde técnica, inteligência de jogo e tomada de decisão são desenvolvidas desde a adolescência dentro de uma metodologia unificada.
A Inglaterra criou o plano Elite Player Performance Plan e investiu, desde 2006, cerca de R$ 1,1 bilhão em infraestrutura, capacitação de treinadores e padronização do ensino, além de integrar todas as seleções nacionais em um mesmo centro de treinamento.
A Bélgica e sua ótima geração foram formadas após anos de decepção. O chamado Project 2000 unificou metodologias, reformulou a formação de treinadores, padronizou princípios de jogo e aproximou clubes e seleção em torno de uma mesma filosofia. O objetivo era desenvolver jogadores mais técnicos, inteligentes e confortáveis com a bola desde a infância.
Tudo o que o futebol de rua ou dos “pibes” na Argentina produzia começou a ser replicado em escolinhas de futebol na Europa. O drible, a coragem de ir para cima e o bom passe passaram a ser estimulados em ambientes dentro dos clubes. Foi esse ambiente no qual os clubes europeus passaram a captar jovens e formá-los para jogar em seus clubes profissionais.
Enquanto o Brasil trocava de treinador a cada eliminação, o ambiente que durante décadas formou nossos jogadores desaparecia lentamente enquanto o resto do mundo mudava a passos largos.
A partir da década de 1990, as ruas foram se esvaziando, os espaços para jogar diminuíram e a bola perdeu terreno para a tela do celular. As categorias de base começaram a ter investimentos cada vez mais diminutos. O único treinador que bate nessa tecla da formação e compra a briga, ainda que vítima de seus própris defeitos, é Fernando Diniz:
O nosso problema maior é muito mais psicossocial. O jeito brasileiro de jogar tem muito a ver com um passado que hoje não dá mais conta sozinho. Tinha muito jogo de rua, muita gente com contato com a bola sem interferência de adulto. Essas coisas vão diminuindo cada vez mais. A gente precisa acolher o talento, o drible, o jeito bonito de jogar e ensinar esses caras as outras coisas que eles não gostam de fazer: marcar, ter disciplina tática e ser mais solidário.”
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Se a identidade nunca existiu, é hora de criá-la. Não como ideia, mas como método de formação.
A Copa do Mundo apenas mostrou o quanto o Brasil ficou para trás em organização, estrutura e, principalmente, mentalidade.
Ainda acreditamos que o futebol-arte e o talento seja algo natural e inato do brasileiro. Que a ginga nasce em todo bebê. Que o talento vem de algo divino ou das cinco estrelas no peito. Nada sintetiza tão bem esse pensamento como a provocação de Neymar ao goleiro norueguês – VEJA O VÍDEO:
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O Brasil jamais se organizou para ser o Brasil pentacampeão. Jamais se organizou para ter tantos craques.
Como aponta Hilário Franco Júnior especialmente no livro “A Dança dos Deuses”, a identidade do Brasil como “país do futebol” foi construída a partir da década de 1950, por meio das vitórias conquistadas como fruto do acaso ou do acerto pontual de um treinador, como você leu no começo do texto.
Vem cá: nós, brasileiros, gostamos mesmo de futebol, de ver jogo, ou gostamos só de ganhar?
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A má notícia é que o abismo tende a aumentar nos próximos anos. O mesmo talento que brotava naturalmente aqui hoje é replicado aos montes em países cada vez menos tradicionais no futebol. Não é por acaso que Noruega e Marrocos tenham feito bons jogos contra o Brasil:
Noruega: o meio-campo que controlou o jogo contra o Brasil não surgiu por acaso. Martin Ødegaard foi formado no Strømsgodset, passou por Holanda e Espanha antes de chegar ao Arsenal.
Marrocos: Ayyoub Bouaddi, que escondeu a bola do Brasil na estreia, nasceu na França, fez toda a base no Lille e escolheu defender o país de seus pais.
São jogadores formados por sistemas que tratam o desenvolvimento como um projeto de longo prazo. Eles não são fruto de uma identidade. São fruto de um trabalho sistemático e organizado que o Brasil jamais teve em sua história.
Enquanto isso, acreditamos que basta um treinador estrangeiro como Ancelotti ou convocar o Neymar para “decidir por 15 minutos” basta para vencer. É a velha escola brasileira de Zagallo, como seu mito do salvador da pátria. Se um dia esse foi nosso remédio, hoje é nosso veneno, como José Miguel Wisnik propõe no livro “Veneno Remédio”.
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O maior jejum sem Copas do Mundo de sua história é uma oportunidade para olharmos para o real problema: não é Carlo Ancelotti, Neymar, nem o pênalti de Bruno Guimarães. É um país que não existe mais. E que agora precisa existir. E formar jogadores.
O ambiente que produziu Pelé, Garrincha, Ronaldo, Romário, Zico e tantos outros deu lugar a uma outra coisa. O trabalho precisa começar pela base: estimular a formação de novos jogadores, aprimorar o desenvolvimento de uma metodologia de jogo e de treino.
E a maior lição de todas: manter a convicção mesmo se o resultado for um 7 a 1.
Nossa história sempre nos disse que basta uma derrota para abandonar o projeto e recomeçar do zero.
Já são 28 anos de fila. Quantos mais até entendermos que o problema não está no treinador, no ciclo ou em uma geração, mas na forma como o futebol brasileiro é pensado e desenvolvido?
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