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Cabo Verde não pediu licença para fazer história

Cabo Verde não pediu licença para fazer história

Melhores momentos de Argentina x Cabo Verde
Lembro até hoje de quando marcaram um jogo de futebol society e, entre os jogadores adversários, aparecia o nome de um célebre morador do bairro: Tarciso Flecha Negra, histórico atacante do Grêmio. Para piorar a situação, como imortal ponta-direita, ele jogaria na mesma fatia do campo que eu, um eterno aspirante a zagueiro, costumava ocupar.
Passei noites de pavor, imaginando a inevitável humilhação. Chegou o dia do jogo, Tarciso não apareceu e meu alívio só não foi maior que a decepção. Talvez Vozinha, um dos grandes personagens da Copa até agora, tenha sentido esse misto de aflição e encantamento na véspera do confronto contra a Argentina. Mas, para sua felicidade, Messi entrou em campo.
É verdade que Vozinha estava pronto para a ocasião. Ameaçou até driblar Messi e conseguiu parar o camisa 10 com algumas defesas, mas o embate entre um dos maiores da história e uma das melhores histórias da Copa logo deixou os holofotes. Porque o time inteiro de Cabo Verde também entrou em campo — e não para ser coadjuvante.
Lopes Cabral marca para Cabo Verde contra a Cabo Verde
Reuters
O pequeno país africano que tem por natureza, inclusive geológica, aventurar-se pelo Atlântico não demorou a mostrar que pretendia ser mais do que arroz de festa no caminho da atual campeã do mundo. Mesmo que a Argentina ocupasse seu campo, como era de se esperar, a equipe de Bubista apresentava uma capacidade espartana de organização — suas linhas defensivas praticamente impediam os argentinos de exercerem seu jogo de infiltração. Precisou aparecer Messi para quebrar essa consistência defensiva, vencendo, enfim, o duelo do século contra Vozinha.
O time cabo-verdiano não tinha entrado em campo para interferir na história, mas para vivê-la do seu jeito. Em nenhum momento abdicou da partida, e inclusive teve momentos de superioridade ofensiva. Em um deles, empatou o jogo para forçar a prorrogação. E neste ponto da jornada a cantoria argentina na arquibancada já havia se transformado em um murmúrio em forma de suplício para Gardel, Diego e Evita — a santíssima trindade da argentinidad.
Coletiva de técnico de Cabo Verde termina sob aplausos após eliminação
O gol de Lisandro Martínez parecia transformar a prorrogação em inconveniente protocolo. No entanto, quando a Argentina ainda tentava se acomodar em sua própria grandeza, após Cabo Verde rodar pacientemente a bola, Sidny Lopes Cabral anotou um daqueles gols capazes de fundar uma memória coletiva — o gol da Copa até agora. Não coube em si mesmo, e por isso obedeceu ao reflexo primário de quem traz o futebol debaixo da pele: fazer o caminho inverso para invadir a arquibancada, procurando um afago que lhe devolvesse à terra.
O terceiro gol argentino aconteceu, mas nesse momento as definições de vitoriosos e derrotados já estavam borradas. Neste momento, Vozinha deixava de ser apenas uma ótima história para se tornar o goleiro de um grande time, que enfrentou três seleções campeãs do mundo e não perdeu para nenhuma delas no tempo normal.
O estreante Cabo Verde colocou a campeã do mundo para dançar na corda bamba, assombrada diante de um time que até o fim se recusou a ocupar o papel de figurante que lhe haviam designado. Cabo Verde se despede, mas não vai embora — será lembrado como protagonista de um dos grandes jogos das Copas. O dia em que a história não foi contada pelos vencedores. geRead More