O dia em que comi um cachorro-quente com Messi
Texto de Nicolás Ferrario Marín (aqui a versão original, em castelhano)
Junho de 2026
A primeira coisa que ensinam a você quando começa a escrever é que uma história não é um conto. Que algo que aconteceu, por mais maravilhoso que seja, não é suficiente para construir uma boa narrativa. Todo relato, repetem os professores, precisa de uma estrutura sólida, de um conflito que sustente a tensão e de um final que faça parecer que tudo o que veio antes valeu a pena. Além disso, quanto mais ou menos você já domina a base da escrita, ou pelo menos acredita nisso, começam a acrescentar mais um milhão de regras, como, por exemplo, que convém começar a história mais próximo possível do final. Que é preciso apagar os advérbios. Que os personagens têm que desejar algo. Que cada cena tem que empurrar a história adiante. E o narrador – que neste caso seria eu, contando isso para você – não está ali para explicar tudo que acontece na história, porque isso é entediante. Ou seja, o narrador também tem que saber se calar.
Bom, eu não vou seguir nenhuma dessas regras.
Não porque não funcionem, mas porque esta história não nasceu para se transformar em um conto ou em um filme. Nasceu simplesmente para ser contada. Numa conversa depois do almoço, em uma viagem longa, nos intervalos mortos do trabalho; ou para ser contada a algum desconhecido que sentou no assento ao lado. E talvez porque existem histórias que não se inventam. Histórias que escolhem você, agarram pela camisa e lhe obrigam a vivê-las para que seja testemunha.. Histórias que, enquanto estão acontecendo, não sabem que o tempo já começou a escrevê-las e que vão levar anos para entender a si mesmas.
E, quando nesta equação surge o nome de Lionel Messi, tudo muda. E isto que vou contar é a história daquele dia. O dia em que conheci Messi. Ou melhor dizendo: o dia em que paguei um cachorro-quente para Lionel.
Em 2005, eu já morava em Buenos Aires e trabalhava em uma agência de publicidade. Tinha 22 anos e há quatro trabalhava como redator. Aprendia rápido, ganhava pouco e dormia menos ainda. Meu primeiro trabalho na publicidade foi escrever a parte de trás dos envelopinhos de sopa Knerr. Alguém teve a genial ideia de que, além da receita – que era simplesmente acrescentar água quente e mexer –, seria legal se naquele espaço da embalagem colocássemos pequenas histórias para que as pessoas lessem enquanto preparavam uma sopinha instantânea. Assim, devo ter escrito mais de quinhentas historinhas que, muito provavelmente, ninguém jamais leu.
Com o passar dos anos, vieram outros produtos: sabonetes, cervejas, carros, celulares, companhias aéreas. Campanhas que, em geral, eram filmadas em lugares espetaculares, únicos, imponentes. Mas nessa época eu nunca entrava no avião. Se o destino era fantástico, quem viajava sempre eram os chefes. Bom, ainda é assim. Faz parte do trabalho. Alguém escreve a ideia e é outra pessoa que a leva para passear na Europa.
Até que um dia chegou a campanha para a Copa do Mundo. Minha primeira Copa.
Havia outras equipes de criação trabalhando na campanha há meses. Era um desses grandes projetos que ocupavam uma sala de reuniões inteira, com as paredes cheias de conceitos, provas de design e rascunhos de peças gráficas desenhados à mão pendurados para todos os lados. Os vidros haviam sido tapados com papel pardo para que ninguém pudesse olhar de fora e roubar as ideias, como quando estão para abrir um novo lugar no shopping e não querem que ninguém saiba o que estão tramando lá dentro.
Eu, até então, vinha das categorias de base, participando dos jogos no banco de reservas. Não era o garoto das grandes ideias, mas fazia rápido. Entendia os pedidos e não perguntava muito. Servia para isso, para tapar buracos e não fazer muito barulho.
Naquela época, fumava um maço de cigarros por dia e duas ou três noites por semana dormia no sofá da agência. Se você ficava trabalhando depois das dez da noite, podia pedir comida por conta da empresa. Para mim, era uma economia de sobrevivência, economizava a janta e o transporte, mas também era uma forma de estar perto de onde as coisas aconteciam.
Certa madrugada, enquanto esquentava água para o mate, me disseram:
– Cara, você pode entrar no projeto da Copa?
Não foi uma convocação heroica. Não houve trombetas, nem discursos. Foi mais como uma cena típica do futebol amador. Estava de fora olhando a partida e de repente alguém se vira e pergunta se você quer entrar para jogar. E você diz que sim, claro. Identifica quem é o seu time e pergunta quem precisa ser marcado.
E, ainda que naquele momento não houvesse forma de saber, naquela noite estava entrando no jogo mais improvável da minha vida. Uma história que iria me perseguir por mais de vinte anos.
O cliente era a MasterCard e o problema era que não tinha nada a ver com futebol. As cervejas, por sua vez, têm espírito de Copa do Mundo. Os refrigerantes também. Pertencem ao universo da mesa, do aquecimento, do grito, do encontro. Mas um cartão de crédito… Quem levanta um cartão de crédito para comemorar um gol? Ninguém. Os cartões não são erguidos, não se bebem, não se dividem.
No entanto, a MasterCard tinha uma carta poderosa. Uma frase que todo mundo conhecia. Um conceito que estava impresso em milhões de cabeças e soava como se fosse familiar. Uma verdade que dividia o mundo entre aquilo que se paga e o que não tem preço. Um slogan.
Tem coisas que o dinheiro não compra.
Para todas as outras, existe MasterCard.
A ideia era simples: era preciso usar essa construção de “Não tem preço” para falar de futebol. Não era fácil, pois o futebol não é uma língua que se deixe traduzir com gentileza, mas pelo menos tínhamos no time um artilheiro que podia ser usado.
A primeira etapa da campanha era com Tevez. O grande Carlitos Tevez. Naquela época, Tevez jogava no Corinthians e era mais do que um jogador: era o fenômeno cultural do momento. Havia sido escolhido o melhor jogador do campeonato, era ovacionado nas arquibancadas e os torcedores imitavam seu corte de cabelo. Para que se tenha uma ideia, até Lula, na época presidente do Brasil e torcedor fanático do Corinthians, pediu para conhecê-lo pessoalmente e tirar uma foto. Era nesse nível que estava Carlitos.
Esse primeiro comercial que fizemos com Tevez terminava dizendo: “Que o melhor jogador do futebol brasileiro seja argentino, não tem preço”. Algo que quando foi ao ar ofendeu imensamente nossos irmãos continentais, confirmando, assim, o sucesso da peça com espírito futebolístico, bem argentino. Se conseguimos incomodar um brasileiro, é gol de placa. Depois, aparecia o logo da Mastercard como patrocinadora oficial da seleção argentina e a frase: “Vamos Tevez, vamos Argentina”.
A segunda etapa da campanha seria com Riquelme. A ideia era armar todo o conceito em torno de Román. O dez da seleção. O cara que, quando recebia a bola, parecia que o tempo se abria em torno dele para que pudesse decidir. Falar de Riquelme em 2005 era falar do futebol argentino em sua forma mais pura. A pausa, o drible curto, a bola protegida com o corpo, a jogada que se cozinha em fogo baixo. Era o símbolo perfeito para uma frase como “Não tem preço”.
Mas havia um problema: Riquelme era caro. Muito caro. O dinheiro não era suficiente, e não havia a menor chance de pagá-lo em 18 vezes sem juros no cartão. E, como bem sabemos, uma campanha de publicidade não é obra de Nossa Senhora: se o orçamento não fecha, não há como fazer. Então, de um dia para o outro, ficamos com uma metade da campanha resolvida e a outra vazia. Sem camisa 10. Sem protagonista. Sem arremate.
Cada um propunha alguém conforme suas preferências clubísticas. Quem torcia para o River, pedia Aimar ou Saviola. Os torcedores do Boca diziam que Tevez já era suficiente. Eu, nascido em Rosario e canalla doente, sugeria alguns nomes por puro patriotismo municipal: Killy González, Pato Abbondanzieri, Mascherano. Havia bons jogadores nessa seleção, mas nenhum tinha o peso simbólico de carregar o país nas costas em uma propaganda de Copa do Mundo. Ninguém oferecia esse “centro de gravidade” que Riquelme tinha.
Até que apareceu Messi. Não como epifania. Era mais uma possibilidade que ficou pairando no ar. Lionel Messi vinha de arrebentar no título Mundial Sub-20, mas no Barcelona ainda jogava com a camisa 30 e entrava no final do jogo, se é que entrava. Tinha 18 anos e nem sequer estava confirmado na Copa do Mundo. Apostar nele como solução era uma mistura perfeita entre intuição e orçamento. Se desse certo, muito bom. Se ele não fosse para a Copa, bem, seria um comercial que algum dia lembraríamos como uma experiência estranha com um garoto canhoto que tinha pinta de craque.
Quando a conversa foi se acomodando em torno de Messi, o próximo passo era ver se era possível falar com ele. Não havia representante, nem assessoria de imprensa para onde ligar. Não havia empresários com perfis públicos. Havia apenas números de telefone anotados em guardanapos que eram passados de mão em mão e a suspeita de que, se alguém ligasse, podia pegar mal. Alguém disse que o pai era o responsável. Que era uma pessoa séria. Que não gostava de enrolação. E, que se ele dizia que sim, o resto se ajeitava.
O produtor tentou a sorte. Ligou. E o pai atendeu.
A conversa foi curta. Ele disse que estavam dispostos a escutar nossa proposta, mas que essas coisas precisavam ser tratadas pessoalmente. Nada de mandar roteiros por e-mail, nem orçamentos por fax. Era preciso ir conversar. E somente então apareceu a informação que fazia tudo ser possível: Messi estava em Rosario. Como em todo mês de dezembro. Tinha voltado para passar as festas de fim de ano com a família.
O meu chefe tinha que viajar ao Brasil para seguir as filmagens com Tevez, então resolveu a questão rapidamente: “Vai você para Rosario e acerta tudo. Aproveita que vai para o fim de ano”.
Era verdade, eu também sempre passava o fim de ano lá. Tinha onde dormir, então não era preciso pagar hotel. Era prático. E barato. Resultado: de repente, sem nem levantar a mão, acabei sendo o responsável por sentar diante do pai de Messi para ver se ele aceitava que seu filho jogasse no nosso time.
Viajamos em quatro numa caminhonete alugada. O diretor, que também fazia o som porque não havia orçamento, a diretora de arte, com uma maleta de coisa que “de repente servem”, o produtor e eu. Não tínhamos roteiro. A ideia era básica: se o pai dissesse que sim, levaríamos ele ao Monumento à Bandeira para filmá-lo fazendo embaixadinhas. Depois descobriríamos que frase encaixava com aquela imagem. Uma campanha mundial construída com a lógica mais argentina que existe: o “vamos vendo”.
O que todos sabíamos, embora ninguém dissesse em voz alta, era que se Pekerman, técnico da seleção, não levasse Messi para a Copa, corríamos o risco de perder a conta da MasterCard. Não era apenas filmar algo que depois não seria veiculado: era gastar um monte de dinheiro em contratos e autorizações que, depois, não teríamos como justificar.
Jorge combinou de nos encontrar no posto da YPF na entrada da cidade. Um posto de gasolina qualquer. Naquele momento me pareceu lógico: um lugar de passagem, fácil de encontrar. Mas, quando penso hoje, acho graça. Lionel Messi, o homem que acabaria assinando contratos que movem economias, o jogador mais importante da história, começou sua primeira campanha mundial em um posto de gasolina. Uma mesa de fórmica, um café morno, cheiro de desinfetante de piso. Se me contassem vinte anos depois, não acreditaria. Mas lá fomos nós.
E era eu que tinha que falar.
Jorge já havia chegado. Reconhecemos logo porque Messi é parecido com o pai. A mesma expressão, os mesmos olhos. Além disso, havia nele algo muito familiar. Não “familiar” de famoso. Familiar do tipo de pessoa que se pode encontrar em qualquer churrascaria da zona sul num domingo à noite. Nos cumprimentamos. Aperto de mão rápido, beijo no rosto e logo ao trabalho.
Nos sentamos numa mesa perto da janela. Pedimos café. O produtor falou pouco. Eu tinha que explicar. Jorge disse que Leo estava em casa comendo churrasco com os amigos. Nada de mais. Era dezembro em Rosario e é isso que se faz: comer churrasco e encontrar amigos.
Ele me perguntou qual era a ideia. E eu disse a verdade: não havia uma ideia pronta. O que tínhamos era uma intuição. Disse que estávamos acompanhando Messi desde as categorias de base e que sentíamos que algo especial estava acontecendo. Que quando ele pegava na bola, o jogo mudava de ritmo. E que voltar a imaginar um craque argentino era um sonho que podíamos vender, mas que também seria uma pressão enorme sobre ele.
Também disse a Jorge que a campanha usaria a frase de MasterCard, aquela do “Não tem preço”, mas que o importante não era o slogan: era ele. Ele em Rosario. Antes que deixasse de ser um garoto para se transformar em pôster. Antes que se tornasse inalcançável.
Jorge escutava. Nada do que era dito o surpreendia.
– Você é rosarino, certo?
Disse que sim.
– Quantos anos tem?
— Vinte e dois.
– Melhor. Assim, Leo se sente mais à vontade.
Entregamos o contrato. Ele leu. Fez as perguntas lógicas: quanto, quando e como. Dissemos a verdade: não tínhamos muito dinheiro porque Tevez tinha levado quase todo o orçamento. Que filmaríamos com uma equipe pequena para investir tudo que restava no cachê de Leo.
Então, ele foi direto ao ponto:
– Vocês sabem que ele ainda não está confirmado na Copa, certo?
Dissemos que sim.
Perguntei o que ele achava.
Deu de ombros
– Eu já comprei passagens para toda a família. A dele não vou comprar.
Pronto.
Isso era tudo que era preciso saber.
Antes de levantar, pegou um envelope pardo e me deu.
– Pegue. Veja se serve. São gravações de Lionel desde os três anos.
Hoje todos já vimos, umas mil vezes, Messi jogando bola quando era criança. Naquele momento não. Aquele material era ouro puro. Era como ver uma chama antes que ela incendiasse o mundo. E nós o tínhamos nas mãos.
Dentro do envelope havia dois DVDs com horas de vídeo, embaixadinhas com uma laranja, gols em campinhos de terra, dribles em espaços impossíveis.
O que mais impressiona nessas imagens, vendo hoje, é a familiaridade que me provocam. É possível observar um menino de oito anos fazendo os mesmos movimentos que depois vimos em finais de Champions League. O mesmo canhotaço, a mesma diagonal, a mesma comemoração. Como se fossem ensaios de algo que ainda não sabia que iria acontecer.
Se você olhar com calma vai encontrar os gols que depois ele marcou no Getafe, deixando adversários pelo caminho desde o meio-campo como se continuasse se esquivando dos pedregulhos no campinho do Grandoli. Vai encontrar a obra de arte contra o Bayern, naquela noite em que deixou Boateng esparramado na grama do Camp Nou antes de dar uma cavadinha sobre Neuer com uma sutileza ridícula. Vai ver as disparadas furiosas contra o Real Madrid, passando por quatro marcadores no Santiago Bernabéu naquela semifinal de Champions, levando a bola costurada à chuteira esquerda enquanto os pontapés passavam no vazio.
E se prestar ainda mais atenção ao jeito como, desde pequeno, abaixava a cabeça e jogava o corpo para aguentar os empurrões dos garotos mais velhos, vai encontrar a mesma teimosia maravilhosa com que, quase trinta anos depois, levou Gvardiol para passear pela ponta direita no Catar antes de rolar a bola para Julián. Tudo já estava ali, naqueles dois DVDs de má qualidade. O futuro inteiro do futebol mundial guardado dentro de um envelope pardo que me deslizaram por cima da mesa de fórmica, no posto de gasolina da entrada de Rosario.
Jorge se levantou. Nos disse que fôssemos indo para a casa, que ele avisaria. Perguntamos quanto tempo tínhamos. Ele sorriu, mas sem ironia.
– Não sei. À tarde ele tem um aniversário. Tentem fazer com que dê tempo de chegar.
E lá fomos nós. Para a casa de Messi, em pleno dezembro. Sem roteiro. Sem ideia definida. Com um pouco de medo e um pouco de entusiasmo.
A casa ficava no bairro Las Heras, na região que todos conhecem como La Bajada. Ruas que descem até o rio, tranquilas. Quando era pequeno, eu ia muito nesse bairro para jogar basquete, então já conhecia bem a paisagem. Cães dormindo no meio da rua, vizinhos tomando mate na calçada. Rosario em sua versão de um grande povoado.
Celia abriu a porta. Nos convidou para entrar, mas respondemos que não. Ela insistia, como insistem todas as mães. O produtor era quem puxava o freio. Dizia que, se entrássemos, perderíamos o dia entre um choripán e a conversa à mesa. E era verdade. Eu estava louco para comer alguma coisa, mas se cruzássemos aquela porta não filmaríamos mais. Para isso servem os produtores: para dizer não quando a gente diria sim.
Bom – disse Celia –, como vocês quiserem. – Mas, se servir, podem ir filmando o campinho da esquina. Foi ali que Lionel começou a jogar bola.
Mais uma vez, a mesma história. Hoje todo mundo conhece esse campinho, mas naquele momento era apenas um potrero. A mãe do Lionel já sabia que aquela esquina tinha um valor que nós ainda não entendíamos. Talvez achasse que não servia para o comercial, mas para algo ainda mais importante. Foi como se nos dissesse: “Vão, filmem. Depois vocês vão me agradecer”.
Fiquei na calçada olhando para a esquina e nem tinha terminado o cigarro quando a porta se abriu de novo.
– Já estamos prontos –, disse ela. – Vamos?
Messi saiu todo desarmado – literalmente. Os cadarços soltos, o cabelo molhado, a pele suada de quem tinha acabado de comer um churrasco. Com certeza, cinco minutos antes estava sem camisa, tomando banho de mangueira para aguentar o calor. Nos cumprimentou como um sobrinho tímido que aparece de repente em um almoço de família. Camisa da Argentina, bermuda da AFA e um par de chuteiras da Nike que hoje quase ninguém mais lembra. Porque é muito louco pensar agora, mas nas categorias de base do Barcelona ele usava Nike. A marca que apostou tudo em Jordan, Federer e Tiger, mas nunca jogou suas fichas em Messi.
– Vamos indo? –, perguntei.
– Onde vamos? – disse Celia.
– Pensamos em filmar no Monumento à Bandeira.
– Ah, adorei –, disse Celia.
E subimos os seis na caminhonete. Eu me acomodei na parte de trás, como um cachorro, espremido entre as câmeras e as bolsas. Era um dia perfeito. Pleno dezembro. Quase duas da tarde. Com sorte, ainda teríamos três ou quatro horas de luz.
Quando chegamos no Monumento, a primeira coisa que fizemos foi preparar os equipamentos. O sol batia forte, quase de frente. Disparado, o pior horário para filmar porque estoura a imagem. Mas era o que tinha. Já estávamos improvisando mesmo. Messi ficou de lado, esperando. Não sabia bem o que fazer com as mãos nem para quem olhar.
Me aproximei para tirá-lo dessa espera incômoda. Tentei deixar o momento mais fácil.
– A ideia é muito simples. Você pega a bola, faz embaixadinhas e a gente filma de vários ângulos. Queremos aproveitar os murais, as escadarias. Nada complicado.
Me disse que sim com a cabeça.
– Vou precisar falar? – perguntou, coçando a sobrancelha.
– Ainda não sei. Você prefere não falar?
Fez um gesto curto, como quem dizia que sim.
– Pronto, então sem falar. Não se preocupa.
Eu sabia que tinha que pegar leve com ele. Não porque fosse o Messi, nome que naquele momento não significava nada especial, mas porque era um garoto que a gente tinha acabado de tirar de um churrasco com amigos. Além disso, para a grande maioria dos mortais, tímidos ou não, as câmeras sempre intimidam. Ainda mais em um comercial que vai passar na televisão um bilhão de vezes. E aquele, acho eu, era sua primeira participação como protagonista.
Começamos? –, disse pra ele.
Ele pegou a bola e já ficou claro. Podíamos começar.
Messi no Monumento à Bandeira. Rosario, 2005
Nicolás Ferrario
O Monumento à Bandeira sempre impressiona, mesmo que já se tenha visto ele mil vezes, porque não é preciso exagerar nada, simplesmente está ali, enorme, branco e brutal.
Tiramos do carro as câmeras, as bolas e as garrafinhas de água. Pedi para o Lionel que fosse se ajeitando e que começasse a se mexer um pouco enquanto a gente buscava o enquadramento. Logo, apareceram os curiosos.
– Quem é?
– Um garoto de Rosario que joga no Barcelona.
– No Barcelona? E qual é o nome?
– Lionel Messi.
– Ah, veja só.
E continuaram em frente com seus mates.
Apontei um lugar para ele começar, no meio da esplanada. Ainda sem murais, sem escadarias, sem nada de especial. Apenas ele e a bola.
– Tenta aqui –, disse pra ele.
E começou. Ao natural. Como se fosse um treino qualquer. Embaixadinha, controle, alguns toques mais altos para se aquecer. Enquanto isso, a gente ajustava a lente, a luz e a distância. Ele não falava, não perguntava, não opinava. Fazia o que precisava ser feito.
O mais surpreendente, quando penso hoje, é que ninguém estava olhando pra ele. Messi com a camisa da seleção argentina jogando bola no Monumento à Bandeira e as pessoas passando ao lado como se ele fosse apenas mais um turista.
Algo que hoje seria impossível.
Mudamos ele um pouco de lugar para deixá-lo de frente ao mural de Belgrano. O grande, aquele que ocupa quase toda a parede do Monumento. São metros e metros de mármore travertino com um relevo tão profundo que obriga a gente a erguer os olhos. Uma superfície imensa, esculpida com figuras que parecem sair da pedra, como se fossem continuar avançando.
Manuel Belgrano sobre o cavalo, a bandeira erguida e os soldados logo atrás. Não é preciso exagerar em nada: está tudo ali, e aquilo já impõe respeito só por existir.
Joguei a bola para ele mais uma vez. E então aconteceu algo que, ainda hoje, me provoca um arrepio estranho.
Era o Messi, bem no meio do Monumento, muito jovem e meio magricela, fazendo embaixadinhas. Acima dele, Manuel Belgrano. Enorme, rígido, olhando para ele. Belgrano vendo Messi brincar com a bola. Uma metáfora que, de tão cafona, emociona. Séculos e dimensões diferentes alinhados numa mesma reta. O gesto mínimo de um garoto e a imobilidade monumental de um herói nacional, um diante do outro, unidos por uma bola que subia e descia como se marcasse o compasso de um hino que ainda não tinha letra, mas já tinha nome. Um ponto branco seguindo sua própria partitura. A frase cortada em sílabas, a arquibancada distante, o canto que um dia chegaria. “Meeee… ssiii… Meeee… ssiii…” Aquela mecânica tranquila que, se a gente não mandasse parar, poderia continuar fazendo embaixadinhas por mais três Independências.
E sei que não estou inventando nada, porque tenho a foto.
Lionel Messi de frente para Belgrano, os dois vestindo a camisa da Argentina. Um com uma espada na cintura. O outro com uma bola nos pés. Hoje olho para essa foto e penso: isso não se repete. Não porque exista um destino traçado nem nada desse tipo. Simplesmente porque essa combinação — Messi antes de ser Messi; Belgrano, firme e leal à sua pátria; o Monumento vazio — é uma daquelas cenas que acontecem uma única vez, sem possibilidade de uma segunda tomada.
Quando já fazia quase uma hora que estávamos filmando, o diretor se aproximou de mim com uma cara de desespero e começou a apontar para o Lionel com o queixo. Ficava jogando a cabeça naquela direção e depois me olhava com os olhos arregalados, como quem dizia: “Vamos, cara, presta atenção…não está vendo o problema que eu estou vendo?”
Puta que pariu.
Messi estava usando uma camisa da Adidas em um comercial da MasterCard.
Também não era uma tragédia, mas aquele tipo de erro que faz as pernas tremerem um pouco e ninguém quer assumir como seu.
Ficamos todos quietos por alguns segundos. Aquele silêncio em que ninguém sabe se fala alguma coisa ou finge que nada está acontecendo. A diretora de arte abriu a bolsa e começou a remexer lá dentro, como se realmente pudesse aparecer uma camisa lá dentro. Cabos, fita adesiva, um pedaço de pano. Nenhum milagre.
Nos entreolhamos. Não havia alternativas. O único com mais ou menos o mesmo porte físico era eu, mas vinte centímetros mais alto. Por reflexo, e por vergonha, tirei a camiseta branca que estava usando. A mesma com que havia dormido, viajado e suado. Fininha e meio transparente de tanto lavar.
– Experimenta essa –, eu disse.
Messi a vestiu e a gente começou a rir. Ficava enorme nele. Parecia Messi de camisola fazendo embaixadinhas. Não dava.
O produtor disse que podia ir até a avenida comprar outra, mas Celia surgiu com a solução mais lógica do mundo, aquela que só uma mãe consegue oferecer em situações desesperadoras.
– Lá em casa o Lionel tem um monte de camisetas. Por que não vamos e pegamos algumas? Afinal, ele sabe quais ficam bem nele.
Então aconteceu uma coisa muito estranha, quase cômica. Uma espécie de movimento sincronizado entre os quatro. O produtor, a diretora de arte, o diretor e Celia dizendo: “sim, vamos… vamos, isso… vamos, vamos”, como se tivessem ensaiado sem nunca terem visto um roteiro.
– Vocês vêm juntos ou esperam aqui? – nos perguntaram.
Pensei que teria de voltar a me enfiar na parte de trás da caminhonete, espremido entre cabos e tripés, naquele calor insuportável de dezembro, e disse:
– A gente fica.
Então eles se foram.
Estávamos sozinhos.
Messi e eu.
No Monumento à Bandeira.
Com uma bola e duas garrafinhas de água para não morrermos de desidratação.
O silêncio que ficou quando a caminhonete dobrou a esquina era pesado. Não pesado no mau sentido, mas um vazio. De repente, o barulho do motor desapareceu, as vozes dos outros organizando o caos foram embora, e só restaram o vento batendo nas pedras do Monumento e o ruído dos carros que passavam ao longe, por acaso, pela avenida Belgrano.
Messi ficou parado no mesmo lugar, com a bola embaixo do pé. Olhava para o rio, ou para o nada. Eu me encostei num dos paredões de pedra tentando buscar um pedaço de sombra que simplesmente não existia. Fazia muito calor.
Olhei pra ele.
Ali estava o garoto do qual todo mundo falava na agência. O futuro. O orçamento. Ele coçou a nuca, sem jeito. Não sabia o que fazer com as mãos se não estava jogando. E eu senti que tinha que dizer alguma coisa. E não para salvar o comercial. Foi mais por pura humanidade. Porque nós dois estávamos encalhados ali, esperando que uma mãe e uma equipe de filmagem improvisada voltassem com uma pilha de camisetas usadas.
– A gente tirou você do churrasco, não foi? – perguntei.
Ele me olhou. Encolheu os ombros, um gesto mínimo.
– É… sim – disse.
– Chegou a comer?
– Comi um choripán — disse, olhando para o chão –. Mas quando estavam tirando a carne vocês chegaram.
Eu me senti um merda. Não há outro jeito de dizer.
– Nããão.. – eu disse –. E você não comeu mais nada?
– Não.
– Putz, desculpa, cara. A gente disse para a sua mãe que não tinha pressa, mas pelo jeito ela não queria fazer a gente esperar.
Ele respondeu que sim com sua expressão. Fez exatamente aquele gesto: uma espécie de resignação silenciosa, baixando as pálpebras e erguendo as sobrancelhas. A mesma cara que hoje eu tenho salva num sticker do celular e uso para tudo. Naquela época, não era um meme. Era um garoto de dezoito anos, com fome, para quem a gente tinha arruinado o domingo.
Me senti um miserável. A gente, vindo da capital, chegando com nossa urgência publicitária para interromper o ritual mais sagrado do interior: o churrasco em família. Conferi o relógio, já havia passado das três horas. O sol estava insuportável.
– Olha só – disse pra ele, tentando consertar o inconsertável –. Você gosta de cachorro-quente?
Me olhou meio surpreso com a mudança de assunto.
– Se eu gosto?
– Sim. Não quer comer um cachorro-quente aqui na frente?
Apontei com a cabeça para o parque, do outro lado da avenida.
– Ali tem uma barraquinha de cachorro-quente, hambúrgueres, lomitos. Acho que existe desde antes da construção do Monumento. Para mim, o próprio Belgrano comeu ali.
Messi riu. Foi a primeira vez que vi ele rir de verdade. Uma risada rápida, de dentes à mostra, mas genuína.
– Sim, eu gosto.
E aí aconteceu.
Foi um segundo. Um movimento por reflexo. Messi levou as mãos aos lados do calção da AFA. Apalpou o tecido branco. Olhou para as próprias pernas. E depois olhou para mim com uma expressão de desconcerto infantil. Não tinha bolsos. E, mesmo que tivesse, não tinha nada dentro. Nem carteira, nem celular, nem chaves. Estava ali como quando a gente saía para jogar na calçada quando era pequeno. Com a bola e a roupa do corpo. O corpo e o talento. Nada mais.
Ficou um segundo em silêncio, processando a logística da situação.
— Mas eu não tenho dinheiro — disse.
Ele disse aquilo com a maior simplicidade. Sem constrangimento, apenas constatando um fato. O garoto que, alguns anos depois, se transformaria numa multinacional de si mesmo, que passaria a movimentar o PIB de clubes inteiros, estava parado na minha frente dizendo que não tinha uns trocados para comprar um cachorro-quente.
— Nããão, fica tranquilo — eu disse. E me veio do fundo da alma dar um tapa de leve no ombro dele, como se fosse um primo mais novo. — Eu pago. Deixa disso. Vamos.
E seguimos em direção à barraquinha. Percorrer aqueles cem metros foi estranho. Cruzamos a avenida desviando de alguns carros que vinham rápido pela avenida da orla. Ele ia com a bola na mão, caminhando com aquele passo curto e tranquilo que tem, olhando para o chão. Eu ia ao lado, fumando, pensando no que diabos diria ao meu chefe se atropelassem a maior promessa do futebol mundial atravessando a rua para comprar comida de rua.
Ninguém olhou para nós. Ninguém parou. Era domingo na hora da siesta, e Rosario dormia.
Chegamos à barraquinha. Era um daqueles carrinhos clássicos da orla: carroceria branca, adesivos de refrigerantes antigos colados no vidro, cheiro de óleo de fritura e de mostarda barata. O paraíso. O rapaz estava limpando a chapa com uma espátula, entediado. Levantou os olhos quando nos viu chegar.
— Boa tarde. O que tem de bom, mestre? — perguntei, fingindo ser freguês de sempre.
— Lomito, hambúrguer, chori, cachorro-quente…
Virei para o Lionel.
— E você? O que vai querer? Um cachorro-quente?
Messi olhou para a placa de preços, pintada à mão. Assentiu com a cabeça.
— cachorro-quente.
— Beleza. Dois cachorros-quentes — falei para o dono da barraquinha.
— Vai com o quê?
O sujeito já estava com o pão aberto e a salsicha fumegando na pinça. Olhou para nós esperando o pedido dos acompanhamentos, aquele momento decisivo em que se revela a personalidade de cada um. Messi não hesitou.
— Mostarda — disse.
— Só mostarda? — perguntou o dono da barraquinha, que certamente tinha maionese, ketchup, molho golf e batata palha à disposição.
— Sim, mostarda — repetiu ele.
— O meu, completo — falei.
Paguei.
Não sei em que momento vocês estão conhecendo esta história. Não sei se o Messi já ganhou nove Bolas de Ouro ou se já se aposentou. Mas quero deixar registrado, aqui e agora, que eu paguei o almoço para Lionel Messi. Foram moedas. Literalmente moedas.
Mas foi, sem dúvida, o melhor investimento da minha vida.
Pegamos o cachorro-quente, embrulhados naquelas folhas de papel encerado que não limpam absolutamente nada, e fomos procurar uma sombra. Sentamos debaixo de umas árvores que existem no parque. São tipas. As tipas. Árvores enormes, de troncos escuros e galhos retorcidos, que fazem uma sombra espetacular, bem fechada. Mas têm uma particularidade que todo rosarino conhece: no verão, elas choram. Cai um pinguinho constante, uma espécie de orvalho pegajoso que não é chuva. É da cigarrinha que vive nos galhos.
Para nós, isso não fazia diferença. Estamos acostumados a que a natureza chore um pouco em cima da gente. Sentamos na grama, com o rio Paraná ao fundo, marrom e calmo, correndo com a indiferença de sempre.
Dei a primeira mordida no cachorro-quente e percebi que eu também estava morrendo de fome. Ele comia em silêncio, olhando para o rio. Eu o observava de canto de olho. Tentava não ser invasivo, respeitar aquele silêncio que ele dominava tão bem. Mas, ao mesmo tempo, a situação era maior do que eu. Estava comendo um cachorro-quente com o garoto do Barcelona. Eu precisava dizer alguma coisa. Quebrar o gelo de um jeito que não fosse falar do tempo.
— Cara… — eu disse, mastigando. — Eu também sou de Rosario.
Messi parou de comer por um instante. Virou a cabeça e olhou para mim.
— Ah, é?
— É. Mas sou do Central.
Um meio sorriso se desenhou no rosto dele. Aquele sorriso de canto, provocador, mas sem maldade. Não disse nada, mas a rivalidade acabava de se instalar entre nós, ali, no meio do parque. Fez uma careta quase imperceptível, voltou a olhar para o cachorro-quente com mostarda e continuou comendo.
Pronto. O terreno estava demarcado. Agora, sim, a gente podia conversar.
Para quebrar o gelo de vez, perguntei sobre ele.
— Deve ser uma loucura estar lá, né? Ser reserva daquele time.
Ele me contou que tinha ido muito pequeno para Barcelona. Coisas que hoje todo mundo sabe, mas que, naquela época, soavam como uma aventura exótica, um desenraizamento cuja dimensão eu ainda não conseguia compreender. Falava de La Masia, dos treinamentos, com uma naturalidade impressionante.
— E como é o Ronaldinho? — perguntei. Afinal, em 2005, Dinho era o dono do futebol mundial.
O rosto de Messi se iluminou um pouco.
— Ele é sensacional — disse, mordendo o cachorro-quente. — Um craque.
— Mas ele é gente boa mesmo? — insisti, atrás de uma fofoca. — Ou é meio estrela?
— Não, não… É um baita cara — respondeu, muito convicto. — Me ajuda bastante. Me trata muito bem.
Falamos de Eto’o, que estava jogando demais. De Deco. Era surreal. Estávamos sentados na grama, em Rosario, manchados de mostarda, falando de caras que eu só via pela televisão nos fins de semana. E ele falava deles como quem fala dos colegas de escola. “É gente boa”, “é divertido”. Era assim que ele media o mundo: se eram gente boa ou não.
E aí, inevitavelmente, o torcedor do Central falou mais alto. Não consegui me segurar.
— Cara… — eu disse. — E o Pirulazo, você viu?
Fazia só alguns meses. Agosto de 2005. Copa Sul-Americana. O Central eliminando o Newell’s com o gol de Pirulo Rivarola nos acréscimos. A ferida ainda estava aberta, pulsando pela cidade inteira. Messi parou de mastigar e olhou para o rio.
— Sim… — respondeu. Fez uma longa pausa. — Aquela doeu.
Não disse mais nada. E eu também não quis insistir. Não fazia sentido ficar tirando onda. Não era a ideia bancar o esperto. Mas gostei de saber que tinha doído. Gostei de confirmar que, mesmo estando na Europa tabelando com o Ronaldinho, o coração dele continuava no Parque Independência. Que a distância não o tinha curado dessa doença maravilhosa que temos por aqui.
Justo naquele momento, passou um garoto caminhando pela orla com a camisa do Newell’s. Nós dois ficamos olhando para ela.
— Olha lá.
— É… — respondeu ele. — É a nova. Ficou linda.
O garoto passou, e nós acabamos emendando uma conversa sobre camisas de futebol. Sobre essa memória visual que quem gosta de futebol tem: a gente não lembra dos anos pelo calendário gregoriano, mas pelo patrocinador estampado no peito.
— E as de vocês, qual é a sua favorita? — perguntou, retribuindo a gentileza.
— A da Zanella — respondi, sem pensar duas vezes. — A de 1987. Topper, com o Zanella estampado no peito. Fomos campeões da Série B e, logo depois, campeões da Série A. Mas a que eu mais gosto é a da Le Coq Sportif, de 1995, a da Conmebol. Aquele 4 a 0 no Atlético Mineiro… Minha Nossa Senhora. Absurdo.
Ele assentia, ouvindo tudo com respeito.
— Eu gosto da Yamaha — disse. — A de 1991.
— Nossa… Sim. Timaço aquele. Bielsa, Gamboa, Llop, Martino…
— Poche, Saldaña, Zamora, Berti… Campeões na Bombonera.
— É… nos pênaltis — completei rapidamente, buscando o empate.
— Campeões — disse ele, com aquele meio sorriso de quem sabia que tinha a carta vencedora. — Além do mais… essa camisa tem uma coisa especial.
A que o Diego vestiu quando voltou, em 1993. Ele não precisou dizer. Nós dois sabíamos que era disso que estava falando. Para nós, torcedores do Central, aquela camisa é ao mesmo tempo objeto de desejo e de ódio. Não é bonita, mas foi a que Maradona vestiu. Ver Deus usando a camisa do diabo foi um dos momentos mais difíceis da minha vida como torcedor.
Olhei Messi terminar o cachorro-quente e pensei nas voltas que a vida dá. Nem ele, nem eu, poderíamos imaginar que, anos depois, quando Diego morresse, ele marcaria um gol pelo Barcelona, tiraria a camisa blaugrana e, por baixo, colada à pele, estaria aquela mesma camisa. A 10 do Newell’s com o Yamaha no peito. E que eu, torcedor do Central, me emocionaria até as lágrimas vendo aquilo. Porque, no futebol, às vezes, a grandeza vence a camisa. Mas ali, na orla, sob as tipas choronas, era apenas uma lembrança de tecido sintético.
Ele comentou que, naquele ano, o Newell’s tinha começado com uma camisa diferente, sem marca, toda vermelha e preta, que usaram apenas na primeira rodada, contra o Quilmes.
— Aquela era bonita — disse. — Limpa.
Ele tinha razão. Depois colocaram o Paladini no meio. Que, diga-se de passagem, naquele ano era o patrocinador dos dois. Central e Newell’s dividindo o mesmo patrocinador no peito. Uma justiça poética da cidade.
Fez-se um silêncio confortável. Já não era aquele silêncio pesado do começo. Era um silêncio de conversa depois do almoço.
— E você, o que faz? — perguntou do nada, limpando a boca com o guardanapo. — O que você tem a ver com a filmagem?
A pergunta me surpreendeu.
— Eu escrevo — respondi. — Sou redator.
Ele me olhou de um jeito estranho, como se não fizesse sentido para ele.
— Escreve o quê? Os diálogos?
— Claro. As ideias. O que acontece no comercial.
— E o que vai acontecer neste?
Não fazia muito sentido mentir para ele.
— Olha, para falar a verdade, a gente não sabe muito bem. Estamos apostando.
Contei que a campanha precisava usar a estrutura do “Não tem preço”. Que tinha de ser algo grandioso.
Ele me escutava atento, com aqueles olhos escuros que parecem analisar tudo sem julgar.
— A questão é a seguinte — eu disse. — Se você for convocado para a Copa, esse comercial vai passar em todo lugar. Vão ver você até na sopa. E as pessoas vão cobrar, porque a publicidade vai colocar você lá em cima. Vai ser uma promessa enorme. Você vai ter uma pressão absurda.
Messi nem piscou. Continuava olhando para o rio com uma calma que chegava a dar medo.
— E se eu não for? — perguntou.
Eu ri. Dei uma tragada no cigarro.
— Se você não for, o comercial não sai. Vai para uma gaveta. E provavelmente eu e meu chefe vamos ser mandados embora por termos gasto o orçamento em um garoto que vimos pela televisão.
Terminamos de comer. Enquanto fazia uma bolinha com o papel, lembrei do meu plano original.
— Cara, você sabe que acabou com a minha vida, né? — eu disse.
Messi me olhou sem entender, com os olhos bem abertos.
— Por quê?
— Porque meu plano era ir filmar você em Barcelona. Eu já me imaginava passeando pelas Ramblas, conhecendo a Europa… e, por sua culpa, terminei aqui, na orla, comendo um cachorro-quente.
Ele riu.
— Fazer o quê… — disse, dando de ombros. — Rosario é mais bonita.
— É… vamos dizer que sim.
Jogamos os papéis no lixo e, ao longe, vimos a camionete dobrar a esquina. Tinham trazido as roupas. Acabou o recreio. Voltamos caminhando em direção ao Monumento. Ele ia um passo à frente, com a bola debaixo do braço. Eu vinha atrás, pensando que nem a pau Rosario era mais bonita que Barcelona. Mas tudo bem. Já estávamos ali.
A filmagem foi feita às pressas, correndo contra a luz que estava indo embora. Messi vestiu suas próprias camisas, as que a mãe tinha trazido dentro de uma sacola grande. Fez embaixadinhas, olhou para a câmera, sorriu quando pediram. Fez tudo certo, rápido, prático. Antes de ir embora, revirou a sacola de roupas e tirou algumas coisas.
Ele assinou para mim uma camisa do Barcelona com o número 30 nas costas e uma bandeira da Argentina que eu tinha levado por precaução, caso precisássemos usá-la na filmagem.
Não fiquei com nada. Dei a bandeira para Martín, meu amigo fanático pelo Newell’s (que até hoje, de vez em quando, me manda uma foto ao lado do autógrafo do Messi, agradecendo). A camisa dei para os meus pais. A única coisa que guardei foram as fotos daquele dia e os DVDs.
Nos despedimos, e ele entrou no carro do pai. Ia para o aniversário. Nós ficamos juntando os cabos.
A equipe de filmagem voltou para Buenos Aires naquela mesma noite. Eu não. Fiquei em Rosario para passar as festas, como estava planejado.
Naqueles dias em Rosario, antes do Natal, comecei a assistir aos DVDs que Jorge tinha me dado. Sentei em frente à televisão, coloquei o primeiro disco no aparelho e apertei o play.
Eram horas de gravações caseiras. Campos de terra, gritos de pais, vento no microfone da câmera. E, no meio daquela confusão, ele. Um menino pequeno, muito menor que os outros, que pegava a bola e ninguém conseguia tirar. Eu o vi cair e levantar. Eu o vi encarar caras que tinham duas cabeças a mais que ele. Eu o vi fazer gols que não faziam sentido para um menino daquela idade.
Passei tardes inteiras olhando aquilo. No começo, eu assistia buscando material, procurando “o corte” para o comercial. Mas, depois de um tempo, deixei de olhar como publicitário. Esqueci a marca, o cliente, os segundos de exibição. Comecei a sentir outra coisa. Não sei se era o clima de fim de ano ou se era porque o país vinha muito machucado depois da crise de 2001, com aquela tristeza crônica que tinha se instalado no nosso corpo, mas ver aquele garoto jogar me provocava uma sensação que não tinha nome.
Senti, acima de tudo, alívio. Era a confirmação física de que, apesar de tudo, a magia continuava existindo. Que Diego não tinha sido o último milagre, que a fábrica não tinha fechado. E, pensando nisso, lembrei de algo que havia lido no primeiro ano da faculdade e que jamais tinha usado para vender nada: a definição original da palavra propaganda.
Não como usamos hoje para falar de política ou de anúncios sociais, mas no sentido original, aquele que a Igreja deu quando criou a congregação da Propaganda Fide. A propagação da fé. Sua função não era vender um produto; era avisar que havia uma esperança. Era sair para contar aos que estavam despedaçados que existia algo em que acreditar.
E era exatamente isso que eu sentia diante da televisão. Eu não precisava vender um cartão de crédito. Isso era secundário. O que eu precisava fazer era propagar aquela fé. Precisava avisar que alguém havia chegado.
Quando voltei para a agência em janeiro, sentei para escrever com essa ideia na cabeça e, longe de me sentir um gênio ou um iluminado, eu me sentia mais como um tradutor. Alguém que precisava colocar em palavras simples o que aqueles vídeos gritavam.
Peguei a estrutura da marca, que é rígida como um contrato: algo tem preço; algo não.
Bola de couro: $30
Bolinha de tênis: $12
Um quilo de laranjas: $3
Enquanto Messi fazia embaixadinhas. Isso era o de menos. O importante era a conclusão. E ela veio sozinha. Sem rodeios. Quase descritiva.
Que exista esperança depois de Diego: não tem preço.
Escrevi e fiquei olhando para o monitor. Naquele momento, não me pareceu uma frase brilhante. Pareceu-me justa. Era a verdade. E isso era a única coisa que importava.
O comercial saiu. Pékerman ligou para ele. Messi foi para a Copa do Mundo. E, durante meses, aquela frase e aquele rosto de menino rosarino estiveram em todos os lugares. E as pessoas, aos poucos, começaram a acreditar. A fé começou a se espalhar.
Depois… bem. Depois aconteceu a história que todos conhecemos. Vieram as frustrações, as finais perdidas, as renúncias, os xingamentos. O tempo passou. A vida passou. Houve momentos em que pensei que tínhamos dado azar, que tínhamos colocado uma maldição nele. Que tínhamos acabado com a carreira dele ao sermos os primeiros a colocar aquele estigma sobre seus ombros.
Mas ele continuou.
Hoje, escrevo isso com a terceira estrela bordada na camisa. Já não tenho vinte e dois anos. Já não durmo em um sofá. Lionel também não é mais aquele garoto magro sem bolsos. É o dono do futebol mundial. Mas, toda vez que o vejo levantar a Copa, toda vez que vejo aquele sorriso de felicidade absoluta que ele tem agora, lembro das tipas chorando, do calor de dezembro e da mostarda no canto da boca.
Tenho as fotos no Monumento, sim. E, sendo honestos, a história em si também não é nada de extraordinário. Quer dizer, é engraçado ter pago um cachorro-quente para o Messi, claro. Mas, para mim, ela sempre teve mais alma de promessa do que de qualquer outra coisa. Se durante todos esses anos eu não saí contando por aí, nem tinha sentado para escrevê-la (até porque não é que agora multidões vão ler), foi simplesmente por isso.
Porque naquela tarde, antes de voltar a filmar, fiz uma brincadeira que acabou virando um acordo.
— No dia em que você ganhar a Copa do Mundo, eu vou contar para todo mundo que paguei um cachorro-quente para você.
Ele riu, olhou para mim com aquela timidez de sempre e disse:
— Beleza.
E cumpriu. Demorou, nos fez sofrer, mas cumpriu. Por isso, ter estado ali, selando aquele pacto minúsculo no quilômetro zero da maior ilusão de nossas vidas, isso, eu juro pela minha velha: NÃO TEM PREÇO.
Texto de Nicolás Ferrario Marín
Junho de 2026
Messi e Belgrano
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