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Quando os ‘Les Bleus’, de Mbappé, e a extrema direita francesa, de Marine Le Pen, se confrontam

Quando os ‘Les Bleus’, de Mbappé, e a extrema direita francesa, de Marine Le Pen, se confrontam

 Kylian Mbappé, atacante da seleção da França, e Marine Le Pen, líder do partido francês de extrema direita Reunião Nacional.
Reuters/James Lang/Sarah Meyssonnier
A seleção francesa de futebol, liderada pelo capitão Kylian Mbappé, ascendeu tranquilamente à semifinal da Copa do Mundo e disputa com a Espanha uma vaga na final.
A líder da extrema direita no país, Marine Le Pen, ampliou sua vantagem e lidera as pesquisas de opinião, após ser autorizada, ainda que de tornozeleira eletrônica, a concorrer, pela quarta vez, às eleições presidenciais em abril do próximo ano.
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Tradicionalmente, os “Les Bleus” e os principais representantes da extrema direita se posicionam em lados opostos, num relacionamento marcado por ressentimentos. O multiculturalismo da bem-sucedida seleção, que disputou as finais das últimas duas Copas, contrasta com a retórica anti-imigração propagada pelo partido Reunião Nacional (RN), sob a tutela de Le Pen e seu vice, Jordan Bardella.
O time reflete um país moldado pela imigração. Dos 26 convocados, apenas três não nasceram em território francês. A grande maioria tem ascendência de países colonizados e vem de periferias. O pai de Mbappé, por exemplo, nasceu em Camarões e a mãe tem origem argelina, mas o atacante é francês de carteirinha, como faz questão de ressaltar.
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E, por esta razão, antes da Copa, ele usou sua influência para convocar os jovens a votar em massa nas próximas eleições. Numa entrevista à revista “Vanity Fair”, descreveu a ascensão de partidos de extrema direita como uma catástrofe e alertou que o futuro da França está em jogo.
“Eu sei o que isso significa e que tipo de consequências pode ter para o meu país quando esse tipo de gente assume o controle. Então, somos cidadãos. Temos o direito de expressar nossa opinião como qualquer outra pessoa.”
Outros jogadores, como Ousmane Dembélé, Jules Koundé e Marcus Thuram, fazem coro ao ativismo do capitão e atiçam a ira de Le Pen e Bardella. Mas, diante do forte desempenho de uma seleção campeã, fica difícil confrontar seus craques.
A extrema direita de hoje encontra dificuldades em criticar abertamente ou questionar a diversidade ou a identidade de seus jogadores, como fez há três décadas Jean-Marie Le Pen, pai de Marine. Favorita nas eleições de abril para suceder Emmanuel Macron, a líder do RN prefere agora qualificar os jogadores de elitistas e distantes da realidade dos franceses e atacar o seu ativismo político.
“Essa tendência de atores, jogadores de futebol e cantores de dizer aos franceses como eles devem votar — principalmente aqueles que ganham 1.300 euros por mês, enquanto eles próprios são milionários ou até bilionários — está começando a ser mal-recebida em nosso país”, pondera Le Pen.
Não é verdade. Os franceses abraçam seus craques, sobretudo em tempos de glória. Quando atua pela seleção, o próprio Mbappé faz questão de doar a totalidade de prêmios e bônus para associações de caridade: “Não preciso ser pago para defender as cores do meu país”, argumenta.
No entender do colunista Phillipe Bernard, do jornal francês “Le Monde”, a seleção francesa relembra ao país a sua diversidade e a “grande mistura” presente em sua sociedade. Conforme ele observou, esta não é a primeira vez que futebol e identidade francesa se cruzam.
“Quanto mais Kylian Mbappé e seus companheiros de equipe acumularem sucessos na Copa do Mundo, mais a identificação da França com sua seleção, um coletivo etnicamente diverso e globalmente celebrado, deverá ser motivo de alegria. A discrepância entre uma França diversa e vitoriosa e as tristes paixões identitárias do partido de extrema-direita RN também deverá se tornar mais evidente”, ponderou Bernard.
Le Pen e Bardella gostariam que Mbappé e seus companheiros apenas jogassem e se mantivessem calados e apolíticos, como ocorre em seleções de outros países. Na equipe francesa, contudo, o multiculturalismo funciona como arma, e o silêncio é inviável: “Você pode ser um jogador, pode ser uma estrela internacional, mas acima de tudo, você é um cidadão”, atesta o capitão Mbappé.
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