Análise: eliminação com elenco mais caro da Série C expõe erros do Guarani
Melhores momentos de Guarani 2×2 Brusque, pela 19ª rodada da Série C do Brasileiro
O Guarani não perdeu a classificação ao quadrangular final no empate por 2 a 2 com o Brusque. Seria muito mais fácil apontar para o jogo decisivo, lamentar as chances desperdiçadas ou escolher um momento específico para explicar a eliminação. Mas a queda na última rodada é consequência de um processo muito mais longo.
O time que permaneceu praticamente todo o campeonato dentro do G-8 (16 de 19 rodadas) – e que chegou a liderar a Série C por quatro rodadas – perdeu a vaga justamente na partida final, quando dependia apenas das próprias forças para avançar. De maneira cruel para o torcedor, o Guarani terminou a competição em 10º lugar, com 28 pontos, um a menos que o Santa Cruz, último classificado.
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O Guarani entrou na Série C como o grande favorito. Carregando o peso de ser campeão brasileiro, tinha a maior folha salarial da competição e investiu em nomes de peso para buscar o acesso, como Caíque França, Lucca, João Paulo, Ralf, Rafael Donato e Diego Torres.
Mas o futebol apresentado nunca transformou esse favoritismo em unanimidade.
Guarani x Brusque, Série C
Raphael Silvestre/ Guarani FC
Logo nas primeiras rodadas, sob o comando de Elio Sizenando, o Bugre não conseguiu empolgar. O treinador chegou a ser pressionado antes de encontrar uma sequência positiva que lhe deu sobrevida e colocou a equipe na liderança.
Foi um time de bom e velho feijão com arroz, como muitas vezes se pede na Série C. Competitivo, eficiente e capaz de somar pontos. O suficiente para liderar a competição, abrir vantagem para os concorrentes e criar a impressão de que a classificação estava encaminhada. Mas não estava.
O Guarani se atrapalhou de diversas maneiras dentro e fora de campo. E o primeiro grande erro apareceu ainda no planejamento.
A direção montou uma folha elevada – a mais cara da divisão – contando com recursos que sabia que seriam finitos, principalmente o dinheiro proveniente da venda de Richard Ríos. A lógica de antecipar investimentos apostando na entrada de novas receitas pode até fazer sentido em determinadas circunstâncias. O problema é quando o dinheiro esperado não chega a tempo de sustentar a estrutura criada.
Elenco do Guarani na Série C
Raphael Silvestre
A aposta em uma aceleração do processo de transformação em SAF também não se confirmou.
A atual gestão acreditou que haveria tempo para conduzir a transição e entregar as contas ao futuro investidor. Não houve. E parte da responsabilidade por isso também passa pela própria condução política do clube, que precisou refazer o processo eleitoral de dezembro com a Série C já em andamento. A consequência apareceu no futebol.
Os salários começaram a atrasar. Primeiro, como um problema administrativo. Depois, inevitavelmente, como um problema de vestiário.
E é impossível ignorar a coincidência entre o agravamento da crise financeira e a queda de rendimento da equipe. Nos últimos nove jogos, o Guarani venceu apenas uma vez, empatou quatro e perdeu outras quatro.
Guarani x Brusque; Série C 2026
Raphael Silvestre
Mais do que os resultados, existe um dado que explica a dimensão do desperdício: o Bugre saiu na frente em seis desses nove jogos. Em três deles, sofreu o empate. Em outros três, sofreu a virada. Foram 15 pontos deixados pelo caminho.
Não é possível afirmar que todos eles foram perdidos exclusivamente pelos atrasos salariais. Mas também seria ingênuo ignorar que o Guarani passou a conviver com uma instabilidade cada vez maior justamente quando a questão financeira tomou conta do cotidiano do elenco.
O próprio Carlos Frontini, após a eliminação, assumiu a responsabilidade e foi ainda mais direto ao avaliar o que aconteceu.
Frontini, executivo de futebol do Guarani
Reprodução TV Guarani
– O dinheiro sempre ficou na frente da classificação.
A frase resume um ano em que o Guarani parece ter errado justamente naquilo que mais precisava acertar.
Faltou planejamento para montar uma estrutura financeira compatível com a realidade do clube. Faltou capacidade para honrar os compromissos assumidos. Faltou convicção para manter uma linha de trabalho. Faltou equilíbrio para controlar partidas em que o time esteve em vantagem.
E faltou, principalmente, reconhecer os erros enquanto ainda havia tempo para corrigi-los.
Rômulo Amaro, presidente do Guarani, conversa com o executivo Carlos Frontini
Raphael Silvestre/Guarani FC
A troca de treinador também ajuda a contar essa história. O Guarani começou o ano com Matheus Costa, passou por Elio Sizenando e terminou a Série C com Umberto Louzer. Três comandos diferentes em uma temporada na qual o principal objetivo era justamente construir estabilidade para buscar o acesso.
Dentro de campo, a montagem do elenco também não entregou o retorno esperado.
Jogadores como Lucca, Diego Torres, Rafael Donato, Ralf e outros nomes experientes chegaram para dar peso ao time, mas não conseguiram produzir na proporção do investimento feito. Ao mesmo tempo, jogadores formados na base tiveram pouco espaço justamente em uma temporada em que o clube precisava encontrar alternativas dentro da própria estrutura.
O resultado foi uma folha cara que não conseguiu se pagar e um elenco que, no momento decisivo, não conseguiu responder. É a cartilha do anti-acesso.
Do campo ao comando, o Guarani errou em tudo
O Guarani olhou para modelos que deram certo em outros clubes, apostou em nomes experientes, inflou a folha, demorou para reconhecer os próprios problemas, perdeu estabilidade no comando técnico e deixou de lado uma característica historicamente importante do clube: a capacidade de revelar e utilizar seus próprios jogadores.
Nada disso explica sozinho a eliminação. Juntos, porém, ajudam a explicar por que um time que chegou a liderar a Série C terminou a competição olhando de fora do quadrangular.
A reflexão, portanto, não pode começar no Brusque. Precisa começar muito antes.
Rômulo Amaro, presidente do Guarani
Raphael Silvestre/Guarani FC
E, como em qualquer processo de reconstrução, precisa chegar ao comando do clube. O presidente Rômulo Amaro e a atual gestão terão de responder pelos erros cometidos em um ano no qual o Guarani tinha uma oportunidade concreta de voltar à Série B e não conseguiu.
Frontini falou em uma reformulação profunda e estimou que 70% do elenco não teria condições de permanecer. É uma avaliação dura, mas que acompanha a dimensão do fracasso.
Ao mesmo tempo, o clube vive uma encruzilhada ainda maior fora de campo. O processo de transformação em SAF pode mudar completamente a realidade de gestão e financeira do Guarani nos próximos meses. Isso torna a reflexão ainda mais necessária.
Empresário Roberto Graziano
Raphael Silvestre/Guarani FC
O Guarani precisa decidir qual clube quer ser antes de decidir quais jogadores quer contratar. Precisa saber qual orçamento pode sustentar, qual modelo de futebol pretende seguir e quais profissionais terão autonomia para executar esse projeto.
Não há mais espaço para montar um time apostando que o dinheiro vai aparecer depois.
A história recente mostra que o Guarani já encontrou o caminho para sair da Série C. Em 2016, depois de anos de fracassos na divisão, o clube conseguiu finalmente reconstruir uma equipe capaz de suportar a pressão e conquistar o acesso.
Agora, a situação é diferente, mas a necessidade é a mesma: aprender com os erros antes de repetir o ciclo.
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O Guarani morreu na praia em 2026 depois de passar boa parte da temporada com a classificação nas mãos e agora vai para a terceira edição seguida da Série C na próxima temporada
O problema é que a eliminação não aconteceu em 90 minutos. Ela foi construída ao longo de meses de decisões equivocadas. E, se o clube realmente quiser voltar ao lugar que entende merecer, a primeira decisão precisa ser justamente não repetir nenhuma delas.
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