Estamos prontos para o dia em que Messi anunciar que não é mais jogador de futebol?
Passava um pouco do meio-dia quando fomos impactados pela notícia: Messi não jogará mais pela Argentina. A pior parte é o inevitável pensamento catastrofista que nos assola de forma quase automática. Está chegando o dia em que vamos acordar num mundo em que Messi não jogará mais futebol.
Não que tenha sido uma surpresa, mas nos últimos meses o adormecer do futebol de seleções pós-Copa do Mundo facilitou o exercício de viver em estado de negação. No fundo, a cada drama vivido pela Argentina no Mundial, o que estava em jogo não era a sobrevivência daquele time, ao menos para nós, espectadores neutros. Quando Sidny Cabral acertou aquele chute na prorrogação do duelo pela segunda fase, quando o Egito fez 2 a 0 no jogo das oitavas, quando a Suíça empatou o jogo das quartas, quando a Inglaterra abriu o placar da semifinal… cada um desses momentos poderia significar a cena final de Messi com a camisa da seleção, numa Copa. No fundo, imaginávamos que o anúncio viria. Mas uma coisa é imaginar, outra é receber a notícia dada pelo próprio Messi.
Messi marca três vezes na vitória da Argentina sobre a Argélia na Copa do Mundo
Getty Images
Ele termina sua etapa no futebol de seleções da forma como conduziu cada passo que deu fora dos gramados: sem espalhafato, com um texto curto e elegante em suas contas nas redes sociais. Na era das celebridades, em que parece ser obrigatório estar onipresente em vídeos virais, expor o que se faz, o que se veste, o que se come, Messi ganhou o mundo apenas jogando bola. É um elogio, mas pode também ser uma crítica. Porque é justo debater se o tamanho do personagem não lhe atribuía também a responsabilidade de se engajar de forma mais e empenhada em temas essenciais para melhorar a sociedade.
De volta ao futebol, Messi foi, e por enquanto ainda é, um produtor serial de encantamentos no futebol de clubes. Foi assim no Barcelona, no PSG e ainda é em Miami. Em suas equipes, redefiniu padrões sobre o que é ser um craque, inspirou gerações. Mas foi o futebol de seleções que o humanizou. Nele, sua trajetória expôs de maneira mais flagrante e escancarada a condição humana dele e daqueles que acompanharam sua trajetória.
Antes dos títulos, Messi nos fez perceber como a nossa relação com o futebol sabe ser cruel, como olhamos para os grandes ídolos como se eles vivessem para satisfazer nossos desejos, sem que permitíssemos a eles, eventualmente, falhar. Messi era um “não argentino”, um desertor sem sentimentos incapaz de mover montanhas para tornar campeã uma Argentina quase sempre caótica nos bastidores. Tudo isso porque nós decidimos que ser campeão com a seleção era um dever de Messi, quase uma prenda que estava obrigado a pagar por ser o maior jogador que o mundo viu nos últimos sabe-se lá quantos anos.
Quando brevemente abandonou a seleção, expôs a sua própria humanidade, permitiu-se mostrar sua vulnerabilidade, seu limite. Já não suportava algo, fossem as frustrações, as cobranças.
Na arrancada para ser campeão de tudo com a seleção, o homem que parecia quase um autômato jogando futebol já se permitia sorrir, questionar árbitros, liderar. Quando perdeu a última de suas finais, isolou-se de tudo no centro do campo de um estádio lotado e chorou de soluçar.
O pior de tudo não é saber que Messi não jogará mais pela Argentina. É saber que, um dia desses, não jogará mais com camisa alguma. geRead More


