Everaldo, do Santa Cruz, revisita origens e conta reação do pai ao jogar no Sport: “Ficou arretado”
Everaldo volta às origens e fala do seu amor pelo Santa Cruz
Antes de ser o atacante que passou por grandes clubes do Brasil como Fluminense e Corinthians, Everaldo era apenas o menino do Alto do Sol Nascente, em Olinda, que tinha o sonho de jogar no Arruda. Pernambucano e criado em uma família tricolor, cresceu tendo o Santa Cruz na sua rotina: primeiro como torcedor, depois como jogador da base e, agora, como profissional do clube do coração.
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O ge levou Everaldo de volta ao bairro onde cresceu, em Olinda, para reencontrar familiares, amigos e vizinhos, além de revisitar os caminhos que ajudaram a construir sua história. Entre a infância no bairro e a paixão pelo Santa, há também um capítulo curioso: a passagem pelo Sport, em 2021, que fez o pai – que também chama-se Everaldo, tricolor declarado, ficar “arretado”.
Everaldo, atleta do Santa Cruz, e sua família no Alto do Sol Nascente, em Olinda, bairro onde moram.
Vinicius Caxangá / Globo Esporte
De volta para casa
O Alto do Sol Nascente fica em uma região elevada de Olinda, a cerca de 12 quilômetros do centro do Recife. A comunidade é marcada por ruas inclinadas e, em boa parte, sem asfalto. Em uma das ladeiras do bairro, a família de Everaldo ocupava praticamente toda a vizinhança: uma casa ao lado da outra, com tios, parentes e, na parte de baixo, a residência onde ele passou os primeiros anos de vida.
Hoje, parte daquela paisagem mudou. Algumas das casas precisaram ser desocupadas por determinação da Defesa Civil de Pernambuco, por causa do risco de deslizamentos provocado pelas chuvas. A família se mudou para outra rua na parte de cima da ladeira, onde o pai de Everaldo mora até hoje.
Mas há algo que permanece praticamente igual: o espaço onde o atacante passava as tardes jogando futebol.
Everaldo, atleta do Santa Cruz, no Alto do Sol Nascente, em Olinda, bairro onde morou.
Marcelo Cabral / TV Globo
Em frente à casa da tia, no alto da ladeira, a área de terra batida continua servindo de ponto de encontro para as crianças da comunidade. Foi ali que Everaldo começou a imaginar um futuro que, naquela época, parecia distante de acontecer.
“Foi neste espaço, na frente de casa, que a gente se divertia e passava as tardes. Chegava da escola louco para jogar futebol. No começo, a gente marcava o gol com dois tijolos, depois a gente evoluiu e colocou traves de ferro”, relembrou Everaldo.
Edna, tia de Everaldo, recorda um garoto brincalhão, que começou cedo a jogar bola e logo passou a frequentar os treinos do Santa Cruz. Elizabeth, vizinha da família, se diz orgulhosa e relembra momentos dele na infância.
“Tenho muito orgulho dele. Não só eu, mas todo mundo (do bairro). Ele era danado. Fazia questão de jogar com os meninos grandes. Ele pequenininho, mas jogava mais que os maiores”, disse Elizabeth.
Foi naquele espaço que surgiu o desejo de jogar no Arruda um dia.
– Eu sentia muita vontade de vencer, e um desejo muito grande de um dia jogar no Arruda. Eu fui para diversos jogos com o meu pai, e lá eu tinha o desejo de um dia estar dentro de campo. Era isso que eu pensava todos os dias quando jogava bola no campinho do bairro – destacou Everaldo.
Uma família tricolor
A paixão pelo Santa Cruz veio de casa. Everaldo cresceu cercado por uma família tricolor, mas foi principalmente o pai, torcedor apaixonado pelo clube, quem ajudou a construir a relação do atacante com o Tricolor.
– Toda a minha família é tricolor, e praticamente 80% da rua também – disse o jogador.
Everaldo e sua família no Alto do Sol Nascente
Marcelo Cabral / TV Globo
Everaldo frequentava o Arruda com o pai e acompanhava de perto o clube que hoje defende. Aos sete anos, foi colocado pelo pai para treinar no Santa Cruz e passou cerca de oito anos entre a escolinha e as categorias de base.
O caminho até os treinamentos fazia parte do esforço da família. O pai levava Everaldo e o irmão de bicicleta até o Arruda.
“Eu moro aqui até hoje, há 54 anos. Saíamos daqui de bicicleta para levar Everaldo aos treinos no Arruda. Não à toa o número da camisa dele é 37, porque levávamos 37 minutos para chegar lá”, revelou o pai.
O número virou uma homenagem. Por onde passou, Everaldo carregou o 37 na camisa. Agora, no Santa Cruz, o significado é ainda maior: o número conecta o jogador ao menino que sonhava em ser profissional.
E a passagem pelo Sport?
A paixão pelo Santa Cruz não impediu Everaldo de vestir a camisa do principal rival.
Em 2021, o atacante defendeu o Sport. A escolha profissional contrariou especialmente o pai, torcedor apaixonado pelo Tricolor.
“Eu visto todas as camisas dos clubes onde ele passou. A do Sport eu tenho até hoje, mas nunca vesti. Eu torcia por ele, mas não pelo Sport”, disse Everaldo pai.
Everaldo em treino pelo Sport
Anderson Stevens / Sport Club do Recife
O atacante lembra que o pai não recebeu bem a notícia.
“No início, eu lembro que ele não aceitou muito bem. Para você ter ideia, ele pegou a camisa do Sport com uma sacola para guardar e não tocar nela. Em consideração e carinho, ele guardou, mas ficou arretado”, contou o atleta.
Para Everaldo, a passagem pelo rival foi uma decisão profissional.
– O profissionalismo está acima de tudo. Então, eu não pensei duas vezes. Era uma oportunidade boa, e eu queria ficar perto da minha família. O Sport estava na Série A – recorda.
Realização do sonho da família
Depois de passar por diferentes clubes e construir uma carreira profissional, Everaldo finalmente voltou ao Santa Cruz. Agora, não como torcedor ou atleta da escolinha, mas como jogador profissional.
Para ele, é a realização de um sonho que também pertence a quem esteve ao seu lado durante o caminho.
– Pesou bastante. O desejo e a vontade de jogar no Santa Cruz eu já tinha, mas saber que era um sonho que não era só meu, mas da família também, fez toda diferença.
“Penso principalmente no meu pai, que é um cara que nunca largou minha mão, mesmo nos momentos difíceis em que pensei em desistir. É gratificante demais estar aqui. Ainda não realizei o sonho de jogar no Arruda, com todos eles presentes, mas sempre estão nos jogos na Arena.”
Everaldo comemora sonho realizado e bom momento no Santa Cruz
A família também enxerga a chegada ao Santa Cruz como a concretização de um esforço de todos.
– Sentimento de gratidão em ver que tanto esforço valeu a pena. A gente se esforçou muito. Eu, o pai, a avó… todos levavam ele para os treinos. Não é apenas o sonho dele que está realizado, é o de toda a família. Sonhamos e conseguimos realizar – disse Edna, tia do atacante.
Everaldo também olha para trás com gratidão. Ao retornar ao Alto do Sol Nascente, reencontrou o cenário onde tudo começou com as pessoas que fizeram parte daquela infância. E que agora veem ele viver novo capítulo: a missão de ajudar o Santa Cruz a buscar o acesso à Série B.
“Me sinto realizado. Uma gratidão por saber que tudo valeu a pena. Para mim, retornar aqui é um sentimento de alegria e de gratidão a Deus.”
Atacante Everaldo durante vitória do Santa Cruz.
Marlon Costa/AGIF
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