Integrante de cartel revela rotina de violência e recrutamento de jovens no México: ‘Maioria dos assassinos tem entre 14 e 20 anos’
Em entrevista rara, integrante de cartel revela rotina e recrutamento de jovens no México
Uma entrevista rara com um integrante do Cartel Jalisco Nova Geração, um dos grupos criminosos mais violentos do México, revelou detalhes sobre a rotina dentro da organização, o recrutamento de jovens e a violência praticada pelos integrantes. O encontro foi acompanhado pela equipe do Fantástico durante uma reportagem sobre os riscos enfrentados por jornalistas que cobrem a guerra dos cartéis no país. Veja no vídeo acima.
Para conseguir chegar até o integrante do grupo, o correspondente Jack Nicas, que chefia o escritório do New York Times no México, precisou estabelecer contatos e negociar as condições da entrevista. O encontro aconteceu nos arredores de Guadalajara, em um local mantido em sigilo.
Por questões de segurança, a equipe trocou de veículo antes de chegar ao local. Também houve uma negociação sobre o uso das câmeras e sobre como os profissionais deveriam se comportar durante a conversa.
Integrante diz estar há sete anos no cartel
O homem entrevistado não teve a identidade revelada. Segundo ele, sua entrada no cartel aconteceu após um convite de um amigo. Ele afirmou estar na organização há sete anos.
Durante a conversa, o integrante descreveu uma realidade marcada pela violência extrema e falou sobre a participação de adolescentes e jovens nas atividades criminosas.
Segundo o relato apresentado na reportagem, muitos dos integrantes envolvidos em assassinatos têm entre 14 e 20 anos. A violência, de acordo com ele, pode incluir a execução e a mutilação de vítimas.
“A maioria dos assassinos tem entre 14 e 20 anos.”
O integrante também afirmou que, depois dos assassinatos, alguns criminosos são responsáveis por esquartejar os corpos e esconder os restos mortais.
Cartel continua forte mesmo após morte de líder
A entrevista aconteceu meses depois da morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como El Mencho, fundador do Cartel Jalisco Nova Geração e um dos criminosos mais procurados do México.
Segundo a reportagem, a morte do líder levantou dúvidas sobre o futuro da organização. O integrante entrevistado, porém, afirmou que o cartel continuava funcionando porque suas responsabilidades haviam sido distribuídas entre diferentes membros.
“Essa é uma organização grande. As responsabilidades se dividiram, da maior cabeça para o menor.”
A avaliação apresentada pelo integrante é de que a estrutura do grupo permitiu que as atividades criminosas continuassem mesmo após a morte de seu fundador.
Por que jornalistas são ameaçados?
Durante a entrevista, o integrante do cartel também foi questionado sobre a violência contra jornalistas no México.
O país é um dos locais mais perigosos para profissionais que trabalham com cobertura policial e de segurança. Repórteres enfrentam ameaças, ataques e assassinatos enquanto acompanham a atuação dos grupos criminosos.
Questionado sobre o motivo de jornalistas serem alvos, o integrante afirmou que alguns profissionais “exageram” na cobertura e ultrapassariam limites estabelecidos pelo grupo.
Segundo ele, quando isso acontece, pode haver uma ordem para matar o jornalista.
Entrevista exigiu negociação e segurança
Para Jack Nicas, conseguir uma entrevista direta com um integrante do cartel é especialmente difícil e perigoso.
O correspondente explicou que, normalmente, jornalistas conversam com analistas, autoridades e vítimas para compreender a atuação dos grupos criminosos. Ter acesso direto a um integrante, porém, permite conhecer a organização a partir do relato de quem participa dela.
“Muitas vezes a gente está falando com analistas, com autoridades, com vítimas, coisas assim. Mas para falar com eles mesmo, isso nos dá um entendimento muito mais profundo.”
Antes do encontro, a equipe precisou trocar de veículo e combinar regras para a gravação. A câmera deixou de ser usada a partir de determinado momento, já que o local era tratado como uma casa de segurança.
A entrevista também mostra uma das dificuldades enfrentadas por jornalistas que tentam investigar o crime organizado no México: para conseguir informações diretamente de integrantes dos cartéis, é necessário estabelecer uma relação de confiança sem deixar de lado os cuidados para preservar a segurança da equipe.
Depois da conversa, Nicas voltou à redação para discutir o material obtido. A entrevista, segundo ele, ajudaria a ampliar a compreensão sobre a força do Cartel Jalisco Nova Geração mesmo após a morte de seu fundador.
Sequestro, ameaças e atentados: os riscos enfrentados pela imprensa no país mais perigoso das Américas para jornalistas
Reprodução/TV Globo
Veja a reportagem completa no vídeo abaixo:
“Jornalistas no Front” revela os bastidores do jornalismo nas zonas de conflito
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