“Margem de erro zero”: por que o River Plate gasta tanto e não retoma o protagonismo?
River Plate 1 (7) x (8) 1 Ind. Santa Fe | Melhores Momentos | Copa Sul-Americana
Apelidado de “Millonario”, o River Plate nada em dinheiro e obteve faturamento superior a R$ 1 bilhão na temporada passada. A boa exploração comercial do Monumental de Núñez, que poderá receber 101 mil pessoas a partir de 2029, e um plano forte de sócio-torcedor são os pilares do sucesso financeiro. Tais ganhos não se traduzem em resultados esportivos, e o clube não é campeão desde 2024. O último fracasso foi a eliminação na Sul-Americana, que culminou com a saída de Eduardo Coudet. O ge tenta explicar por que o campo não acompanha as finanças.
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Santiago Beltrán pegou três pênaltis, mas perdeu o que bateu em disputa com o Santa Fe que eliminou o River Plate
REUTERS/Agustin
Escolhas ruins
Nicolás Berardo, jornalista que cobre o River Plate pelo Diário Olé, atribui o momento ruim às escolhas feitas pelo departamento de futebol. Enzo Francescoli, ídolo enorme do clube e que colecionou conquistas enquanto jogador do River, é o responsável pela pasta.
O que melhor exemplifica essa falha do Millonario no mercado é a atual situação dos reforços. Dos cinco contratados, apenas Fausto Vera e Aníbal Moreno, que tiveram passagens bem discretas pelo Brasil, são aproveitados. Viña, emprestado pelo Flamengo, é um dos que estão encostados.
– Em 2026, até o momento, apenas dois dos jogadores contratados (Aníbal Moreno, Fausto Vera, Matías Viña, Tobías Ramírez e Kendry Páez) integram o elenco principal. Viña, Ramírez e Páez estão afastados, treinando à parte e sem espaço na equipe principal – disse Berardo.
Viña em ação com a camisa do River Plate contra o Barracas Central
Marcelo Endelli/Getty Images
O River conseguiu vendas expressivas nos últimos anos, casos de Claudio Echeverri, Julián Álvarez, Franco Mastantuono e Enzo Fernández. Na temporada passada, arrecadou R$ 207 milhões em saídas de jogadores. Com esse aporte somado às receitas oriundas de patrocínio, sócio-torcedor e exploração do Monumental, o clube pôde gastar mais de R$ 350 milhões na última janela.
– O River vive uma contradição: dispõe de dinheiro suficiente para montar um elenco com campeões mundiais e grandes nomes, mas não está alcançando os resultados esperados. As receitas obtidas pelo clube com patrocínios, somadas às vendas internacionais de alto valor, garantem recursos para investimentos. No entanto, a gestão desses recursos não tem sido bem-sucedida: as escolhas feitas nas últimas janelas de transferências não trouxeram o retorno esperado em campo.
Medalhões que dão pouco retorno
O River Plate nos últimos anos passou a apostar em vários campeões mundiais pela Argentina em 2022. Montiel, também campeão da Libertadores de 2018 e que voltou em janeiro de 2025, recebeu elogios no início de sua segunda passagem pelo clube, mas já viveu período de oscilação. Ángel Correa, recém-contratado, começou muito bem, dando sequência à boa trajetória de uma temporada no Tigres, do México, mas os demais não têm devolvido ao River a confiança depositada.
Ángel Correa é o medalhão que vem dando certo no River Plate
Alejandro PAGNI / AFP
O zagueiro Pezzella teve seu contrato rescindido recentemente. Colega de posição, Martínez Quarta, campeão da Libertadores de 2018 pelo clube e que participou do ciclo da Argentina campeã mundial, também não se destaca. Foi um dos grandes vilões da eliminação diante do Santa Fe, com um pênalti cometido durante os 90 minutos e uma cobrança desperdiçada após o tempo normal – isolou a bola.
O lateral-esquerdo Marcos Acuña tampouco está em alta, e a chegada de Viña, ex-Flamengo, foi justamente para preencher essa lacuna. Como não deu certo, voltou a ter oportunidades, mas os 34 anos têm pesado contra. Otamendi, de 38 anos, recém-contratado e apaixonado pelo clube, tem agradado pela liderança, mas soma apenas oito jogos.
O colombiano Rafael Borré, campeão da Libertadores em 2018 e autor do gol na decisão do ano seguinte contra o Flamengo, voltou há pouco do Internacional e também começou mal. Na disputa de pênaltis contra o Santa Fe, teve a oportunidade de classificar o River num “match-point”, mas bateu na trave.
Contratação mais cara da história do River Plate, o também tricampeão mundial Thiago Almada, que custou quase R$ 180 milhões, tem um início ruim no clube. Em quatro jogos, não soma gols e nem assistências, somente um cartão amarelo. No jogo contra o Vélez Sarsfield do último domingo, em que o River Plate vencia por 2 a 0 e cedeu o empate, falhou feio no gol que deu início à reação do clube onde foi formado.
Thiago Almada, do River Plate, durante partida contra o Argentinos Juniors, pelo Campeonato Argentino.
X/River Plate
Próximo treinador: “Margem de erro zero”
O River Plate levantou sua última taça em março de 2024, quando venceu o Estudiantes por 2 a 1 na Supercopa Argentina. À época, o ex-zagueiro Martín Demichelis era o treinador.
Demichelis foi demitido no fim de julho de 2024, com três títulos (Campeonato Argentino, Trofeo de Campeones e Supercopa Argentina). Seu substituto foi Marcelo Gallardo, treinador mais vitorioso da história do clube e que conquistou 14 títulos de junho de 2014 a outubro de 2023, entre eles duas Libertadores. A segunda passagem de Gallardo foi um fiasco, sem taças e a primeira ausência em Libertadores depois de 11 participações consecutivas. Insistiu em medalhões de outrora, como Enzo Pérez e Juanfer Quintero, e não teve sucesso.
– Também não houve sucesso quando contratou Marcelo Gallardo, o técnico mais vitorioso da história do clube, que acabou saindo em fevereiro. Seu substituto, que contava com grande aprovação inicial, também não funcionou: Eduardo Coudet nunca conseguiu imprimir sua identidade à equipe, salvo em poucas partidas – disse o jornalista Nico Berardo.
Eduardo Coudet não resistiu à eliminação na Copa Sul-Americana
AFP/JUAN MABROMATA
Eduardo Coudet chegou em março, começou bem, tirou o River da parte de baixo da tabela e o levou à final do Torneio Apertura do Campeonato Argentino. O problema é que depois de estar vencendo por 2 a 1 o modesto Belgrano, tomou a virada e foi vice-campeão.
No pós-Copa, dirigiu o time em nove jogos, foi eliminado da Copa Argentina pelo também pequeno Aldosivi, perdeu os quatro primeiros jogos do Torneio Clausura, deixando o time longe da zona de classificação para os playoffs, e ainda caiu na Sul-Americana. Tal panorama, segundo Berardo, já coloca um pressão enorme sobre o substituto de Coudet, que ainda nem definido foi.
– O River parece preso a um ciclo vicioso e nocivo, no qual as dúvidas geradas pelos tropeços recentes condicionam o futuro. Tanto que o clube não conquista títulos desde 2024. Em 2025, ano no qual a equipe se preparou visando ao Mundial de Clubes, terminou da pior maneira possível: além de ser eliminado na fase de grupos do torneio mundial, o time não passou das oitavas de final no Campeonato Argentino e ficou fora da Copa Libertadores por não ter pontuação suficiente na tabela anual – citou Nicolás Berardo.
– A situação não é melhor neste ano: quatro derrotas consecutivas no torneio Clausura deixaram o River fora da zona de classificação para competições internacionais e da disputa dos playoffs, afastando-o da briga pelo título. Diante de tamanha dificuldade, a diretoria escolheu Leonardo Ponzio — ídolo e capitão da era Gallardo — para comandar uma transição até que um novo técnico seja definido. Esse novo treinador terá de suportar uma pressão com a qual é difícil lidar. Porque a margem de erro já é zero – diagnosticou Berardo.
Torcida reage
Campeão da Libertadores em 2014 e 2018, finalista em 2019, o River foi perdendo protagonismo aos poucos. Não jogou a decisão da principal competição continental de 2024 em casa porque caiu para o Atlético-MG com extrema facilidade na semifinal. Tampouco aproveitou o péssimo momento do Boca Juniors e viu os pequenos Central Córdoba, Platense e Independiente Rivadavia levantarem troféus nos últimos anos.
Torcida que garante ao River Plate o maior quadro associativo das Américas com 352 mil cadastrados, os fãs do Millonario vinham aceitando passivamente os insucessos constantes. Primeiro houve uma esperada boa vontade com o ídolo Gallardo, apesar do futebol ruim e dos péssimos resultados. Posteriormente veio a aceitação inicial ao nome de Coudet, volante raçudo do River nos tempos de jogador, mas o 2026 terrível trouxe protestos, como o desta quarta-feira (clique aqui e leia).
Torcedores do River protestam no Monumental e se envolvem em confusão com segurança
Reprodução
Com os fãs do Millonario no limte, e um elenco repleto de estrelas como Almada, Ángel Correa, Lucas Beltrán e Montiel, o River Plate apostará no novo ou dará sequência às apostas em um passado que não tem sido mais garantia de vitórias? A sucessão a Coudet foi com Leonardo Ponzio, ídolo do clube, mas de forma interina. Teremos cenas de novos capítulos e uma reação inesperada nesse fim de 2026 ou um Vale a Pena Ver de Novo? Dúvidas permeiam o futuro do gigante de Núñez. geRead More


