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Neymar preso em elevador, dívida de empréstimo… Odair Hellmann conta bastidores do ouro em 2016

Neymar preso em elevador, dívida de empréstimo… Odair Hellmann conta bastidores do ouro em 2016

10 anos do ouro olímpico: Odair Hellmann relembra bastidores da conquista inédita
Há histórias do primeiro ouro olímpico do Brasil no futebol masculino que permanecem desconhecidas mesmo após dez anos. Algumas delas foram contadas por Odair Hellmann, hoje técnico do Athletico e que foi auxiliar de Rogério Micale nos Jogos do Rio de Janeiro em 2016.
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Em entrevista exclusivo ao ge, Odair contou bastidores inéditos do título histórico envolvendo as principais figuras daquele time. Um deles é sobre uma dívida feita pelo treinador que dependia da medalha para ser quitada.
— A gente dá muita risada até hoje. Fomos para Goiás fazer o último amistoso contra o Japão das Olimpíadas. O Micale reuniu jogadores como Renato Augusto, Fernando Prass, Neymar, Gabigol, Rodrigo Caio e pediu “a gente vai entrar em um momento histórico, eu gostaria que vocês, como representantes do grupo, pudessem falar alguma coisa”. Eu pensei quietinho “tomara que comece por mim, falo alguma coisa e está tudo certo”. Rodou todo mundo, cada um falava uma coisa importante. Eu pensava alguma coisa para falar, outro falava.
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Odair Hellmann ao lado de Neymar depois do ouro do Brasil na Rio-2016
Arquivo/Acervo pessoal
— Eu pensei: “vou ter que tirar um coelho da cartola”. Quando chegou na minha vez, eu falei: “olha, deixa eu só falar uma coisa bem séria, foi muito importante o que vocês falaram, mas eu fiz um empréstimo de R$ 300 mil, vocês ganhem essa Olimpíada que eu vou pagar o empréstimo da minha casa”. Os caras descontraíram. Quando ganhamos, todo mundo mandou mensagem: “Papito, não gasta o dinheiro, paga a tua casa”. Fomos campeões, marcamos história e eu paguei minha casa.
Odair Hellmann era auxiliar técnico do Internacional quando foi convidado por Micale para compor a comissão nas Olimpíadas. A Seleção não começou bem e só empatou sem gols com África do Sul e Iraque, mas deslanchou depois da goleada por 4 a 0 sobre a Dinamarca.
Avançou sobre Colômbia e Honduras até chegar à final contra a Alemanha. Após empate por 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação, o título seria decidido nos pênaltis. O estudo dos cobradores foi fundamental, principalmente para mapear o atacante Petersen, último batedor alemão.
— Um dos batedores da Alemanha tinha oito pênaltis, quatro para cada lado. E aí, vai para que lado? Observamos que quatro pênaltis em determinado lado eram (em jogos) para 100 pessoas assistindo, em amistoso, contra adversário não tão forte, e quatro batidas para o outro lado eram contra o Bayern, em jogo grande.
— A gente disse: “na final da Olimpíada, se fosse para escolher um lado, eu vou no chapado”. Ele era o último batedor da Alemanha, a gente estava em fila e eu botei na minha cabeça: “chapada e o Weverton vai pegar”. E o cara bateu de chapada, o Weverton pegou, e aí o Neymar bola na cal e campeão olímpico.
Rogério Micale Odair Hellmann seleção olímpica ouro Rio de Janeiro Olimpíada
Ricardo Stuckert / CBF
Um perrengue com Neymar pouco antes da final e um problema no ônibus da deleção brasileira depois da goleada por 6 a 0 sobre Honduras na semifinal também foram revelados por Odair na conversa.
— Tem várias histórias, teve o Neymar trancado no elevador do hotel no dia da final. Duas horas trancado no elevador e todo mundo muito preocupado, desesperado e quando ele sai do elevador está mais alegre do que se não tivesse ficado trancado. Não lembro quem estava trancado também, saíram do elevador numa boa, sem estar resmungando. Estavam muito focados, muito concentrados e querendo muito aquela conquista.
— Quase na chegada ao hotel, estraga o ar-condicionado do ônibus. E todo mundo começa a sentir calor, mas ninguém falou nada. Eu olho para trás, todo mundo sem camisa. O Micale fala: “Papito, vai lá e conversa com os caras”. Fui para o fundo do ônibus e falei: “Pessoal, tem a situação do ar-condicionado, vamos parar, pegar o outro ônibus ou o que a gente vai fazer? Os caras levantaram, pegaram a camisa da seleção brasileira e falaram: “Papito, aqui não tem ar-condicionado estragado, pode ir sem ar-condicionado, o negócio é ser campeão olímpico”. E começaram a gritar “Brasil, Brasil” no fundo do ônibus.
Odair Hellman Auxiliar Seleção Brasileira Olímpica
Lucas Figueiredo/Mowa Press
— Até fiz uma brincadeira, falei “pensei que jogador caro tivesse mais frescura, mas está tudo certo, gostei dessa simplicidade”. Quando voltei, o Micale estava sentado do lado, bati na perna dele e falei: “professor, sua família está no Rio de Janeiro?” (Ele respondeu) “Ainda não, mas deve vir”. Eu falei: “então pode trazer sua família que o senhor vai ser o primeiro campeão olímpico da história”.
Em alta no Athletico, atual terceiro colocado do Brasileirão, Odair Hellmann falou sobre os planos para o futuro da carreira. Emocionado, relembrou o grave acidente de ônibus em 2009, quando era jogador do Brasil de Pelotas.
— Eu tenho muitos sonhos e me alimento deles todos os dias. Eu trabalho todos os dias para evoluir, receber novas oportunidades, a sequência aqui no Athletico, a volta a uma seleção, então tudo isso está dentro do meu coração.
— Aprendi uma coisa muito importante. Eu pensava muito no futuro e vivia pouco o hoje. E depois do acidente… quando eu saí da minha casa, briguei com as minhas filhas porque os brinquedos estavam jogados no chão, e à noite elas foram me visitar no hospital. E quando eu olhei elas no hospital pensei: “a vida é tão rápida, em trinta segundos eu podia não estar mais aqui, tenho que me preocupar menos com os brinquedos no chão da sala e viver mais os brinquedos do chão da sala com minhas filhas”. Meus sonhos estão aqui comigo e vão continuar, porque isso me alimenta, mas o meu pezinho está bem no chão.
Odair Hellmann, técnico do Athletico, no jogo contra o Bragantino
Paulo De Tarso/AGIF
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