RÁDIO BPA

TV BPA

Quem é Khalid Sheikh Mohammed, o arquiteto do 11 de Setembro que será julgado 27 anos após o atentado

Quem é Khalid Sheikh Mohammed, o arquiteto do 11 de Setembro que será julgado 27 anos após o atentado

 Khalid Sheikh Mohammed é apontado como suposto mentor dos ataques de 11 de Setembro
AP
A Justiça dos Estados Unidos marcou para junho de 2028 o julgamento de Khalid Sheikh Mohammed, conhecido como KSM. Autoridades americanas o consideram o principal arquiteto dos atentados de 11 de Setembro de 2001.
KSM nasceu no Kuwait e se formou em engenharia mecânica nos Estados Unidos. Ligado à Al-Qaeda de Osama bin Laden, foi preso no Paquistão em 2003 e passou anos em prisões secretas da CIA antes de ser transferido para Guantánamo, onde permanece detido à espera de julgamento.
Além dele, serão julgados:
Walid Muhammad Salih Mubarak bin ‘Atash: saudita acusado de ter treinado dois dos sequestradores dos aviões para o combate corpo a corpo e para o uso de estiletes na tomada das aeronaves;
Ali Abdul Aziz Ali: conhecido também como Ammar al-Baluchi, é paquistanês e sobrinho de KSM. A acusação alega que ele esteve envolvido nas transferências de dinheiro para alguns dos sequestradores;
Mustafa Ahmed Adam al Hawsawi: saudita, é acusado de ter ajudado a financiar a operação. Segundo a acusação, ele também atuou no envio de dinheiro para alguns dos sequestradores.
Todos eles estão presos no presídio de Guantánamo, no sudoeste cubano. O julgamento deve acontecer depois de 27 anos, após um imbróglio judicial envolvendo acusações de tortura e pedidos de execução por parte dos réus – que desejavam se tornar mártires.
⛓️ A prisão de Guantánamo foi inaugurada em janeiro de 2002 pelo então presidente George W. Bush. A penitenciária foi uma reação ao atentado, e é destinada a receber prisioneiros chamados de “combatentes inimigos” – a quem são negados muitos dos direitos garantidos aos presos em solo americano. Os presidentes Barack Obama e Joe Biden tentaram fechar a instalação, mas enfrentaram a oposição do Congresso.
Nesta reportagem você vai ver:
KSM, quem é o arquiteto do 11 de Setembro
Aproximação de Osama Bin Laden
O plano do atentado e a prisão pela CIA
O maior trauma da história americana
Réus queriam ser executados
O impasse que adiou o julgamento por 20 anos
Plantão da Globo mostra as primeiras informações sobre o atentado de 11 de setembro
KSM, quem é o arquiteto do 11 de Setembro
Khalid Sheikh Mohammed nasceu em 14 de abril de 1965, no Kuwait, em uma família de origem balúchi. Seu pai era um líder religioso do Islã que havia migrado do Baluchistão, no atual Paquistão, para o Kuwait. KSM cresceu no país e, aos 16 anos, já havia aderido ao jihadismo.
🔎 O jihadismo é uma corrente extremista do Islã que defende o uso da violência armada em nome de uma interpretação radical do conceito islâmico de jihad, que pode ser traduzido como “guerra santa”. O termo é usado para descrever grupos que buscam criar sociedades ou Estados baseados em sua interpretação rígida da religião. Organizações como Al-Qaeda, o Estado Islâmico, o Talibã, o Hezzbollah e o Hamas são exemplos de grupos jihadistas.
Em 1983, aos 18 anos, foi para os Estados Unidos estudar. Primeiro frequentou a Chowan University, na Carolina do Norte, e depois se transferiu para a North Carolina A&T State University. Em 1986, aos 21 anos, formou-se em engenharia mecânica. A formação técnica seria posteriormente apontada como um dos elementos que ajudaram a moldar seu perfil como planejador de operações.
No ano seguinte, aos 22 anos, KSM foi ao Paquistão e se juntou aos jihadistas que combatiam as tropas soviéticas no Afeganistão.
Aproximação de Osama Bin Laden
Osama Bin Laden
AFP/Arquivo
A aproximação com a rede que mais tarde se tornaria a Al-Qaeda veio aos poucos. KSM participou de diferentes grupos e projetos radicais antes de se integrar à organização de Osama bin Laden.
Em 1993, aos 28 anos, vivia no Catar e trabalhava como engenheiro no Ministério de Eletricidade e Água do país. Nesse período, também manteve contatos com militantes envolvidos em conspirações contra os Estados Unidos.
👤 Osama bin Laden (1957–2011) foi um militante islamista saudita e fundador da Al-Qaeda, organização responsável por uma série de atentados terroristas, incluindo os ataques de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos. Filho de uma rica família saudita, participou da luta de combatentes árabes contra a ocupação soviética do Afeganistão nos anos 1980. Em 1988, ajudou a criar a Al-Qaeda e, nos anos seguintes, passou a defender ataques contra os Estados Unidos e seus aliados. Foi morto por forças especiais americanas em 2 de maio de 2011, durante uma operação em Abbottabad, no Paquistão.
A ideia dos ataques com aviões surgiu a partir de um plano anterior, conhecido como Bojinka, desenvolvido por seu sobrinho Ramzi Yousef. Em 1995, aos 30 anos, KSM passou a trabalhar em uma versão mais ambiciosa do projeto.
Em 1996, apresentou a Bin Laden a proposta de sequestrar vários aviões comerciais nos Estados Unidos e lançá-los contra edifícios importantes. Bin Laden considerou o plano complexo demais e inicialmente não o aprovou.
A situação mudou no fim de 1998 ou no início de 1999, quando KSM tinha cerca de 33 anos. Ele voltou a apresentar a ideia a Bin Laden, desta vez em uma versão reduzida. O plano previa o sequestro de aviões e o uso das próprias aeronaves como armas contra alvos nos Estados Unidos. Bin Laden acabou autorizando KSM a desenvolver a operação e forneceu os recursos financeiros necessários.
LEIA TAMBÉM
Hamas, Fatah, Jihad Islâmica e Hezbollah: veja quais são alguns dos grupos que atuam no Oriente Médio
Polícia dos EUA prende homem com guilhotina em caminhonete em Washington
Plano do atentado e prisão pela CIA
Ao longo de 1999, aos 34 anos, KSM, Bin Laden e o comandante militar da Al-Qaeda, Mohammed Atef, definiram os principais elementos da operação.
Entre os alvos estavam o World Trade Center, o Pentágono, o Capitólio e a Casa Branca. Bin Laden participou da escolha dos integrantes, incluindo Mohammed Atta como líder dos sequestradores. KSM ficou encarregado de aspectos operacionais do plano.
Quando os ataques aconteceram, em 11 de setembro de 2001, KSM tinha 36 anos. Ele foi preso no Paquistão em 1º de março de 2003, aos 37 anos, em uma operação conjunta da CIA e dos serviços de inteligência paquistaneses.
Após passar anos em prisões secretas da CIA, foi transferido para Guantánamo em setembro de 2006. Hoje, aos 61 anos, continua detido e aguarda julgamento.
O maior trauma da história americana
Restos da estrutura do World Trade Center são vistos em meio aos destroços após as duas torres virem abaixo no 11 de Setembro
Alexandre Fuchs/AFP
Na data fatídica que viria a marcar a história, quatro aviões comerciais foram sequestrados nos Estados Unidos. Dois atingiram as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e provocaram o desabamento dos edifícios. Um terceiro avião atingiu o Pentágono, sede do Departamento de Defesa.
O quarto caiu em um campo no oeste da Pensilvânia depois que passageiros reagiram aos sequestradores. A aeronave provavelmente tinha o Capitólio como destino.
Os ataques mataram 2.976 pessoas.
Réus queriam ser executados
Mais de duas décadas depois, o caso continua sem julgamento. Os quatro homens acusados de envolvimento nos atentados permanecem presos em Guantánamo.
O quarteto de organizadores do atentado foi formalmente acusado em 2007 e apresentado à Justiça em junho de 2008. A intenção do governo de George W. Bush era concluir o processo antes do fim de seu mandato.
Em dezembro de 2008, porém, KSM e os demais réus se ofereceram para se declarar culpados em troca de execução imediata. Eles desejavam morrer em nome da sua causa política e religiosa – tornando-se, assim, mártires.
A proposta não poderia ser aceita porque a Lei das Comissões Militares não permite a aplicação da pena de morte sem julgamento.
Anos depois, o governo de Barack Obama abandonou o plano de levar o caso para um tribunal federal em Nova York. Em 4 de abril de 2012, as acusações foram apresentadas novamente perante as comissões militares de Guantánamo.
Nos documentos oficiais, o processo passou a ser identificado como KSM II, em referência à segunda tentativa de levar a julgamento os acusados dos ataques que mudaram a história dos Estados Unidos. O processo travou e não avançou desde então.
As audiências foram retomadas em 7 de setembro de 2021, após uma interrupção de 17 meses provocada pela pandemia de Covid-19. Na ocasião, um novo juiz assumiu o processo. Era o quarto oficial a ocupar a função.
O impasse que adiou o julgamento por 20 anos
Um guarda naval dos EUA patrulha a área de recreação do Campo Delta, em Guantánamo, durante orações matinais dos presos em 7 de julho de 2010
Reuters/U.S. Air Force Tech. Sgt. Michael R. Holzworth/US Army/Handout via Reuters
O longo atraso no julgamento tem origem em uma disputa central.
O governo americano busca condenar e executar os acusados. A defesa, porém, sustenta que os réus foram vítimas de tortura da CIA e alega que isso afeta diretamente as provas que podem ser usadas no julgamento.
O principal impasse do processo é o tratamento dado às informações sobre as torturas sofridas pelos réus em prisões secretas da CIA no exterior.
A defesa quer acesso a todos os registros sobre os maus-tratos, incluindo detalhes das torturas. Os advogados dizem que essas informações são necessárias para garantir uma defesa adequada, especialmente porque os acusados podem receber pena de morte.
A acusação afirma que os documentos completos do programa de Rendição, Detenção e Interrogatório (RDI) da CIA são sigilosos demais para serem compartilhados, mesmo com advogados autorizados a acessar informações ultrassecretas.
Por isso, os promotores entregaram cerca de 21 mil páginas de resumos e documentos substitutos. Datas, locais e identidades de agentes e prestadores de serviço foram ocultados.
A CIA controla quais informações sobre suas operações podem ser entregues à defesa. Sua prioridade é proteger os segredos do programa, enquanto os promotores afirmam que o julgamento deve se concentrar apenas no papel dos réus nos ataques de 11 de Setembro.
“A CIA não está sendo julgada”, disse o promotor Jeffrey Groharing, em entrevista à Reuters em 2021 – em ocasião dos 20 anos do atentado.
Desde setembro de 2019, a defesa também tenta impedir o uso de declarações dadas pelos réus ao FBI em 2007, cinco meses após eles deixarem as prisões secretas. Os agentes foram chamados pelo governo de “equipes limpas” porque não participaram das torturas.
A acusação considera os depoimentos válidos porque os agentes do FBI usaram métodos legais e não recorreram à coerção.
A defesa argumenta que as declarações foram contaminadas pelas torturas anteriores e, portanto, não deveriam ser usadas como provas. Para sustentar essa tese, os advogados chamaram como testemunhas James Mitchell e Bruce Jessen, apontados como responsáveis por desenvolver o programa de tortura da CIA. Eles depuseram em janeiro de 2020.
No argumento da defesa, não existe um “depois da tortura”: os efeitos dos abusos continuam influenciando os acusados. Por isso, os advogados classificam os depoimentos do FBI como “frutos da árvore envenenada”, expressão jurídica usada para provas derivadas de uma fonte ilegal.
Segundo reportagem publicada na sexta (28) pelo jornal The New York Times, um juiz militar decidiu que as confissões de KSM ao FBI não foram dadas de forma voluntária e não poderão ser usadas no julgamento. A decisão representa uma derrota para a acusação.
Terry Strada, líder do grupo 9/11 Families United (Famílias Unidas) e viúva de uma das vítimas dos ataques, há anos defende que os acusados sejam julgados, apesar dos obstáculos jurídicos que ainda permanecem.
Em 2024, depois que o acordo judicial foi retirado da mesa, Strada disse à Associated Press que estava disposta a esperar anos para que “a punição fosse compatível com o crime. E isso seria a pena de morte”.g1 > Mundo Read More