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A mãe que viralizou ao correr descalça (e vencer) uma corrida para poder comprar o material escolar da filha

A mãe que viralizou ao correr descalça (e vencer) uma corrida para poder comprar o material escolar da filha

 Ramabai Ranveer venceu a corrida aos 47 anos
KIRAN SAKLE/BBC
Apesar de sua falta de experiência, e até mesmo de tênis para correr, Ramabai Ranveer venceu sua primeira corrida em agosto, correndo descalça até a linha de chegada.
A participação dessa mãe viúva de 47 anos em uma corrida de 3 quilômetros na Índia foi motivada pelos custos do ensino superior de sua filha.
Ela disse estar “muito feliz” por poder destinar seu prêmio de R$ 160 à compra de livros e material escolar.
Na Índia, os esforços extraordinários de Ramabai para conseguir uma quantia tão pequena, em comparação com o custo de uma graduação universitária, causaram grande repercussão.
Protestos relacionados à educação abalaram o país durante grande parte do ano, enquanto um movimento juvenil satírico dá vazão às frustrações de uma geração desiludida.
Segundo um relatório do governo do mês passado, apenas 8% dos graduados universitários conseguem empregos em que podem usar os conhecimentos adquiridos em seus cursos.
E, com 29,1%, a taxa de desemprego entre os graduados é nove vezes maior do que a daqueles que nunca frequentaram a universidade.
Enquanto a indignação estudantil se insere em uma onda de reivindicações econômicas mais amplas, a notícia da façanha de Ramabai cativa as redes sociais e os principais jornais do país.
Para alguns, sua conquista personifica o sacrifício de uma mãe e até onde os pais estão dispostos a ir para tirar seus filhos da pobreza.
Para outros, ela resume a deterioração que permeia o sistema educacional da Índia e a inutilidade de acreditar que ele pode servir como um meio de mobilidade social.
“É um momento de glória ou de vergonha para nós como sociedade?”, publicou a usuária de redes sociais Shoma Sarkar abaixo de um vídeo da corrida.
A façanha de Ramabai descalça cativou as redes sociais
KIRAN SAKLE/BBC
Prêmio em dinheiro
Ramabai soube da competição por meio de sua filha mais velha, Pooja, de 22 anos.
“Minha filha veio me ver cedo pela manhã e disse: ‘Mãe, quero participar de uma corrida'”, contou ela à BBC de sua casa em Maharashtra.
“Perguntei onde seria, e ela disse que era perto. Ela me disse que, se ganhasse o prêmio, isso ajudaria nos estudos dela.”
“Minha filha mais nova vive em outra cidade. Eu não conseguia dar dinheiro a ela para comprar livros, e por isso ela não me telefonou durante oito dias. Então decidi que tinha de correr e vencer a corrida. Meu único desejo era ganhar esse prêmio”.
Ramabai estava tão determinada que, mesmo quando seus tênis começaram a escorregar durante a corrida, ela simplesmente os tirou, ajeitou o sari e continuou correndo.
Sem nenhuma limitação, ela conseguiu ultrapassar as demais competidoras de sua faixa etária, de 30 a 60 anos, e conquistar a vitória.
Sua filha Pooja também levou para casa um prêmio de R$ 102 após ficar em segundo lugar em sua categoria de idade e descreveu a mãe como “corajosa”.
Tendo abandonado a escola aos 13 anos, Ramabai estava determinada a que suas filhas fossem mais longe
KIRAN SAKLE/BBC
Ramabai assumiu a responsabilidade pelo lar em 2012, após a morte de seu marido.
“Fiz qualquer trabalho que consegui encontrar. Colhia soja e grão-de-bico nos campos de outras pessoas. Também colhia cúrcuma, cozinhava e vendia”, declarou ela à BBC.
E, tendo abandonado a escola aos 13 anos, Ramabai estava determinada a que suas filhas fossem mais longe.
“Acho que, enquanto eu estiver viva, devo fazer tudo o que puder para dar às minhas filhas uma boa educação.”
Tanto Pooja quanto sua irmã, Arati, estão tentando passar nos exames de ingresso para empregos no Estado.
Pooja está se preparando para o recrutamento policial na academia onde sua mãe trabalha como cozinheira. Arati, estudante de Ciência da Computação na universidade, está se preparando para os prestigiados exames do serviço público.
No país mais populoso do mundo, os empregos no Estado oferecem uma das poucas vias de acesso à classe média, além de segurança vitalícia, com pensão e subsídios para moradia.
Milhões de estudantes investem anos e muito dinheiro na preparação para esses exames de grande importância.
Mas irregularidades colocaram em dúvida a integridade dessas provas, que determinam o futuro dos candidatos.
Em maio, o principal exame de ingresso para a faculdade de medicina da Índia, o Exame Nacional de Elegibilidade e Admissão (para estudos de graduação), foi cancelado após um vazamento, obrigando quase dois milhões de estudantes a refazerem a exaustiva prova.
Pooja está se preparando para o recrutamento policial na academia onde Ramabai trabalha como cozinheira.
KIRAN SAKLE/BBC
Reivindicação política
Uma explosão de indignação sem precedentes transformou o satírico Partido Popular da Barata (CJP) em um movimento juvenil, e os protestos multitudinários liderados pela Geração Z culminaram na renúncia do ministro da Educação em julho passado.
A campanha agora se ampliou com a exigência de modernizar as escolas públicas, começando por enfrentar a infraestrutura em ruínas e as persistentes desigualdades nas áreas rurais.
“As crianças das áreas rurais da Índia deveriam receber, no mínimo, uma educação digna”, disse Abhijeet Dipke, fundador do CJP, à BBC durante uma visita recente a uma escola perto do distrito de Ramabai.
A escola não tinha banheiros para as alunas, e pacotes de comida vencidos eram usados para preparar o almoço.
A façanha de Ramabai chamou a atenção das autoridades.
No início deste mês, o presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, ordenou que o distrito lhe concedesse uma ajuda financeira de R$ 2,5 mil.
Mas Sukhadeo Thorat, que presidiu a Comissão de Subsídios Universitários, afirma que Ramabai e suas filhas evidenciam problemas sistêmicos mais profundos:
“Se uma mulher é obrigada a fazer todo o possível pela educação de suas filhas, isso demonstra que os programas educacionais do governo não estão sendo implementados adequadamente.”
“Tanto o governo central quanto os governos estaduais administram diversos programas educacionais, mas sua implementação não é adequada”, acrescentou.
Enquanto isso, Ramabai deseja apenas que suas filhas “vivam uma vida feliz”.
“Não quero que elas passem pelas dificuldades que enfrentei. Não quero que tenham de lutar contra a lama nem viajar sob o sol escaldante e a chuva. Seja o que for que eu tenha sofrido, não quero que minhas filhas sofram o mesmo”, declarou ela à BBC.
*Com reportagem adicional de Laignee Barron.g1 > Mundo Read More