Do abraço às críticas no Vitória: Jair Ventura repassa marcas, lembra “all-in” e pede voto de confiança
Jair Ventura confirma permanência no Vitória: “Se a gente sair, não vai ser decisão nossa”
Jair Ventura completa, nesta quinta-feira, um ano no Vitória. Ao mesmo tempo em que vê a marca, alcançada apenas pela segunda vez em dez anos de carreira, com orgulho, o treinador precisa lidar com a desconfiança da torcida pelo momento do time. Em uma passagem com destaque em campanhas de permanência e título, o treinador encara seu momento de maior pressão, retratado nas vaias recebidas de torcedores na derrota por 3 a 1 para o Cruzeiro, no último jogo.
Torcedores do Vitória invadem gramado e abraçam técnico Jair Ventura
“Quando as coisas não acontecem, as vaias são normais. O que eu posso dizer é que foi um acerto eu ter aceitado. Tenho orgulho do que a gente conquistou até agora. Que a gente possa terminar esse ano cumprindo mais um objetivo”, projeta Jair Ventura em entrevista exclusiva ao ge.
No dia 24 de setembro do ano passado, Jair Ventura foi anunciado com o desafio de salvar o Vitória do rebaixamento na Série A e fazer valer o rótulo de bombeiro que recebeu ao longo da carreira. Com ele, o time teve aproveitamento de 55% suficiente para a sobrevivência, conquistada na última rodada graças a uma combinação de resultados. Os 23 pontos somados fizeram o Rubro-Negro ter o sexto melhor rendimento na competição desde a chegada do técnico.
– A primeira coisa que vem é que acertei em ter aceitado o desafio. A gente sabe a marca negativa que é um rebaixamento na carreira de todos os profissionais, ainda mais em uma instituição grande como o Vitória. O momento era delicado ano passado. E quando a gente recebe um convite desse, no meu caso foi a quinta vez [para salvar um time do rebaixamento], avalia tudo, o risco, se vale a pena… Eu acreditei no projeto ano passado, pela grandeza do Vitória, pelos jogadores, pela força do Barradão. Fico feliz que isso tenha dado certo ainda em 2025.
A euforia com a permanência no Vitória foi tão grande que torcedores invadiram o gramado do Barradão na última partida do time para celebrar e agradecer ao treinador, que ganhou um abraço (assista acima). Em alta, Jair Ventura renovou o contrato com o clube e ganhou a possibilidade de emplacar o desejado trabalho longo.
A primeira oportunidade de título em Salvador terminou com o vice-campeonato estadual diante do Bahia. Por outro lado, o Vitória fez valer a responsabilidade de ser o único time da Série A na Copa do Nordeste e voltou a vencer a competição depois de 16 anos. Foi a segunda taça da carreira do treinador, que também levantou o Campeonato Goiano de 2024 com o Atlético-GO.
Na Copa do Brasil, o Vitória conquistou viradas épicas no Barradão contra Flamengo e Athletico e fez a melhor campanha desde 2012, mas acabou superado pelo Vasco com placar agregado de 3 a 0 nas quartas de final.
Jair Ventura viu ruir de vez o prestígio com parte dos rubro-negros com a queda de rendimento do time no segundo semestre. Nos últimos sete jogos, o Vitória tem um triunfo, um empate e cinco derrotas (aproveitamento de 14,3%). Entre as frustrações estão a derrota no clássico para o Bahia, pelo Campeonato Brasileiro, e a eliminação para o Vasco, na Copa do Brasil, ambas no Barradão.
– Falamos em fazer um ano mais tranquilo e geramos uma expectativa grande pela nossa campanha no primeiro turno e pelo título da Copa do Nordeste. Como todas as equipes no campeonato, a gente oscilou. Mesmo assim, não entramos na zona de rebaixamento – ponderou o treinador.
– A gente sabe que o segundo turno é historicamente sempre mais difícil. Se você pegar o Vasco que nós vencemos e comparar com o Vasco que a gente perdeu na Copa do Brasil, é outro time. Chegaram Colídio, Bruno Duarte, Lezcano, Sosa. Praticamente 50% do time mudou. Se você pegar o Santos que estava na nossa briga, assim como o Vasco, você tem Rodinei, Cebolinha, Lima, Arthur, é outra equipe também. “Ah, mas por que vocês não fizeram isso também?” Então, por conta dos valores, a gente não tem 30 milhões para gastar de folha, a gente não tem o valor que o [Sérgio] Papellin queria, o Fábio [Mota, presidente], eu, todo departamento de futebol, nós queríamos para reforçar. A nossa realidade financeira é outra. Só que a paixão e a cobrança é a mesma, e a gente tem que ir – completou.
Na Série A, o Vitória fez do Barradão uma fortaleza, com nove triunfos em 14 jogos, e é um dos melhores mandantes do campeonato. Contudo, a queda de rendimento fez a equipe amargar três derrotas em casa nos últimos quatro jogos e conviver com o fardo de não ter vencido fora de casa até aqui. O saldo da campanha é a 13ª colocação, com 33 pontos, quatro a mais que o Grêmio, primeiro time da zona de rebaixamento. O treinador citou os desfalques por lesões como um dos grandes problemas enfrentados.
– A gente tem os mesmos jogadores que nós tínhamos? Esquece a janela… A gente tem os mesmos jogadores que nós tínhamos antes? A gente está sofrendo com perdas como foi do Nathan, como foi agora do Fabiano, como foi do Baralhas que não vem jogando…O Caíque já ficou fora de diversas partidas, o Martinez ficou fora. Então, quando você tem pilares e você perde esses pilares, não consegue repor à altura. Você vai ficando com menos oportunidades de mudança, com menos oportunidades de quando mudar para manter aquele grupo homogêneo. Eu sempre fui muito defensor do meu grupo, mas quando você perde o seu grupo, você deixa de ter as mesmas forças, porque você foi perdendo peças – opinou.
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– Uma série de jogadores que a gente foi perdendo no primeiro semestre. E a gente tem que ir se readaptando. E quando você vai se readaptando, cada vez você vai ficando com menos força. Porque você perdeu peças importantes. Então não é desculpa, é uma constatação. Se eu tivesse todas essas peças e eu tivesse caído em rendimento, que também pode acontecer, aí esse argumento não serviria, mas são coisas que você tem que constatar – defendeu.
Trabalho prestigiado?
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O momento ruim fez até o presidente do Vitória, Fábio Mota, e o diretor de futebol, Sérgio Papellin, concederam entrevista coletiva para defender o trabalho do treinador. Algo que Jair Ventura garante que trata com naturalidade.
“Terceira vez neste ano [que busca reverter situação adversa]. Quando a gente perde o Baiano e empata com a Chape pediram nossa cabeça. Antes do jogo do Grêmio [depois da entrevista coletiva de Fábio Mota e Papellin], a gente não é bobo, a gente sabe que era um all-in [expressão em inglês que significa “apostar tudo”]. Era ganhar ou “você está fora”. A gente conseguiu reverter, já foram duas vezes e agora é a terceira”.
– Quanto mais tempo você está em um trabalho, mais tem oscilações. Mas são poucos dirigentes que têm a capacidade de segurar os treinadores, e Fábio [Mota] é um desses. Sobre pedir trocas, me xingar, é muito normal. Tenho dez anos de carreira, já vivi muito mais isso que elogios. Só que a gente tem que ter a tranquilidade de saber que está fazendo um bom trabalho e que as coisas vão virar, como já viraram antes”
Apesar do momento turbulento no Vitória, Jair Ventura mantém o prestígio no mercado, que já recebeu consultas do Vasco e Internacional durante o período no Vitória. O treinador garantiu que pretende cumprir o seu contrato válido até o fim de 2026.
Marca rara
Jair Ventura depois de conquistar a Copa do Nordeste
Yuri Couto/EC Vitória
O trabalho no Vitória está em posição de destaque na carreira do treinador, iniciada em 2016 no Botafogo e com passagens por Corinthians, Santos, Sport, Chapecoense, Juventude, Goiás, Atlético-GO e Avaí.
Com 50,4% de aproveitamento, Jair Ventura tem 64 partidas à frente do Vitória, número inferior somente aos 99 jogos em que comandou o Botafogo. Não por acaso, são os únicos dois clubes em que o treinador completou um ano de trabalho na carreira.
– Se você pegar a longevidade dos treinadores, a média é de três meses. Então a gente bate 12 meses. São 60 e tantos jogos, mais de 50% de aproveitamento, título, permanência, enfim. É muito positivo. Eu não sei como vai terminar, mas espero que possa terminar assim como começou, com feitos sendo alcançados, com objetivos alcançados e levando o Vitória cada vez mais alto dentro da competição – celebra o treinador.
Ao menos Jair Ventura vai ter tempo para celebrar e preparar o time. Com a pausa da Data Fifa, o treinador tem duas semanas para ajustar a equipe para o confronto com a lanterna Chapecoense, no dia sete de outubro, no Barradão, palco das suas maiores alegrias no Vitória, mas também das últimas lamentações.
– O recado que eu tenho que deixar aqui, por mais que nossa torcida esteja chateada com treinador, diretoria ou jogadores, o Vitória precisa da torcida, não pode deixar de apoiar. É apoiar o time do coração, não é só os jogadores ou o treinador. E nossa recuperação ano passado passou pelo Barradão. Não podemos perder isso, estamos na reta final, em contagem regressiva – conclui o treinador.
Jair Ventura em treino do Vitória
Victor Ferreira / EC Vitória
*Sob supervisão de Ruan Melo geRead More


