OPINIÃO: renovação na Seleção de Carlo Ancelotti precisa começar e terminar pelo meio-campo
O esboço de Ancelotti para o time titular da seleção brasileira no último treino
O Brasil joga nesta sexta-feira, às 7h (de Brasília), contra a Austrália, em Townsville, no início do ciclo de renovação após a a eliminação para a Noruega nas oitavas da Copa do Mundo de 2026.
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Carlo Ancelotti já deixou claro que a meta é construir um time sólido e jovem e fez uma convocação com nove nomes que disputaram a Copa do Mundo, nove estreantes e outros oito que chegaram a disputar uma vaga no Mundial e bateram na trave. Por onde a renovação começa? Qual é a prioridade após uma das maiores tragédias da história da Seleção?
As respostas já foram dadas por Ancelotti, e começam e terminam no setor que você deverá prestar mais atenção neste ciclo: o meio-campo.
Se surgirem jogadores novos, um meio-campista de muita qualidade, obviamente você pode jogar mais jogo de posse. Temos que observar a progressão dos novos meio-campistas. Acho que estamos muito bem cobertos na frente para o futuro, muito bem cobertos atrás. Temos que encontrar meio-campistas de nível.
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Para entender porque Ancelotti apontou essa falta de forma tão direta, é preciso voltar ao tempo. Tirando esse ano, você lembra como o Brasil perdeu as três últimas Copas do Mundo? Ao olhar os times europeus, você consegue citar um grande camisa oito, capaz de comandar o jogo como Fabian Ruiz ou Rabiot fizeram (e encantaram) nesta Copa do Mundo?
A análise pode ser dividida em três frentes:
DENTRO DE CAMPO: a Seleção perdeu para adversários que se fecharam e exploraram a falta de um bom camisa oito
FORA DE CAMPO: uma formação exportadora não produz mais como antes
CARLO ANCELOTTI: o que o treinador pode fazer diante do problema.
Ancelotti diz que prioridade da Seleção no próximo ciclo é encontrar meio-campistas
Vamos aos detalhes:
EM CAMPO: Brasil sentiu falta de um camisa oito em 2014, 2018 e 2022
A Seleção Brasileira sempre teve grandes nomes como camisa 8. Didi recebia à frente de Zito e organizava o Brasil. Gérson cumpriu um papel semelhante em 1970, e em 1982, era Falcão que pensava o jogo a partir do meio em 1982. Em 1994, foi Dunga o maestro pouco reconhecido que ditava o ritmo e escondia a bola no calor dos EUA.
Algo começou a mudar na década de 1990. A geração de atacantes era tão boa que conseguia resolver a falta de saída lá de trás. Na campanha de 2006, por exemplo, a insistência com o quarteto mágico no lugar de Zé Roberto e Juninho Pernambucano juntos com Gilberto Silva pagou seu preço. Em 2010, Elano se lesionou justo contra a Holanda.
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COPA DO MUNDO DE 2014: sem Neymar, Luiz Felipe Scolari optou por atacar a Alemanha. O jogo começou com a Seleção em cima, chutando a todo momento, mas com problemas para fazer o jogo rodar da defesa ao ataque.
A estratégia alemã foi simples: Khedira e Klose bloqueavam o passe dos zagueiros e Muller e Schweinsteinger fechada o meio. Com tudo travado, David Luiz só tinha como lançar para frente. Veja na imagem:
Copa de 2014: ainda no 0 a 0, Alemanha trava a saída de bola do Brasil
Reprodução
Com o Brasil já perdendo por 2 a 0, Fernandinho voltou a ser bloqueado por dentro. Paulinho alongou a bola. A dificuldade se repetia: o time tentava sair curto, encontrava o meio fechado e terminava procurando o ataque pelo alto. O Brasil não mudou a estratégia e levou mais cinco gols sempre tentando atacar, mas sem ter quem pensar de trás.
Copa de 2014: mesmo perdendo por 2 a 0, Brasil insiste em sair jogando contra a Alemanha
Reprodução
ENTRE 2016 E 2018, o Brasil encantou nas Eliminatórias com Tite, Gabriel Jesus e um maestro chamado Renato Augusto. Ele foi o mais próximo que tivemos de um meio-campista completo: marcava, atacava e organizava todo o ataque para Neymar e Coutinho botarem correria lá.
NA COPA DO MUNDO DE 2018, Tite precisa mudar e recorre a um jogo mais posicional. Contra a Bélgica, a falta de um pensador fez falta. Na imagem, Neymar se aproximou para receber, mas Fellaini fecha a linha de passe. Coutinho e Paulinho não ocuparam o espaço nas costas da marcação.
Copa de 2018: Neymar precisa buscar a bola sem Renato Augusto, o verdadeiro maestro
Reprodução
A Bélgica abre o placar num escanteio mal marcado e depois leva um contra-ataque após atacar e perder uma bola fácil, fácil, que Lukaku conduz para De Bruyne. O que todo time faz perdendo de 2 a 0? Ataca ainda mais!
E a falta de um pensador cobra seu preço: o Brasil insiste em sair curto, mas vê Coutinho e Paulinho marcados por Fellaini e Chadli. Jesus se coloca de costas no pivô e é anulado. Sem opção por dentro, Thiago Silva conduz e não vê Fernandinho pedindo a bola na diagonal livre. Mais uma bola perdida…
Copa de 2018: perdendo de 2 a 0, Brasil insiste em sair e ninguém liga o meio-campo com o ataque
Reprodução
COPA DO MUNDO DE 2022: a Croácia faz o mesmo que Alemanha e Bélgica e monta um paredão à frente de Neymar. Quem pensava o jogo aqui é Paquetá, que nunca foi bem o pensador que se esperava e tinha que se afastar muito longe do gol, já que Casemiro não conseguia dar o passe de qualidade. Só Danilo, convocado por Ancelotti justamente por sair com mais qualidade, tenta algo.
Copa de 2018: Croácia trava o jogo do Brasil como Bélgica e Alemanha fizeram
Reprodução
Continua 0 a 0 e a imagem é ainda mais chocante: quatro jogadores da Croácia têm como única missão travar o meio do Brasil. É nesse cenário que o camisa oito acha um passe, produz uma solução. Cite um jogador capaz de fazer isso em alto nível nos últimos 16 anos no Brasil?
Copa de 2018: meio da Croácia trava todo o Brasil
Reprodução
Imagens, isoladas, não dizem muito. Conectadas por 10 anos, 3 Copas e 5 treinadores, elas mostram um problema maior e crônico do futebol brasileiro como um todo: o jogo mudou e não conseguimos formar controladores e pensadores no meio-campo, capazes de dar ritmo à posse de bola.
FORA DE CAMPO: Brasil não forma mais meiocampistas por uma série de fatores
Quando o Brasil começou a perder esses jogadores? Não há uma partida ou uma geração que marque a ruptura. Existem algumas teorias que fazem sentido quando são pensadas em conjunto. Afinal, esse é um problema complexo. Não existem respostas simples.
Teoria #1: o Brasil foi vítima do seu próprio sucesso: o sucesso dos atacantes e meias mais explosivos, sobretudo a partir dos anos 1990, passou a influenciar o tipo de talento valorizado aqui. É só chacoalhar qualquer time de sucesso dos anos 1990 e sempre aparece uma grande dupla de atacantes e um grande camisa 10, mas nunca um grande camisa oito a nível mundial.
Com isso, os clubes passaram a valorizar menos um Falcão, um Zenon ou um Ademir da Guia, que choviam nos campos de várzea na década de 1970. O avanço da preparação física fez o jogo ficar mais rápido e o camisa oito, tradicionalmente mais lento, sofria. Basta ver como Parreira encaixou Zinho em 1994: como falso-ponta.
Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno e Rivaldo comemoram em jogo do Brasil na Copa do Mundo de 2002
Andreas Rentz/Bongarts/Getty Images
Teoria #2: o jogo lá fora mudou. Em 1995, a decisão conhecida como Lei Bosman facilitou a circulação de jogadores entre clubes da União Europeia. Com isso, os clubes mais ricos passaram a comprar na baixa e vender na alta, ficando cada vez mais ricos. É nesse contexto que Ronaldinho Gaúcho vai pra Holanda e depois pro Barcelona; que Kaká vai do São Paulo para o Milan e Alexandre Pato se firma como promessa do Inter também para o Milan.
E os camisas oito? Quem realmente saiu do Brasil para ser “world class” lá fora? Jorginho, do Flamengo, não vale, pois se formou lá fora. Quem parecia realmente virar foi Hernanes, eleito o melhor volante do Brasileiro de 2008 e contratado pela Lazio em 2010, mas sem jamais se configurar como um Top 10 no mundo. E Arthur, exaltado como ritmista que nunca conseguiu ser titular no Barcelona? E João Gomes? E Andrey Santos?
Você leu tudo isso para que a conclusão tenha base: o Brasil não forma mais meio-campistas como formou.
Não forma mais porque passou a jogar num estilo só de ataque, porque a CBF e as entidades do futebol não tiveram esse cuidado e porque o mercado passou a valorizar mais os atacantes jovens como Estêvão, Vinícius Júnior e Rayan, vendido ao Bornemouth para depois chegar a um Arsenal ou Bayern de Munique.
Sim, é isso mesmo: os clubes brasileiros são exportadores de pontas e zagueiros. Que culpa eles têm? Um clube precisa de dinheiro para competir e não brigar contra o rebaixamento como Grêmio e Inter, que tiveram suas receitas reduzidas por conta das enchentes e agora sofrem as consequências no Z-4 do Brasileirão. Para o bem ou para o mal, futebol é um jogo de dinheiro.
AQUI E AGORA: Ancelotti errou fazendo o que podia, o problema é maior
O que você leu parece uma salada, então é hora de conectar os pontos:
As imagens das Copas mostram o que acontece quando o adversário fecha o meio.
A história da formação ajuda a entender por que o Brasil chega a esses jogos com tantas opções para atacar e tão poucas para conduzir a partida.
O mercado explica por que esse desequilíbrio continua: os clubes precisam vender, e os atacantes jovens encontram compradores cedo.
Ancelotti não vai formar um novo Falcão nos treinos da Seleção. Também não vai fazer o Palmeiras ou o Flamengo deixar de vender seus pontas habilidosos. O italiano sabe muito bem onde se meteu, e os 36% de posse contra a Noruega foram intencionais sem Paquetá e Neymar do jeito que estava.
Tudo começa com coragem: de testar novos nomes, ir contra a opinião pública e montar um time com calma. Ancelotti precisa errar, e muito, para descobrir quem consegue ser a dupla perfeita para Bruno Guimarães. Precisa olhar para os jovens antes que uma Copa os obrigue a resolver tudo de uma vez. Breno Bidon, Andrey Santos, Gabriel Bontempo e outros precisam ser observados pela função que podem cumprir, com tempo para jogar e errar.
E essa busca deve chegar aos clubes. Como o próprio treinador disse, “é o clube que forma o talento”. A CBF pode acompanhar esse trabalho de perto e dar atenção ao meio-campista que aprende a pensar o jogo, mesmo quando ainda não vale uma venda milionária.
Estevão e Carlo Ancelotti
Rafael Ribeiro / CBF
O Brasil continuará vendendo pontas e zagueiros. Não adianta reclamar, é como nossos clubes ficam ricos. Culpa deles ou do sistema?
O que precisa ser realmente feito é terminar a renovação. Ancelotti já começou a mudança. Agora, precisa fazer o que ninguém fez ainda: terminar ela.
Porque renovação por renovação, já foi iniciada por muito treinador. Do fracassado Dinizismo a Dorival Júnior, dos anos dados a Tite até Dunga de 2015, todo mundo inicia uma renovação. Mas o término dela precisa vir. Com um camisa oito que faça lembrar os grandes nomes que a seleção já teve.
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