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Ajuda de vizinho e torneio em shopping: Fabi revisita origens no vôlei até chegar ao Hall da Fama

Ajuda de vizinho e torneio em shopping: Fabi revisita origens no vôlei até chegar ao Hall da Fama

Bicampeã olímpica Fabi relembra primeiros passos no vôlei
De um condomínio em Irajá, bairro cortado pela Avenida Brasil, no Rio, saiu a maior líbero que o mundo viu. Do conjunto de mais de 30 prédios de quatro andares, em que a parte com apartamentos com três quartos é chamada de “zona sul” e os que têm dois de “zona norte”, Fabiana Alvim de Oliveira jogou vôlei pela primeira vez na vida. Sob a vista da mãe, Vera, a menina de 12 anos se aventurou na quadra de cimento, cercada por grades, que era o ponto de encontro da turma do esporte. Era a única garota em meio a um grupo de jovens, mais velhos, que costumava praticar o esporte ali. Ao lado, jogava futebol.
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Fabi conta como defesa com o pé em Londres 2012 a reconectou com o pai
– Meu pai trabalhava o dia inteiro, era taxista. Minha mãe era manicure, trabalhava em casa. Eu gostava muito da rua, gostava muito de estar aqui nessa quadra – relembra Fabi, bicampeã olímpica e nova integrante do Hall da Fama do vôlei, agraciada em cerimônia neste sábado em Holyoke, nos Estados Unidos. – De fato, era só a minha mãe esticar o pescoço do apartamento e ver que eu estava na quadra. Esse lugar (Irajá) é muito familiar para mim. Gostava muito de bola, e o vôlei, depois das Olimpíadas de 1992, foi um boom. Não tinha menina aqui, eu ficava sentada na arquibancada. Uma hora ia chegar minha vez de jogar – completa a ex-moradora do apartamento 301 do bloco 30.
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Marcelo Negão e Fabi na quadra em Irajá onde a líbero começou a jogar
Fabio Grijó
De início, ficava apenas assistindo e anotando o placar na quadra de Irajá. Até o dia em que Marcelo da Silva, seu ex-vizinho que ainda mora no condomínio, hoje um engenheiro civil de 59 anos, deu a primeira chance.
– Ela, com 11, 12 anos, ninguém queria jogar com ela. Eu disse: a Fabi vai jogar comigo. Deixava o restante para tirar o sorteio entre eles, e ela jogava comigo. A gente jogava dupla aqui – conta Marcelo Negão, assim por causa dos 12 Marcelos que havia no grupo do vôlei – Quando eu via a Fabi jogando na TV, fazendo cobertura, defendendo bola com os pés, eu falava: Isso aí é Irajá – diz ele, que jogava no Tijuca na época.
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Fabi relembra parceria com Isabel, que a tornou titular no Vasco
Da brincadeira na quadra do Parque Novo de Irajá ao Grêmio Recreativo de Vista Alegre, bairro vizinho, foi um salto. No clube, foi inscrita para jogar um torneio de quartetos no estacionamento de um shopping em Madureira.
– A gente tinha um campeonato lá no shopping. E eu apitava o torneio masculino lá. Quando eu cheguei segunda-feira, ela tinha jogado no final de semana um torneio feminino de adultos. Aí o pessoal falou: Pô, teve uma menina novinha que jogou no meio dos adultos e arrebentou. E aí eu fui atrás do professor dela. Eu trabalhava aqui na base do Flamengo – conta o técnico Marcos Redivo, que levou Fabi para o mirim no clube da Gávea. – Marquei com o professor dela, para vir fazer um teste aqui no Flamengo. Na mesma hora, ela foi aprovada. Quando chegou, por incrível que pareça, ela foi central. Aquela altura toda foi central, mas ela saltava muito, tinha habilidade no ataque e aí começou a vida dela jogando central. Depois foi fazendo as transições pelas posições até chegar à posição de líbero.
Marcos Redivo, técnico que levou Fabi para o mirim do Flamengo
Leonardo Pimenta/Flamengo
Nessa época, ainda não havia a posição de líbero, criada em 1998, quando Fabi tinha 18 anos. No dia do teste no mirim (atletas sub-14) no Flamengo, Harry Bollmann comandava o treino feminino – era o preparador físico da equipe, mas assumiu outra função com a ausência do então técnico por questões pessoais. Fabi, ao fim da prática, saltou junto à rede e tocou o alto da antena, algo que nenhuma menina daquele grupo fazia. Hoje supervisor do Sesc-Flamengo, Harry, na mesma hora, disse para Fabi acertar seu vínculo com o clube.
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– Menos de uma semana depois, ela jogou uma partida no mirim, num domingo de manhã. Quando ela vai para o saque, o juiz autoriza, ela lança e saca a viagem, uma coisa que nenhuma mirim fazia e que inclusive não era permitido pela regra. E aí todo mundo riu, porque, na hora em que ela saca, o juiz para e dá o ponto para outro lado. Ela olhou para a gente: O que que está acontecendo? Falo: Fabi, não pode sacar viagem, é ponto do outro lado. Eu tenho o prazer de dizer que, mesmo sendo preparador físico, quem deu treino fui eu – lembra Harry.
Harry Bollmann, hoje supervisor do Sesc-Flamengo e primeiro técnico da Fabi na Gávea
Fabio Grijó
Na Gávea, a 30km do condomínio em Irajá, Fabi se formou jogadora de vôlei, alternando como central ou ponteira. Na base, as levantadoras ainda estão desenvolvendo o toque, muitas vezes sem força e precisão para bolas mais longas. Por isso, as melhores dos times costumam atuar como centrais – é uma bola mais curta para a levantadora. Nessa época, Fabi já estudava num colégio na zona sul, chegava para o treino no Flamengo na manhã, ia para a escola depois do almoço e voltava ao clube para praticar mais. Só chegava em casa à noite.
O ano já era 1998, e a posição de líbero tinha sido criada havia pouco tempo. Até o técnico Jacques Araújo Neto, diante do 1,66m de Fabi, sugerir para a então adolescente de 18 anos uma mudança que foi determinante para a carreira. Mas ela não gostou de primeira. Saiu esbravejando.
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– Próximo ao juvenil, no segundo ano infanto, ela já tinha parado de crescer, né? Aliás, há muito já havia parado de crescer e surgiu uma posição de líbero. Cheguei todo contente para ela e falei: Fabi, tem uma posição ótima aí para você jogar. Ela: Qual é? Eu respondi líbero – diz Jacquito, lembrando também o incômodo de Fabi com a ideia. – Ela pergunta: O que um líbero faz? Digo: só joga na zona de defesa, passa, não pode sacar. Ela vira e fala: Não quero fazer isso, não. Não quero isso de jeito maneira. Ficou isso durante muito tempo, a ponto de ter que ir na casa dela, falar com a mãe dela pra ela virar líbero, porque ela não queria virar libero. E aí depois ela entendeu isso, né?
Jacques Araújo Neto, o Jacquito, técnico que sugeriu Fabi a virar líbero
Fabio Grijó
Estava fincada a origem como líbero da menina talentosa que saltava muito, era ousava na quadra mas gostava de marcar pontos, algo que um líbero não computa. Se dona Vera, a mãe de Fabi, ajudou Jacquito a convencer a filha de que deveria seguir na nova posição, demorou um pouco mais ainda para a mãe acreditar que o vôlei seria o futuro.
– Não acreditava muito, talvez achasse que ela não tivesse nem futuro, né? Quando o Bernardo (o técnico Bernardinho) chamou a Fabiana, aí eu falei: Não, não é possível. E aí fiquei sabendo da história e tal. Aí eu comecei a acreditar e acompanhar. Eu tinha uma cadeirinha de superstição. Toda vez que eu chegava era a mesma cadeira que eu ficava, mas eu não era, não gritava. Eu ficava contida, torcendo, vibrando, tudo contido.
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Da base no Flamengo, Fabi passou, como profissional, pelo Macaé, voltou ao Flamengo, defendeu a camisa do Vasco, seguiu para Campos, onde reencontrou o técnico Luizomar de Moura, seu comandante em Macaé. Em 2005, chegou ao então Rio de Janeiro, atual Sesc-Flamengo, com Bernardinho.
– Quando a posição do líbero chega, eu não dou a menor importância para ela. Só pensava no que o líbero não ia fazer – afirma Fabi. – Depois de um tempo, percebi que eu teria uma chance no vôlei que não teria. Não consigo imaginar minha vida, hoje, sem o líbero. O líbero tem altruísmo, ele serve aos outros. O líbero moldou o jeito que eu penso a vida. Essa posição moldou o jeito eu eu olho para as pessoas. Você jogou um esporte numa posição que foi inventada, num esporte que não tem empate e que o vencedor é quem faz mais pontos, e você nunca fez um ponto sequer. Acabo representando muita gente porque é uma quebra de padrão. O esporte de alto rendimento exige um monte de coisa, o líbero vai quebrando um pouco ali de tudo. geRead More