Crônica: torcer (pelo Santa Cruz) e não ter a vergonha de ser feliz
Com tensão até o fim, Santa Cruz retorna à Série B
Está para aparecer um psicólogo, psicanalista ou psiquiatra que explique esta torcida do Santa Cruz.
Eu mesmo já tentei, e nada consegui de razoável.
Torcida do Santa Cruz na Arena de Pernambuco antes de jogo contra o Maringá
Marlon Costa
Mas vendo as imagens desta campanha cinematográfica do acesso para a Série B, percebi algo que foge ao senso comum futebolístico, muitas vezes machista e violento: basta vestir o manto coral e seguir para qualquer estádio onde o time for jogar, que surge uma alegria diferente, como se aquelas horas, destinadas às três cores, fossem sagradas. Os problemas ficam para depois.
É o momento de deixar a criança, que cada um leva na alma, brincar de viver em outro mundo. O mundo em que homens e mulheres podem ser crianças. O mais durão abraça o desconhecido ao lado como se fosse seu irmão.
Nesta campanha do acesso para a Série B (e que nunca tenhamos mais que passar por isso), os gols eram comemorados com choros, risos, abraços… E crianças, muitas crianças, no meio desta felicidade.
É uma torcida que não larga a mão do clube, e nunca esquece de quem veio antes.
Torcida do Santa Cruz lota a Arena de Pernambuco em jogo contra o Maringá
Marlon Costa
Em qualquer entrevista, após o jogo, os mortos são lembrados. O pai que já morreu, um tio que levava os sobrinhos para o Arruda (eita, que saudade…), o vizinho que deu a primeira camisa… E logo vem choro coral, particular, de infância, saudade e esperança.
O torcedor coral tem este dom: nunca perde a esperança e a alegria – por isso é tão querido por grandes jogadores, pelo Brasil inteiro.
Nesta campanha memorável, time, torcida e diretoria se abraçaram. Quando isso acontece, não tem quem segure a cobra coral.
Pedro Favela comemora gol pelo Santa Cruz contra o Maringá
Marlon Costa
Passei os últimos quatro anos em São Paulo e sofri à distância, longe do meu povo das três cores.
Voltei para o Poço da Panela, onde tive a felicidade de ir para os jogos do Santa infinitas vezes, com vários amigos, na lendária “Kombi Coral!” do inesquecível Naná.
Não consegui ingresso para o último jogo e assisti na super TV de Boy e Ninha, à beira do Rio Capibaribe, com churrasco dos bons.
Presidente do Santa Cruz, Bruno Rodrigues dá “flecheiro” na piscina do Arruda
Já no final do jogo, vi Boy chorando forte, perguntei a Ninha se ele estava bem.
“Tá tudo bem. É que ele sempre lembra de Naná, e começa a chorar”.
Choremos, amigos corais, nossas santas lágrimas das crianças e da redenção.
Agora é buscar o título, arranjar dinheiro para reformar o Arruda, que é nossa casa de verdade, nunca mais passar por esses perrengues.
Choro, só de felicidade.
Para Samir, de quatro anos e meio, que ainda não conheceu o Arruda.
*Samarone Lima é jornalista e poeta, e fundou, com Inácio França, há alguns anos, o “Blog do Santinha”, de crônicas sobre o Santa e sua torcida, que resultou em três livros: a “Trilogia das cores”. É também fundador da Troça “Minha Cobra”, que inunda Olinda, no Carnaval, com a felicidade coral. geRead More


