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Da Série A do Brasileiro à Série B estadual: como o Joinville despencou em 11 anos

Da Série A do Brasileiro à Série B estadual: como o Joinville despencou em 11 anos

50 anos: a fusão de dois clubes deu origem ao Joinville
Em novembro de 2014, a Arena Joinville recebeu a festa de um campeão brasileiro. O JEC havia acabado de conquistar a Série B, dois anos depois de voltar à competição e apenas três após levantar a taça da Série C. Onze anos depois de disputar a Série A, a realidade é outra.
Em 2026, justamente na temporada em que completou 50 anos, o Joinville foi rebaixado pela primeira vez à segunda divisão do Campeonato Catarinense e acabou eliminado ainda na primeira fase da Série D. Para 2027, tem garantida apenas a disputa da Série B estadual. A Copa Santa Catarina é a última possibilidade de assegurar novamente um lugar no cenário nacional, na Copa do Brasil ou Série D. O ex-jogador Diego Souza lidera a equipe nessa missão.
— O Joinville agoniza. É um clube à procura de uma solução, de um salvador, que pode ser uma SAF, um novo dirigente, uma nova mentalidade, mas que, acima de tudo, precisa ter aporte financeiro — analisa o comentarista da CBN Joinville, Cléber Grabauska.
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Cléber Grabauska, comentarista da CBN Joinville, analisa a derrocada do JEC desde 2015
O Joinville foi uma das grandes forças catarinenses das décadas de 1970 e 1980. Entre 1978 e 1985, conquistou oito estaduais consecutivos. No último ano da sequência, terminou o Campeonato Brasileiro na oitava colocação entre 44 participantes. Em 2000 e 2001, voltou a ser bicampeão catarinense, seus últimos títulos estaduais.
A primeira derrocada aconteceu naquele período, em 2004, o JEC foi rebaixado da Série B para a Série C e passou por um tempo de menor presença nas principais divisões do país. A retomada começou com o título da Copa Santa Catarina de 2009, que colocou o Joinville na Série D. Em 2010, após punição ao América-AM pela escalação irregular de um jogador, o clube herdou uma vaga na Série C.
Lima e companhia fazem a festa do título da Série C do Joinville contra o CRB
Lula Castello Branco/Futura Press
Um ano depois, foi campeão. Na final de 2011, venceu o CRB por 3 a 1 em Maceió e goleou por 4 a 0 na Arena Joinville, diante de 19.631 pagantes.
Aquele processo ocorreu durante as administrações de Márcio Vogelsanger e Nereu Martinelli. Martinelli participou da gestão como vice-presidente e diretor de futebol antes de assumir a presidência. O período coincidiu com uma sequência de resultados que levou o clube novamente às principais divisões do país.
Joinville conquista o título inédito de campeão da Série B do Campeonato Brasileiro
Depois de duas temporadas na Série B, veio o auge. Com Hemerson Maria no comando, o Joinville conquistou 70 pontos em 38 rodadas em 2014, venceu 21 jogos, garantiu o acesso com quatro rodadas de antecedência e terminou campeão.
Em apenas quatro temporadas, o JEC havia passado da Série D para a Série A e conquistado dois títulos nacionais.
A elite, porém, foi o início de uma sequência completamente diferente. O Joinville passou praticamente todo o Brasileiro de 2015 na zona de rebaixamento. Depois de 28 anos longe da elite, permaneceu apenas uma temporada. Terminou com 31 pontos e caiu para a B.
— Em 2015, o JEC volta a jogar a Série A. Só que a campanha começa mal, o time começa a patinar e fica na zona de rebaixamento. Para tentar dar a volta por cima, gastou muito dinheiro, e o departamento financeiro ficou um caos. Esses problemas foram se avolumando, e a bola de neve foi crescendo até que o clube ficou à beira da falência — explicou Grabauska.
Joinville se torna o primeiro clube a garantir acesso à Série A do Brasileirão 2015
Em 2016, caiu novamente. Mesmo vencendo o Vila Nova por 4 a 2 na última rodada, terminou com 40 pontos e foi rebaixado à Série C.
Em 2017, não conseguiu disputar o acesso. O ano também foi marcado por problemas financeiros, premiações e salários atrasados. Após a eliminação nacional, o clube anunciou uma redução radical da folha salarial.
Em 2018, veio outra queda. A derrota para o Tupi, em Juiz de Fora, confirmou o rebaixamento à Série D com duas rodadas de antecedência. O JEC tinha dez pontos em 16 partidas, com três vitórias.
A sequência é curta o suficiente para caber em uma linha: Série A em 2015, Série B em 2016, Série C em 2017 e 2018 e Série D em 2019. Foram três rebaixamentos nacionais em quatro temporadas.
Combinação de resultados não ajuda e Joinville é rebaixado para a Série C
Em 2015, durante a Série A, o JEC chegou a ter aproximadamente 12 mil sócios. Três anos depois, eram 2,8 mil. No mesmo período, a dívida chegou a aproximadamente R$ 42 milhões. O clube havia contratado 121 jogadores entre 2015 e 2018.
O número de ações trabalhistas também cresceu. Segundo informações apresentadas pela própria administração da época, eram três processos trabalhistas durante a Série A que se transformaram em 66 alguns anos depois.
A receita já não acompanhava mais a estrutura montada anteriormente. Naquele período, o faturamento mensal foi estimado em aproximadamente R$ 167 mil, enquanto as despesas se aproximavam de R$ 1 milhão.
Também começou uma sequência de trocas no comando do clube. Depois de Nereu Martinelli, passaram pela presidência nomes como Jony Stassun, Vilfred Schapitz e Charles Fischer. Mudavam os dirigentes, mas o Joinville não conseguia interromper a perda de espaço no futebol nacional.
Diretoria do JEC estuda terceirizar futebol profissional
Até a Série D desapareceu
O JEC disputou a quarta divisão em 2019, 2020 e 2021. Não subiu em nenhuma das três temporadas.
Em 2021, chegou a terminar a primeira fase invicto e na liderança do grupo, mas caiu diante do Uberlândia nas oitavas de final.
No ano seguinte veio outro marco da decadência esportiva: pela primeira vez desde a criação da Série D, o Joinville ficou sem nenhuma divisão do Campeonato Brasileiro. A ausência durou três temporadas: 2022, 2023 e 2024.
JEC classificado para a Série D
Recuperação judicial e passivo milionário
A crise financeira também levou o JEC à Justiça. Em maio de 2022, o clube protocolou pedido de recuperação judicial. Na documentação, apresentou dívida de R$ 46 milhões em valores referentes a 2018, dentro de um passivo que já se aproximava dos R$ 50 milhões.
O pedido foi aceito e, em 2023, o plano foi homologado envolvendo R$ 21,1 milhões em dívidas, sendo R$ 13,8 milhões trabalhistas. O cronograma previa pagamentos por até dez anos. E nem toda a dívida estava ali.
Naquele momento, cerca de R$ 20 milhões em débitos tributários, incluindo obrigações relacionadas a INSS e FGTS, estavam fora da recuperação judicial. A Justiça chegou a determinar a penhora do Centro de Treinamento do Morro do Meio, medida contestada pelo clube.
Recuperação judicial do JEC é aprovada
Uma reação curta
Em 2025, o Joinville finalmente voltou ao Campeonato Brasileiro. Depois de três temporadas ausente, disputou a Série D, chegou a liderar o grupo e avançou ao mata-mata. Parou na segunda fase, eliminado pelo Cianorte após derrota por 4 a 0 no jogo de volta.
No Estadual, também apareceu um sinal de reação. O JEC chegou à semifinal pela primeira vez em nove temporadas. Durou pouco.
Planos do JEC para 2025
Enquanto o JEC caiu, Brusque e Barra subiram degraus
O exemplo do Brusque começa justamente em 2015. Na temporada em que o JEC disputava a Série A do Brasileiro, o Quadricolor estava na Série B do Catarinense. Fundado em 12 de outubro de 1987, o clube foi campeão da Segundona do Estadual naquele ano e iniciou uma escalada. Em 2019, conquistou a Série D e subiu para a Série C. No ano seguinte, conseguiu novo acesso e alcançou a Série B do Brasileiro.
Desde então, o Brusque alternou entre a segunda e a terceira divisões nacionais. Foi rebaixado em 2022, retornou à Série B em 2023 e caiu novamente em 2024. Em 2026, disputa a Série C está atualmente no quadrangular do acesso.
No período desde 2015, conquistou sete títulos: Série B Catarinense (2015), Copa Santa Catarina (2018 e 2019), Série D (2019), Recopa Catarinense (2020 e 2023) e Campeonato Catarinense (2022).
Brusque é campeão da série D do campeonato Brasileiro
A trajetória do Barra é ainda mais recente. Fundado em 18 de janeiro de 2013, o clube tinha apenas dois anos quando, em 2015, enquanto o JEC estava na Série A, disputava a Série C do Catarinense. Foi campeão invicto naquele ano e subiu para a Série B estadual. Permaneceu seis temporadas na divisão até conquistar o título em 2021 e chegar pela primeira vez à elite de Santa Catarina.
A ascensão continuou no cenário nacional. O Barra estreou na Série D em 2024 e, já na segunda participação, conquistou o título brasileiro em 2025 e o acesso à Série C. Em 2026, aos 13 anos de existência, venceu também o Campeonato Catarinense pela primeira vez e estreou na Copa do Brasil e na terceira divisão nacional.
— O futebol do Joinville faz com que o seu time seja apenas um coadjuvante no futebol catarinense. Não é à toa que o Barra já foi campeão da Série C, foi campeão catarinense, o Marcílio Dias superou o JEC. Clubes que estavam atrás na fila passaram à frente — complementa Grabauska.
Comparação entre as equipes desde 2015
Cinquentenário com rebaixamento
O ano que deveria celebrar meio século de história produziu outro marco negativo. Em 2026, o JEC foi rebaixado pela primeira vez à Série B do Campeonato Catarinense.
Na Série D, o time começou bem e chegou a ocupar a liderança do grupo. Depois despencou. A derrota por 3 a 1 para o São Luiz, na décima rodada, confirmou a eliminação ainda na primeira fase. O resultado deixou o clube novamente sem calendário nacional garantido para o ano seguinte.
JEC é rebaixado para a Série B do Campeonato Catarinense
Fora de campo, também não houve estabilidade. O Joinville passou a discutir a transformação do futebol em SAF. Uma proposta apresentada pela Sportheca previa aproximadamente R$ 150 milhões em investimentos ao longo de dez anos e teve autorização do Conselho Deliberativo para continuar sendo negociada.
O acordo não saiu. Em julho, as tratativas foram encerradas após divergências relacionadas às cláusulas e aos percentuais previstos. Depois, uma nova crise atingiu as negociações quando o Conselho extinguiu a comissão responsável por analisar propostas após tomar conhecimento de um contrato de exclusividade firmado pela diretoria com outro interessado.
SAF do JEC: conselho deve analisar propostas na semana que vem
O clube também atravessa uma nova disputa política interna, enquanto discute sua próxima sucessão presidencial e tenta reorganizar a administração. No dia 2 de outubro Dartanhan Oliveira anunciou a renúncia do cargo de presidente do clube. O Conselho Deliberativo deve assumir e seguir até a efetivação da nova SAF.
Agora, a Copa Santa Catarina virou mais do que a disputa por outro troféu. É a última possibilidade de o JEC entrar em 2027 com uma competição nacional no calendário. No torneio, o Tricolor é comandado por Diego Souza, que estreia como treinador nesta temporada.
Pronunciamento de renúncia do presidente do Joinville, Dartanhan Oliveira
O clube que já esteve entre os oito melhores do Brasil, empilhou títulos estaduais e chegou à elite depois de uma escalada que começou na Série D tenta evitar um cenário que há pouco mais de uma década pareceria improvável: começar a próxima temporada restrito à segunda divisão de Santa Catarina.
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