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Marcelo de Lima Henrique curte vida nova e lembra relação com torcidas: “Todas odeiam”

Marcelo de Lima Henrique curte vida nova e lembra relação com torcidas: “Todas odeiam”

Marcelo de Lima Henrique: histórias, polêmicas e o futuro do ex-árbitro da CBF
Vaias, protestos e insultos dentro ou fora de campo nunca abalaram Marcelo de Lima Henrique. Por mais de três décadas, o agora ex-árbitro transmitiu a imagem de autoridade em jogos pelo continente sul-americano. O último trilar do apito veio aos 54 anos, no duelo entre Fortaleza e Ceará, pela 28ª rodada da Série B, no dia 13 de setembro.
Marcelo de Lima Henrique encerrará carreira em 2026
Após 32 anos dedicados à arbitragem, Marcelo pendurou o apito dos jogos oficiais da CBF. Nem ele mesmo esperava que a última “valsa” viesse em grande estilo: um Clássico-Rei decisivo pela Segundona de 2026, com mais de 38 mil torcedores na Arena Castelão.
O profissional do apito entende bem o papel que exercia dentro das quatro linhas. De Lima destaca que os profissionais precisam sair da bolha e não se sentirem “donos do jogo”. Daí surge a necessidade de humanizar cada vez mais os personagens do espetáculo.
— O árbitro é um servidor do futebol. A razão de estar ali é o futebol, não é o futebol que está ali para mim. Eu tenho que preservar o jogo, preservar o craque, e fazer com que as novas gerações entendam essa paixão. Estamos ali para servir, não para ser o ator principal — avalia Marcelo de Lima Henrique.
Marcelo de Lima Henrique apitou o Clássico-Rei pela 28ª rodada da Série B de 2028
Thiago Gadelha/SVM
Mesmo após encerrar a carreira como árbitro, Marcelo faz questão de guardar segredo sobre seu time de coração. Assim como um juiz togado, que não escolhe lados no julgamento, o profissional precisava ser imparcial para evitar ilações sobre equívocos do passado dentro de campo. Ele ressalta que os torcedores ainda não têm maturidade suficiente para saber por quais cores bate o coração de um profissional da arbitragem.
Obviamente que o Marcelo não veio de Marte. Eu fui garoto, joguei futebol na rua, torci para um time na infância. Quando a gente se profissionaliza, a paixão fica recolhida, guardada em casa. Quando estamos vendo um jogo, sim, a gente torce um pouquinho, mas não pode externar. Nem o vizinho pode saber, senão dá problema.”
Carinho dos torcedores?
Ao confirmar ou anular um gol, ou decidir pelo amarelo ou vermelho em lances mais firmes, Marcelo exercia seu poder com o apito. Ao longo de sua trajetória, selou destinos de clubes, para o bem ou para o mal, em cada tomada de decisão. Sobre a relação com as arquibancadas, ele pontua que existe uma situação antagônica.
Se nos estádios e nas redes sociais ele recebia críticas e xingamentos, pessoalmente a história era bem diferente, com elogios e carinho por onde passava. Questionado se alguma torcida tem “amor” por ele, De Lima foi categórico:
Acho que nenhuma, todas odeiam. Porque o futebol é o seguinte: quando o time ganha, dizem “ganhei, apesar do juiz”; quando perde, foi “por causa do juiz”. Não tem essa de carinho e amor, não. Tem torcidas que conseguiram acessos comigo em jogos difíceis e, depois, começaram a me odiar. Tem torcida que ganhou vários jogos comigo apitando e, quando perdeu um porque errei um lateral ou um pênalti, eu já não servia mais, já era ladrão.”
Marcelo de Lima Henrique, ex-árbitro de futebol na redação do Sistema Verdes Mares
Samuel Conrado/SVM
Entre os principais nomes do atual quadro da CBF, o fluminense destaca os últimos convocados para a Copa do Mundo dos Estados Unidos: Rafael Claus, Wilton Pereira Sampaio e Ramon Abatti Abel. Além do trio, Marcelo lembra que a Copa do Mundo Feminina sub-20 terá à frente Charly Wendy Straub Deretti, Anne Kesy Gomes de Sá e Fernanda Nandrea.
— A arbitragem brasileira é muito bem referendada em todo mundo. Obviamente que a gente precisa melhorar, mas acho que a arbitragem brasileira vive momento de transformação e com bons jovens vindo aí — avalia De Lima.
Antes mesmo de a bola rolar, o árbitro já passava a ter uma noção da atmosfera que o aguardava. Na avaliação de Marcelo de Lima, o conforto das modernas arenas herdadas da Copa do Mundo contrasta com o “desconforto” dos estádios mais acanhados, que são justamente os mais difíceis de apitar.
— Os estádios mais acanhados são os mais difíceis, como Vila Belmiro, São Januário, e os dois estádios do Pará: a Curuzu ou o Baenão lotados. Não é medo, o árbitro mais experiente até gosta, mas, para o mais jovem, são os cenários mais complicados – pondera.
E foi assim, sem escolher palco, que Marcelo comandou 14 finais de Campeonato Carioca e inúmeros Gre-Nais ao longo da carreira.
Marcelo de Lima Henrique encerra carreira no Clássico-Rei
Thiago Gadelha/SVM
Grandes jogos
Marcelo recebeu o escudo da Fifa em 2008, ano em que apitou a final da Taça Guanabara entre Flamengo e Botafogo, jogo que ficou marcado em sua memória. Além do clássico carioca, ele aponta o duelo entre Uruguai e Argentina, pelas Eliminatórias da Copa de 2014, como outro confronto tenso do início ao fim.
O embate entre as duas seleções, inclusive, rendeu uma conversa curiosa com Diego Forlán, então capitão uruguaio, antes de a bola rolar para o duelo entre argentinos.
— O Uruguai tinha dez jogadores pendurados com dois cartões amarelos, e para eles jogarem a repescagem, o Forlan estava preocupado. Ai eu disse “amigo, é só não dá de mão”. O jogo teve um cartão amarelo para o jogador da Argentina e a gente conseguiu levar o jogo numa boa — pontua Marcelo.
Ao resgatar momentos, no mínimo, engraçados, Marcelo destaca outro clássico: Santos e Corinthians, pela semifinal da Libertadores de 2012. Na ocasião, antes de ir à Vila Belmiro, ele passou em uma loja de artigos esportivos para comprar novos equipamentos. Um senhor que estava no local o presenteou com um apito para “estrear” no duelo decisivo.
O problema veio na hora de dar o silvo inicial. O som que saiu do instrumento foi quase imperceptível para quem estava dentro e fora de campo. Sobrou para o quarto árbitro da partida, Ricardo Marques, salvar o colega providenciando a troca do apito.
Nos jogos amadores é que as histórias se multiplicam. Trocar de uniforme no meio do “mato” e sair escoltado faziam parte da rotina em meio aos causos que o profissional carrega nas lembranças de três décadas com o apito.
Árbitro Marcelo de Lima Henrique, Alecsandro e Rodrigo, no duelo entre Flamengo e Vasco
André Durão
A elegância em campo foi inspirada em outro brasileiro que apitou final de Copa do Mundo: Arnaldo Cezar Coelho. Inclusive, uma feliz coincidência cruzou o destino dos dois ao soar o apito pela última vez na Arena Castelão.
— Foi muito legal porque, quando acabei o Clássico-Rei, eu levantei a bola igual ao Arnaldo, e foi instintivo. Depois ele me mandou mensagem, nós trocamos uma ideia. Foi um grande árbitro, árbitro de final de Copa do Mundo.
Paixão herdada
A ligação com o apito não brotou do nada. O amor foi transmitido pelo pai, José Henrique Neto, ex-árbitro fluminense que era a personificação da autoridade nos campos do Rio de Janeiro. Apesar do exemplo em casa, o sonho de infância de Marcelo era ser goleiro.
Natural de Itaboraí, a cerca de 45 quilômetros da capital fluminense, De Lima Henrique chegou a atuar na base do América-RJ, no Bangu, Operário-MS, Comercial-MS e na seleçã juvenil do Mato Grosso do Sul.
— Eu era um goleiro mediano, mas sempre fui capitão por onde passei porque era muito trabalhador. Mas não era goleiro de Série A, não — conta Marcelo aos risos.
Marcelo de Lima Henrique, quando era goleiro, ao lado do pai, o então árbitro José Henrique Neto
Arquivo Pessoal
Um episódio marcante que Marcelo carrega da infância com o pai aconteceu quando ele tinha apenas oito anos. Em uma partida pela semifinal da Segunda Divisão do Campeonato Carioca, pai e filho precisaram sair do estádio escoltados dentro de um camburão da Polícia Militar.
Como os primeiros passos embaixo das traves não decolaram, De Lima mudou a rota aos 23 anos, quando já era fuzileiro naval, e resolveu escutar os conselhos do pai.
— Meu pai me levou para fazer o curso de árbitros. Eu fiz, mesmo sem querer muito, e me apaixonei. Foi assim que aquele menino que queria ser jogador, de repente, virou árbitro de grandes jogos — relembra.
Apesar de sempre comentar os acertos e erros do filho, José Henrique não chegou a acompanhar fisicamente sua despedida dos gramados. O grande incentivador e inspiração de Marcelo faleceu em 2020.
Marcelo de Lima Henrique e seu pai, José Henrique Neto, com o escudo da Fifa conquistado em 2008
Arquivo pessoal / Marcelo de Lima Henrique
Nova fase
Ao anunciar o fim da trajetória profissional, Marcelo de Lima Henrique segue ativo em jogos festivos e no aguardo de novos convites. O futuro é um horizonte aberto para quem deseja continuar respirando o esporte.
— Eu quero muito trabalhar com arbitragem: ser gestor, liderar um projeto, instruir os árbitros… As portas estão abertas. Inclusive, já recebi convites de clubes querendo que eu faça assessoria para eles, mas, por enquanto, sigo fazendo meus eventos, com o contrato em branco — revela o ex-árbitro.
A experiência de 32 temporadas com o apito deu a Marcelo “autoridade” junto aos companheiros de arbitragem. O nome sempre é cogitado quando surge vaga em aberto nas chefias de arbitragem. Com a Federação Cearense de Futebol (FCF) não foi diferente, com apoio vindo em comentários do quadro alencarino nas redes sociais.
A ex-árbitra cearense Eveliny Almeida foi a escolhida para assumir o cargo. De Lima demonstrou gratidão ao quadro estadual que o acolheu nas últimas temporadas e desejou sucesso à nova gestora.
– A Eveliny, eu torço muito para o trabalho dela, porque o trabalho aqui tem que ser muito profundo. O Ceará precisa resgatar grandes nomes, de grandes árbitros para grandes jogos. Nós precisamos fazer um trabalho grande, mas daqui do Ceará eu só tenho gratidão ao doutor Mauro Carmélio – pontua Marcelo de Lima sobre o cargo de chefe da arbitragem da FCF.
Quando encontra os amigos para bater um racha em Itaboraí, Marcelo esconde o apito e as luvas de goleiro para assumir a liderança no meio-campo. O “velhinho”, como gosta de ser chamado, garante que ainda entrega mais qualidade técnica do que muito companheiro de linha.
— Eu fui goleiro por muito tempo, só que no meio da minha coroada, eu quero a camisa 10 e a faixa, porque eu corro mais do que eles — conta aos risos o profissional do apito.
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Marcelo de Lima Henrique no Clássico-Rei
Thiago Gadelha/SVM geRead More