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Messi redefiniu o que é ser argentino

Messi redefiniu o que é ser argentino

O emocionante discurso de despedida de Lionel Messi da seleção argentina
A questão do pertencimento é um negócio muito sério no futebol argentino. Um jogador que retorna ao país, após longa carreira fora, e decide defender um clube diferente daquele que o consagrou certamente será tratado como uma espécie de Judas futebolístico. Para quem senta na arquibancada, não há pecado maior.
Talvez essa noção passional das coisas explique um pouco da relação dos argentinos com Lionel Messi, que ontem despediu-se da camisa albiceleste diante de um abarrotado e lacrimejante Monumental de Núñez. De hoje em diante, a Argentina vai precisar encarar uma vida sem Messi levando às costas o diez que simboliza (e, de certa forma, unificava) todo um país.
Nascido em Rosario, Messi construiu toda sua trajetória profissional e passou grande parte da vida longe do país — ao menos geograficamente. Poderia ter escolhido vestir a camisa da Espanha, e não seria absurdo, mas decidiu não pegar atalhos, nem negociou seu caminho: Messi escolheu a Argentina.
Messi em partida amistosa que marcou sua despedida da Argentina
Reuters/Matias Baglietto
Essa escolha marcou a vida de Messi e a relação com seu país. Nas épocas de vacas magras, nos 28 anos sem títulos, por mais paradoxal que seja, talvez esse vínculo tenha aflorado de forma mais explícita. A derrota na decisão da Copa América Centenário, em 2016, a terceira final perdida em sequência, levou Messi a anunciar a aposentadoria. Disse sem dizer: “Fiz de tudo e não deu”.
Durante muito tempo, parte dos argentinos direcionou a frustração com sua seleção (e o país, e a vida, enfim) para Lionel Messi. Porque tinha virado espanhol. Porque não cantava o hino. Não se sentia argentino, provavelmente. Mas o anúncio da aposentadoria precoce serviu como imagem no espelho: ao expor a dor do fracasso, Messi se tornou totalmente argentino. Passou a pertencer.
Ontem, Messi também não proferiu uma palavra durante a execução do hino — cantou com os olhos. A verdade é que Leo nunca precisou se tornar mais argentino: era a sua argentinidad que precisava ser compreendida.
Veja a homenagem da AFA a Messi após o fim da partida de despedida
Maradona já não joga, mas continua fiscalizando. Na Copa do Mundo de 2022, Messi pareceu por momentos transfigurar a própria índole: o gênio quase sempre contido deu lugar a um jogador furioso e transtornado pela vontade de vencer, fazendo zagueiros definharem e provocando rivais como se estivesse no potrero mais obscuro da Grande Buenos Aires.
Muitos números ajudam a definir Messi, mas recorrer aos números para falar de Messi é quase uma ofensa. Se é difícil mensurar o que ele fez pelo futebol, tanto mais árduo é tentar avaliar o que ele representa para a Argentina, o país ao qual escolheu pertencer. E, com essa escolha, de certa forma acabou reconfigurando a própria noção do que é ser argentino.
Um show de drones tomou conta do Monumental para homenagear Lionel Messi geRead More