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“O Jogo Por Elas”: arbitragem feminina ganha referências no futebol cearense

“O Jogo Por Elas”: arbitragem feminina ganha referências no futebol cearense

Arbitragem feminina ganha referências no futebol cearense
Nascida e criada em Sobral, Maria das Graças, de 28 anos, cresceu em uma casa que em frente tinha um campo de futebol e, logo depois, um açude. A paixão sempre esteve estampada em seus desejos: “aprendi a jogar bola e não aprendi a nadar”. Falando da arbitragem feminina no futebol cearense, o ge dá continuidade à série “O Jogo Por Elas”.
+ Leia a primeira matéria da série O Jogo Por Elas | Celeiro de atletas da Seleção
O Jogo Por Elas
ge.globo/ce
Maria reina entre os homens; irmã de seis meninos, se deparou logo cedo com a paixão pelo futebol. Deu vida à carreira dentro do esporte como jogadora de futebol no campo em frente à casa, e depois foi além. Descobriu um talento que ainda não sabia que tinha: apitar jogos. Iniciou no apito nos treinos da comunidade, e posteriormente, em amistosos.
O Jogo Por Elas: árbitras
Imagem gerada por inteligência artificial
O amor que teve início na porta de casa agora faz Maria explorar outro caminho no futebol. Recém-formada em Educação Física e trabalhando há sete anos como doméstica, Maria é aluna do curso de formação de árbitros da Federação Cearense de Futebol (FCF).
Atualmente, o quadro de árbitros da FCF conta com 136 profissionais, destes apenas 17 são mulheres, ou seja: 12,5% do total. Em palavras mais simples, apenas uma em cada oito pessoas do quadro é mulher.
Infográfico proporção árbitras na Federação Cearense de Futebol (FCF)
Imagem gerada por inteligência artificial
Das 17 árbitras, apenas uma é árbitra Fifa, oito são árbitras CBF, seis são da FCF – sendo duas promissoras CBF -, e duas ainda são da categoria básico.
Maria iniciou a carreira de árbitra antes mesmo do curso. Ainda amadora, a jovem mulher iniciou no apito fazendo treinos e, logo depois, amistosos entre as comunidades.
– Eu sempre ia muito bem e sempre era muito bem elogiada, principalmente pelo meu irmão, um que também gosta de arbitragem. E eu pensei tipo: será que eu vou seguir o caminho de arbitragem? – contou Maria.
Assistindo ao jogo de um de seus irmãos, Maria conheceu Luan Adrião, sua referência dentro da arbitragem. Ao encontrá-lo, Maria contou-lhe o desejo de entrar para a profissão e se surpreendeu com o teste que faria juntamente com Luan.
Maria (lado direito) e Luiz Adrião (no meio) apitando um jogo no interior
Arquivo pessoal
O primeiro experimento foi em um jogo que Luan apitou, e Maria ficou em uma função semelhante ao de quarta árbitra, ouvindo a comunicação no rádio do jogo. Um dia assistindo como as coisas funcionam, e em outro em um campeonato realizado por Luan, em parceria com a cidade de Santa Quitéria. Maria foi observada na execução da profissão. A surpresa veio após o fim da competição.
– Ele disse: “você tem futuro na arbitragem. Vamos fazer o curso”. Isso há dois anos. E aí eu estava com dificuldade financeira na época, também tinha faculdade para conciliar, trabalho… – contou.
Esbarrou logo no primeiro empecilho, que segundo ela, foi a sua maior dificuldade no processo de iniciar e realizar o curso. Desde 2024 o desejo existia, mas só foi possível dois anos depois quando enxergou nas possibilidades conciliar os jogos com o trabalho como doméstica e as atividades na escola de árbitros.
– A questão financeira dá uma apertada porque a gente é do interior, então vir para cá tem custos. Custos de gasolina, a gente já paga a mensalidade do curso, tem a questão também da alimentação. Eu sempre costumo pegar jogos intercalando com as atividades da escola para ajudar financeiramente no deslocamento vindo para cá, para Fortaleza – desabafou Maria.
O segundo desafio, ainda presente nos dias atuais, foram os questionamentos, em tom machista, que teve que enfrentar e a incansável justificativas de seu sonho que precisavam ser dadas para responder perguntas como:

ge.globo
No entanto, o desejo de Maria sempre foi maior que qualquer questionamento, dúvidas ou machismos. Ela não quer ser árbitra, é quer algo além disso.
– O meu maior sonho é ser uma árbitra CBF – revelou.
Beatriz Ferreira
O lugar que Maria ainda sonha alcançar já faz parte da rotina de outras mulheres da arbitragem cearense. Beatriz Ferreira, por exemplo, é filha de árbitro assistente e cresceu acompanhando a preparação do pai. Desde seus 18 anos, quis entrar na arbitragem, mas acabou adiando o plano porque antes tinha o desejo de fazer faculdade.
Em 2020, Beatriz era universitária e tinha “dinheiro contado” e, naquele momento, aproveitou a turma que oferecia desconto para mulheres. Iniciou na arbitragem e entrou no quadro da FCF em 2021. Em 2023, já estava no quadro da CBF.
No caso de Beatriz, os desafios também existem, no entanto, eles são outros, mas ainda assim têm algo em comum com os de Maria – e não só delas, mas de mulheres que ocupam espaços predominantemente masculinos.
Beatriz Ferreira em jogo do Fortaleza como árbitra assistente
Arquivo pessoal
– Eu acho que em toda profissão tem seus desafios e na arbitragem não é diferente. A diferença é que nós encontramos esses desafios antes mesmo de nos mostrarmos, de mostrarmos a nossa capacidade, porque muitas das vezes nós somos subestimadas. Nós estudamos, nós treinamos, nós nos preparamos, preparamos os pilares para estarmos naquele ambiente. Então, se nós estamos, é porque nós somos capazes de estar ali. É por mérito, por preparação – desabafou.
Beatriz Ferreira em entrevista ao ge
Giovanna Borges/SVM
Camila Souza
Camila Souza, por sua vez, entrou no curso de árbitros da FCF em 2017, passou a integrar o quadro um ano depois e desde 2020 integra o quadro de árbitros da CBF. Inicialmente, queria ser árbitra principal, mas no meio do percurso se apaixonou pela assistência.
A árbitra destaca que estar preparada vai além de apenas entrar em campo. A preparação considera testes físicos, treinamentos semanais, atualização de regras, vídeos, leituras e também resolução de questões. Entrar em campo é consequência de muito aprendizado e abdicações. E mesmo assim, árbitras, infelizmente, tem sua capacidade questionada.
Árbitra Camila Souza em jogo do Fortaleza
Lucas Emanuel/FCF
– Hoje a gente (mulher) ainda é vista como sexo frágil, mas é indiferente. Se eu tenho capacidade e se eu estudei, me capacitei, eu tenho as mesmas capacitações que o homem. Se eu me capacitei igual, se eu tenho as mesmas capacidades, as mesmas coisas, porque eu sou inferior? Esse pensamento das pessoas de que as mulheres são inferiores é algo que está muito enraizado e não é só no futebol – comenta Camila.
O Jogo Por Elas com Camila, árbitra
ge.globo
Camila Souza em entrevista ao ge
Arquivo pessoal
A conquista do espaço por competência e qualificação
Apesar das dificuldades e desafios, as mulheres seguem conquistando espaço no futebol brasileiro e, no Nordeste, esse avanço ganhou um capítulo inédito recentemente. No dia 15 de abril, Camila Souza, Beatriz Ferreira e Rejane Caetano, um trio de árbitras do quadro da Federação Cearense de Futebol (FCF), comandou o confronto entre Fluminense-PI e CRB, válido pela 4ª rodada da Copa do Nordeste, marcando um feito histórico na competição.
Em um ambiente predominantemente masculino, o espaço feminino segue sendo conquistado com muito esforço e vontade de fazer acontecer. Assim como Marta Vieira, nordestina, maior artilheira de todas as Copas e “rainha do futebol”; Nettie Honeyball, fundadora do primeiro time de futebol feminino, entre tantas outras mulheres importantes para esse esporte, Rejane Caetano, Camila Souza e Beatriz Ferreira são mais três que deixam feitos marcados na história do futebol para as mulheres.
Camila Souza e Deborah Beatriz em jogo válido pela Copa do Nordeste
Weslley Douglas
– A gente ficou feliz pela questão de que é o nosso trabalho, a gente está sendo reconhecida e a gente está conseguindo chegar aonde a gente quer chegar. Porque a gente almeja grandes jogos e a Copa do Nordeste ser comandada por três mulheres foi algo assim que encheu nosso coração de esperança de que a gente vai conseguir e vai almejar e sempre buscar mais e mais – disse Camila.
Camila Souza, Rejane Caetane e Beatriz Ferreira – árbitras
Arquivo pessoal
– Foi a realização de um sonho. Eu já tinha feito jogos fora do estado, ela também tinha, mas sempre com o comando de um árbitro masculino. E sair três mulheres para uma responsabilidade tão grande, digamos assim, fora do seu estado, em uma competição tão acirrada que é a Copa do Nordeste, é a comprovação de que o trabalho que vem sendo feito está dando certo, que tudo que a gente faz, que a gente abdica vale a pena. Eu acho que a frase que poderia definir é essa: tudo valeu a pena – declarou Beatriz.
Mulheres no futebol e na gestão
A presença feminina na arbitragem cearense também avança fora das quatro linhas. Recém-nomeada presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol (FCF), Eveliny Almeida passa a ocupar um dos principais espaços de gestão do setor no estado.
Antes de chegar à presidência, Eveliny foi diretora da Escola de Arbitragem do Ceará, entre 2017 e 2022. Depois, integrou a Comissão de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol e, em 2025, passou a fazer parte da comissão nacional da CBF. Agora, de volta ao Ceará, pretende utilizar a experiência acumulada para fortalecer a arbitragem do estado.
Eveliny Almeida
Arquivo pessoal
– Nosso maior objetivo é colocar a arbitragem cearense em evidência para o cenário nacional. A arbitragem cearense sempre teve muito potencial a nível nacional, sempre tivemos grandes representantes, aspirantes Fifa, Fifa, e o que eu mais vou buscar a partir de agora é que a gente ocupe esse lugar novamente. Para que isso aconteça, a gente vai precisar trabalhar bastante com qualificação, capacitação, com o trato humano, cuidar das pessoas antes de cuidar dos árbitros – afirmou.
A chegada de Eveliny ao comando também representa algo que ela própria não encontrou quando começou na arbitragem: uma mulher ocupando um espaço que pudesse servir de referência e tornar aquele caminho visível para outras.
– Eu não tinha uma referência na arbitragem. Eu não tinha uma evidência de possibilidades, eu não sabia que era possível. A partir do momento que você vê uma mulher na gestão, que você vê uma mulher dentro de campo apitando, você começa a enxergar uma possibilidade. […] Eu trabalho muito nesse viés: o que eu posso fazer para mostrar que é possível para outras mulheres, para outras meninas, para elas verem que existe, sim, uma referência, uma possibilidade e que elas são capazes – declarou.
Eveliny é a primeira mulher presidente de comissão de arbitragem no Estado do Ceará e no Nordeste, e a terceira mulher chefe de arbitragem no Brasil.
Copa do Mundo Feminina no Brasil como expansão da mulher no futebol
A Copa do Mundo feminina de 2026, será realizada no Brasil entre os dias 24 de junho e 25 de julho, e Fortaleza será uma das cidades-sedes do maior evento esportivo de futebol feminino do mundo. O momento será não apenas para apreciar o que será entregue dentro das quatro linhas, mas um momento de enriquecimento cultural, econômico e de legados esportivos e pessoais deixados em cada cidade. A Copa coloca em evidência não apenas as mulheres que chutam a bola, mas quem também está apitando, treinando, dirigindo e trabalhando para que o jogo aconteça.
– A Copa certamente deixará um legado de muita representatividade também. É um ambiente que vai fazer com que a gente ligue uma setinha de dizer que a gente consegue estar naquele lugar. E vindo aqui para Fortaleza, eu digo por mim, pela minha família, pela minha mãe, ela acha que só eu quero ser árbitra, que não tem nenhuma outra árbitra, que não tem nenhuma outra mulher jogando futebol, mas isso vai quebrar muitos preconceitos – conta Maria, aluna do curso de árbitros da Federação Cearense de Futebol (FCF).
Um caminho que está só começando
Enquanto o futebol feminino se prepara para viver no Brasil o maior evento do mundo da modalidade, Maria ainda percorre um caminho bem particular. Ela segue atrás do objetivo que traçou para si: deixar os jogos amadores e, um dia, carregar no uniforme o escudo da CBF.
Maria e Luiz Adrião (meio) em jogo no interior
Arquivo pessoal
O sonho de Maria hoje encontra referências em mulheres que já chegaram onde ela pretende estar. Beatriz e Camila transformaram suas preparações em oportunidades dentro de competições nacionais. Outras seguem chegando. E, agora, a própria estrutura da arbitragem cearense passa a ter uma mulher no comando de sua comissão.
Em 2027, quando a Copa do Mundo Feminina chegar ao Brasil, Fortaleza será uma das oito cidades-sede e receberá nove partidas na Arena Castelão. Para Maria, mais do que acompanhar de perto algumas das principais personagens do futebol mundial, o torneio pode ajudar outras meninas a enxergarem possibilidades que, durante muito tempo, pareceram distantes.
Se hoje apenas 17 dos 136 integrantes do quadro de arbitragem da FCF são mulheres, Maria pretende ser mais uma a ocupar esse espaço. Primeiro, quer concluir o curso. Depois, continuar crescendo na arbitragem.
Para quem cresceu ouvindo questionamentos sobre escolher um ambiente ocupado majoritariamente por homens, a resposta sobre até onde pretende chegar é simples:

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