Smart Sampa: como funciona o sistema de 58 mil câmeras de SP que teve senhas expostas por 11 meses
Dados de câmeras da Smart Sampa vazam; prefeitura nega falha no sistema e acusa servidor
O vazamento de dados do Smart Sampa, sistema de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial da prefeitura de São Paulo, expôs informações de acesso a uma plataforma usada por agentes de segurança.
A informação foi publicada na terça-feira (20) pelo UOL, que revelou a exposição indevida de imagens feitas por 58 mil câmeras. Ainda segundo a reportagem, 181 logins e senhas ficaram expostos por 11 meses na internet.
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Essas credenciais permitiram acessar o sistema da empresa Sentinelx, uma das integrantes do consórcio que opera o Smart Sampa.
Como funciona o Smart Sampa? O programa da prefeitura combina as imagens das câmeras e sistemas de inteligência artificial para analisar características faciais de pessoas e, então, identificar pessoas que aparecem em listas de foragidos e desaparecidos.
Sistema da Sentinelx, empresa contratada pela prefeitura de São Paulo, busca pessoas a partir de características físicas
Divulgação/Sentinelx
A Sentinelx vende uma plataforma que utiliza as imagens captadas por câmeras para identificar pessoas, gerenciar ocorrências e despachar viaturas.
A empresa diz que sua inteligência artificial busca pessoas a partir de características físicas mesmo quando elas não têm seus rostos cadastrados em listas de procurados e desaparecidos.
O sistema pode apresentar “os momentos em que foi visto uma pessoa de camiseta branca” em um determinado intervalo de tempo, como mostra um exemplo divulgado no site da empresa.
Com a busca finalizada, o sistema emite alertas para um operador humano, que avalia se é necessário despachar uma viatura para o local indicado.
O g1 entrou em contato com a Sentinelx, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.
Falha no controle de acesso
Central de monitoramento do Smart Sampa
Reprodução/Prefeitura de São Paulo
Segundo a empresa, o sistema tem um controle de acessos que define quem pode ter acesso a cada informação, a depender do seu cargo. A funcionalidade é comum em plataformas que tratam dados sensíveis e serve para diminuir o risco de vazamentos.
A prefeitura de São Paulo afirmou que as informações foram divulgados ilegalmente por um agente da Guarda Civil Metropolitana (GCM) que tinha acesso ao sistema. Ele foi afastado do cargo e está sendo investigado pela Corregedoria da GCM.
Segundo o prefeito Ricardo Nunes (MDB), o agente entrou na corporação em 2023 e mantinha senhas armazenadas. Nunes afirmou que o caso já era investigado e que foi confirmado pela sua gestão por conta da publicação da reportagem.
“A gente não tem nenhuma ocorrência de utilização indevida do sistema. O que a gente tem é o monitoramento contínuo de segurança que, inclusive, possibilita que a prefeitura de São Paulo monitore eventuais acessos irregulares, que não aconteceram”, afirmou.
A prefeitura afirmou que o repositório de dados que dava acesso às imagens foi retirado do ar e que reforçou mecanismos de segurança, com senhas exclusivas e autenticação em dois fatores.
Vigilância indevida
Para Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a exposição de dados do sistema do Smart Sampa deixa em risco milhões de cidadãos que tem suas imagens captadas pelas câmeras.
“Pode abrir precedentes de uso dessas informações para controlar e vigiar pessoas”, afirmou. “É muito grave que um sistema tão grande e com potencial tão imenso de vigilância esteja tão facilmente acessível”.
Pablo Nunes é criador do projeto “O Panóptico”, que monitora o uso de novas tecnologias para segurança pública no Brasil. Para ele, a resposta da prefeitura de São Paulo não foi equivalente à gravidade do problema.
“Quem deveria responder por falhas de segurança é a prefeitura, que se retirou desse papel dizendo que foi problema de um servidor.”
Fernanda Rodrigues, diretora do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS), avalia que esse episódio mostra que a vigilância com mais câmeras nem sempre representa mais segurança para a população.
Prisômetro no Centro de SP mostra o número de 1 mil pessoas presas pelo sistema de câmeras Smart Sampa, em abril de 2025
Divulgação/Secom/PMSP
“Nesse caso, temos o oposto porque não sabemos quem acessou as câmeras. E, inclusive, podemos cogitar que o material tenha sido acessado por pessoas mal-intencionadas que agora possuem registros muito atualizados da rotina de milhões de pessoas”, disse.
Para ela, mesmo com diferentes casos de vazamentos, o Brasil não criou uma cultura de proteção de dados, e vários incidentes terminam sem aplicação de multa ou responsabilização para empresas.
“Casos como esse demonstram que o problema da segurança não só não é resolvido [com programas como o Smart Sampa], como outras questões acabam deixando o cidadão mais vulnerável”.
O advogado Luiz Augusto D’Urso, advogado especialista em direito digital, disse que o caso apresenta uma violação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que define regras para evitar vazamentos de dados.
“A responsabilidade é exclusivamente da prefeitura, pois o sistema e os mecanismos de segurança são de sua competência”, afirma. “Até podem existir funcionários que tentem violar o sistema, mas este deve ter fatores de autenticação para inibir riscos”.
Segundo ele, ainda é preciso investigar outros eventuais crimes. “O funcionário que permitiu o acesso de terceiros pode responder por violação do sigilo funcional”, disse, em referência ao crime praticado por um servidor contra a administração pública.g1 > EconomiaRead More


