RÁDIO BPA

TV BPA

Tifanny vai ao lançamento da Superliga e cogita entrar na Justiça para jogar: “Mostrar que eu existo”

Tifanny vai ao lançamento da Superliga e cogita entrar na Justiça para jogar: “Mostrar que eu existo”

Pronunciamento de Radamés Lattari, presidente da CBV, no lançamento da Superliga
Tifany Abreu fez um forte desabafo no evento de lançamento da Superliga 2026/27, nesta quinta-feira (1º), em São Paulo, sobre nova regra que bane atletas trans de competições femininas de vôlei. Mesmo sem saber se poderá disputar a competição por causa da nova política de elegibilidade adotada pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), a oposta representou o Osasco na cerimônia. Na saída, se emocionou ao comentar a situação. Ela afirmou que lutará pelo direito de voltar às quadras e cogita recorrer à Justiça. Presidente da CBV, Radamés Lattari reforçou que a entidade vai seguir as novas regras do Comitê Olímpico Internacional (COI).
+ Superliga 2026/27 é lançada com novas regras e transmissão de todos os jogos pelo Grupo Globo
+ Com um líbero e oito substituições por set, Polônia começa a testar mudanças da FIVB; entenda
+ Carolana projeta volta ao vôlei após cirurgias para tratar câncer: “Momentos super desafiadores”
— Quero terminar a minha carreira de atletas com o pé direito, digna de uma aposentadoria, digna de falar eu comecei, eu terminei, eu inspirei e agora vou começar a ajudar outras pessoas fora de quadra. Não assim expulsa, não assim proibida, jogada na sarjeta como se nada tivesse acontecido. Eu espero que algo possa mudar. Se não for uma boa conversa, de bom acordo, que seja na Justiça. E que a justiça possa estar do meu lado, porque não faço nada de errado, só estou trabalhando — afirmou Tifanny.
Tiffany compareceu ao lançamento da Superliga mesmo impedida de jogar
Wesley Felix
A jogadora de 41 anos disputa a Superliga desde 2017 e está em sua sexta temporada pelo Osasco. Ela foi afetada pela decisão da CBV, anunciada em agosto, de adotar a política do Comitê Olímpico Internacional (COI) para a elegibilidade de atletas na categoria feminina. Pela nova regra, as jogadoras deverão apresentar teste genético com resultado negativo para o gene SRY, associado ao desenvolvimento masculino. A atleta que não comprovar a elegibilidade ficará impedida de disputar as competições.
Primeira atleta transgênero a atuar na elite do vôlei brasileiro, Tifanny teve sua continuidade no esporte afetada pela mudança. Desde o anúncio, ela recebeu apoio de diversas jogadoras e integrantes da comunidade do vôlei. Gabi Guimarães, capitã da seleção brasileira feminina, chegou a fazer um discurso antes do Pré-Olímpico criticando a decisão da CBV e defendendo a permanência de Tiffany na Superliga.
— É saber que eu poderia estar aqui sorrindo e representando meu esporte e não lutando por ser quem eu sou. É muito difícil porque são sonhos. Eu vou lutar até o final para que a história de Tifanny Abreu não termine desse jeito, que a história de pessoas trans não termine desse jeito e que eu continue inspirando pessoas. Quando eu terminar de jogar e estiver ocupando outros espaços, atletas no futuro falem que se inspiraram em Tifanny, que foi atleta e se aposentou com dignidade e não expulsa das quadras.
Paula Pequeno e Luiz Carlos Jr. dão detalhes da Superliga 26/27 e das novas regras
Apesar da decisão, Tifanny afirmou que pretende seguir presente no ambiente do vôlei e lutar para ter a oportunidade de terminar sua trajetória como atleta dentro das quadras.
— Infelizmente vim em uma época não tão favorável, mas aqui estou presente para mostrar que eu existo, que eu também tenho direito de estar aqui, de estar jogando essa Superliga. Fui muito bem recebida, todos me dando apoio em um momento tão difícil. Recebi esse apoio como muito amor e muito carinho. Quero terminar minha temporada. Eu não fiquei dez anos à toa. Foram dez anos lindos, que eu inspirei muitas pessoas, muitos atletas que hoje estão dentro de quadra, atletas que me viram jogar e compartilham a quadra comigo e dizem que fui inspiração dela.
Tiffany espera se aposentar do esporte com dignidade
Wesley Felix
Luizomar questiona mudança no protocolo de lançamento

Durante o evento desta quinta-feira, as 24 equipes da Superliga — 12 no masculino e 12 no feminino — foram representadas por um atleta e pelo treinador. O Osasco levou Tifanny e Luizomar. Segundo o técnico, houve uma mudança no protocolo por causa da presença da oposta. Tradicionalmente, todos os representantes participam de uma foto oficial. Desta vez, porém, apenas algumas equipes subiram ao palco ao longo da cerimônia.
— Fiquei triste, né? Porque eu tenho 27 fotos no palco, junto com todos os treinadores, tanto masculino como feminino, todos os atletas. Isso é uma grande recordação. E esse ano a gente não pôde ir a essa foto. Eu peço, se o porque é pela presença da Tiffany aqui, a gente só tem que lamentar. E peço desculpa aos patrocinadores de 12 equipes, seis no masculino, seis no feminino, que não puderam estampar a sua marca num evento tão importante. Se o motivo de não estar na foto, como que a Tiffany estava aqui, a gente só tem que lamentar. Eu acho que vai ficar manchada essa foto na Superliga 26/27 — falou o treinador.
Luizomar de Moura, técnico do Osasco
João Pires/Fotojump
Luizomar também afirmou que o Osasco pretende buscar os meios jurídicos necessários para tentar contar com Tifanny na competição. O técnico disse ter sido pego de surpresa pela decisão da CBV às vésperas da estreia do Campeonato Paulista.
— O Osasco, como um clube tão importante do voleibol feminino, lógico que vai procurar defender os seus direitos. Isso aí está com o departamento jurídico. Eu, como treinador, lamento muito, porque fui pego de surpresa. Recebi essa notícia, eu não estava nem aqui, estava com a seleção cubana. E às vésperas da estreia do Campeonato Paulista. Isso não vai diminuir nada o nosso trabalho e nós vamos com tudo para a Superliga — falou Luizomar.
Radamés Lattari, presidente da CBV, no evento de lançamento da Superliga 2026/27
David Abramvezt
CBV reforça alinhamento com as regras do COI
A CBV, por sua vez, mantém a decisão. Também durante o evento de lançamento da nova temporada, o presidente da entidade, Radamés Lattari, afirmou que não haverá diálogo sobre a situação e disse que não houve pressão para adotar a nova política.
— Com a CBV não tem nenhuma conversa. Eu acho que a CBV tem sido sempre coerente, se mantendo aliada ao Comitê Olímpico Internacional. Se o COI, durante muitos anos, dizia que, em um determinado estudo, se as pessoas atingissem uma determinada taxa hormonal, poderiam jogar. E nós permitimos. A partir do momento que o Comitê Olímpico Internacional disse, em um novo estudo, que existia uma vantagem, a gente não pôde mais permitir. Não existe pressão. A CBV, até pelo seu próprio estatuto, está sempre alinhada com as normas do esporte internacional — falou Radamés. geRead More