A essência do Grêmio é ser inexplicável
Atlético-MG 1 x 1 Grêmio | Melhores momentos | Semifinal | Copa do Brasil 2026
“É, não vai dar”, ouvi neste sábado um gremista dizer, espirituoso, com uns três minutos de jogo, arrancando risadas de outros gremistas. Naquele momento, o Atlético já ensaiava a enorme pressão com a qual encaixotaria o adversário em seu campo de defesa ao longo do primeiro tempo, um movimento que reforçava a sensação de que não vai dar, é claro que não vai dar, não existe a menor possibilidade de dar.
Pois deu. Horas depois, o Grêmio estava classificado à final da Copa do Brasil, amparado pelo empate por 1 a 1 na Arena MRV, resultado até confortável se considerada a vantagem de 2 a 0 no jogo de ida. E gremistas, entre eufóricos e incrédulos, se perguntavam como isso foi possível.
Carlos Vinicius, Renato e Kannemann em comemoração do Grêmio
Lucas Uebel/Grêmio
Existem explicações. A chegada de Renato Portaluppi engajou a torcida e acalmou o elenco; o treinador recuperou jogadores dos calabouços do ostracismo, como Balbuena e Caio Paulista; a passagem para três zagueiros deu confiança ao time; e o Grêmio tem o melhor goleiro desta temporada no futebol brasileiro e um centroavante decisivo, dois mandamentos de um time de futebol.
Mas imagino que os tricolores, ao despertar neste domingo, não estejam lá muito preocupados com explicações. Porque a essência do Grêmio é ser inexplicável. Cada clube tem seu caráter, sua cultura, uma personalidade moldada por décadas de façanhas e vergonhas. O Grêmio é a cara da sua torcida, é a loucura, a gritaria, a fé muitas vezes insensata. É um clube a ser vivido, muito mais do que a ser explicado.
Nas fronteiras da lógica, a presença do Grêmio na final da Copa do Brasil não se explica nem no macrocosmo da temporada nem no microcosmo dos jogos contra o Atlético. O Grêmio atravessou o ano com um time muito limitado, desarrumado na marcação, pobre no ataque. Isso também foi visto nas semifinais. O Atlético teve muito mais volume, muito mais chances – porque de fato tem mais qualidade. Mas os tricolores foram letais como só os copeiros sabem ser.
Renato Portaluppi, técnico do Grêmio
Fernando Moreno / AGIF
E agora aí está o Grêmio, parte na final da Copa do Brasil, parte lutando contra o rebaixamento; parte olhando para a Libertadores de 2027, parte temendo que uma queda retire a vaga já conquistada (a Conmebol proíbe times que não estejam na primeira divisão de disputar o torneio sul-americano). Nada faz sentido, e isso é ser Grêmio – desafiar os fundamentos da lógica, chacoalhar as certezas e jamais, jamais morrer de tédio.
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