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Pausas para hidratação na Copa do Mundo já rendem discussão entre técnicos: “Vai mudar o futebol”

Pausas para hidratação na Copa do Mundo já rendem discussão entre técnicos: “Vai mudar o futebol”

Além da disputa pelas últimas vagas para a próxima Copa do Mundo, a Data Fifa deste mês de março, que acabou nesta terça-feira, ficou marcada pela implementação das pausas para hidratação em vários jogos de seleções. A medida, que será obrigatória nas 104 partidas do torneio, independentemente de horário ou local, gerou debate.
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A Fifa anunciou em dezembro a pausa obrigatória para hidratação na Copa do Mundo de 2026. Ela acontecerá aos 22 minutos de cada tempo e durará três minutos cada. Trata-se de um esforço da entidade máxima do futebol para “garantir as melhores condições possíveis para os jogadores”, com base nas experiências de torneios anteriores, como a Copa do Mundo de Clubes do ano passado.
Tal medida foi implementada em vários jogos de seleções nesta Data Fifa, como por exemplo México contra Portugal, Estados Unidos vs. Bélgica, e Coreia do Sul contra Costa do Marfim. Na disputa entre República Democrática do Congo e Jamaica, pela repescagem mundial. E também no amistoso entre Brasil e França, disputado na cidade de Boston, nos Estados Unidos, no meio da tarde no horário local (16h).
— Isso vai mudar o jogo. É uma pausa tática. Claro que é uma pausa para hidratação, mas durante três minutos o jogo pode realmente mudar, o momentum. Vimos muitos exemplos em outros esportes. É uma situação que você pode tentar ajudar os atletas de uma maneira diferente — comentou o técnico Roberto Martinez, de Portugal.
— Eu gosto, porque é uma oportunidade para nós treinadores falarmos com o time, sobre estratégia. Para mim é interessante, muito bom — declarou Rudi Garcia, treinador da Bélgica.
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Teve gente que não gostou.
— É bom para quem transmite, você tem o comercial, mas esses três minutos mudam o jogo. Não importa o time, se você estiver no ritmo, essa pausa arruína tudo. Pode ajudar se você não estiver jogando bem. Vamos jogar quatro períodos, mesmo que haja intervalo — reclamou o técnico Didier Deschamps.
Para ser honesto, eu não gosto. Não gosto porque corta o ritmo do jogo.”
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Impacto do calor extremo no corpo
A previsão é de que a Copa do Mundo seja realizada sob intenso calor, principalmente nos Estados Unidos, entre junho e julho. Antes da confirmação das pausas para hidratação pela Fifa, o sindicato mundial de jogadores (FIFPro) havia ressaltado a importância de se pensar os horários dos jogos levando isso em consideração.
O ge apurou que a Fifa tem avaliado os riscos relacionados ao clima durante a Copa em coordenação com as cidades-sede, administradores dos estádios e agências nacionais de Canadá, México e EUA. A Fifa contará com suporte meteorológico dedicado durante todo o torneio.
Haverá um modelo escalonado de mitigação de calor. Quando as temperaturas ficarem acima dos limites definidos, se adotará medidas como sistemas de nebulização, ampliação da distribuição de água, adaptação dos turnos de trabalho para funcionários e voluntários.
A Fifa também colocou em curso outras ações para adversidades ligadas ao clima, que vão além do calor. Os estádios são obrigados a contar com procedimentos de evacuação. O calendário de jogos também levou em consideração esse tema e o clima de cada sede, com limitação de partidas nos horários mais quentes do dia e prioridade para estádio cobertos.
O calor extremo provoca não só a grande perda de água do corpo, mas também diminui a intensidade dos movimentos e afeta a concentração do jogador, as decisões que ele toma. Alguns deles chegam a perder até três litros por hora. O impacto do estresse térmico é sistêmico.
— Toda vez que você tem o aumento da temperatura interna, você tem uma queda do desempenho físico e cognitivo. A medida que a temperatura externa influencia para o aumento da temperatura interna, o atleta começa a entrar num risco de saúde. O exercício somado ao calor extremo, a tendência é perder muita água, potássio, elementos naturais, o que dificulta a contração muscular e as sinapses do cérebro para as tomadas de decisão — explicou Bruno Mazziotti, diretor de performance da seleção do Peru e do Real Valladolid, da Espanha.
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— As pausas de três minutos para hidratação ajudam, mas não é o suficiente para atender ao déficit de hidratação de um jogo, ainda mais sob calor extremo. A hidratação não influencia imediatamente a regulação da temperatura do corpo. Ela é importante, mas não resolve 100% do problema. O que influencia mais são medidas antes do início do jogo, até nos dias anteriores. Estratégias durante, como o uso de coletes gelados, toalhas térmicas —comentou Sandro Graham, preparador físico do Orlando City, franquia da Major League Soccer (MLS).
A próxima Copa do Mundo será o primeiro grande torneio de seleções a interromper todos os jogos no meio de cada tempo, por três minutos. Mas a Conmebol introduziu esse tipo de pausa antes, na Copa Libertadores deste ano.
Com informações antecipadas pelo ge, o relatório “Campos em Perigo”, divulgado no ano passado pelas ONGs “Football For Future”, “Common Goal” e “Jupiter Intelligence”, indicou que a Copa do Mundo de 2026 será a última do gênero se não houver mais ações contra a crise do clima. Das 16 sedes da próxima Copa, 10 já ultrapassaram os limites seguros de calor para a prática do futebol.
Ainda de acordo com o relatório, 14 estádios a serem usados no Mundial-2026 excederam os limites de segurança em 2025 para pelo menos três grandes riscos climáticos: calor extremo, chuvas intensas e inundações.
E o calor nos Estados Unidos durante o final da Copa pode ficar pior caso se confirme a formação do El Niño, fenômeno meteorológico, que, resumidamente, provoca o aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico equatorial.
Agência especializada da ONU, a Organização Meteorológica Mundial alertou em relatório neste mês de março que o clima da Terra está mais desequilibrado do que em qualquer outro momento registrado na história. O planeta está absorvendo muito mais calor do que consegue liberar. Os últimos 11 anos foram os mais quentes já medidos.
Polêmica com comerciais nos intervalos
As emissoras que transmitirem a Copa poderão exibir comerciais durante esses intervalos obrigatórios para hidratação. Segundo o site “The Athletic”, as emissoras terão uma janela de cerca de dois minutos e 10 segundos para os comerciais. Mas haveria alguns detalhes no acordo com a Fifa que limitam a venda desse tipo de publicidade.
* Esta matéria faz parte do quadro “Clima em Jogo”, do Redação sportv.
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