Do medo de avião a elogios a Neymar, Manoel passa carreira a limpo e quer nova chance: “Estou 100%”
Manoel está recuperado fisicamente e quer seguir atuando em alto nível no futebol brasileiro. Esse foi o recado dado pelo zagueiro na quase 1h de entrevista ao ge. Livre no mercado após não renovar o seu contrato com o Fluminense, o zagueiro de 36 anos recebeu a reportagem no seu condomínio, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e diz aguardar propostas. Ao mesmo tempo, aproveitou para passar os 14 anos de carreira a limpo.
“Estou fisicamente 100%, estou treinando todo dia. Não apareceu nenhuma proposta ainda, mas estou treinando todo dia, de segunda a sábado, me dedicando e esperando.
— Tive uma lesão no menisco em outubro. Me recuperei muito bem no Fluminense, tive uma recuperação muito boa no final de março e hoje estou apto. Fiz todo tipo de treinos que a gente precisa, de jogo, jogo coletivo, treino de alta intensidade. Estou apto a jogar, estou 100%, me sentindo bem e estou esperando uma oportunidade para poder voltar a jogar, que é o mais importante.
Até o momento, Manoel afirma que recebeu sondagens de clubes da Série B, mas nada concreto o suficiente para virar proposta. Enquanto aguarda o telefone tocar, o zagueiro planejar ter até mais três anos em alto nível e tem mantido a forma com um personal trainer. Ao olhar para trás, não esconde o carinho que tem pelos seus ex-clubes: Fluminense, Corinthians, Athletico-PR e Cruzeiro. Nesta entrevista, ele fala sobre cada um deles.
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Melhor treinador que teve na carreira: “Fernando Diniz”
Manoel em entrevista ao ge
Marcello Neves/ge.globo
“Depois do doping, quem falava que era amigo, sumiu”
O último clube de Manoel foi o Fluminense, clube que defendeu até o final de 2025. Foram 118 partidas, 10 gols, com direito a uma sequência de bolas na rede em três jogos seguidos que rendeu um churrasco no clube pago por ele. Ao falar do Tricolor, ele inevitavelmente toca no nome do técnico Fernando Diniz. Para ele, foi um professor num momento em que se “redescobriu como zagueiro”.
— O Diniz treina muito, tem muitas repetições e você acaba criando confiança, o jeito de jogar te deixa mais leve dentro de campo. O Diniz era maluco, mas era um cara que me ajudou muito. No jogo tinha que fazer a mesma coisa do treino e se errar, f… Ele dizia que tínhamos que fazer aquilo que ia ajudar lá na frente ao Germán (Cano) fazer gol, o Arias fazer gol… Então tinha que fazer assim para chegar lá. Éramos muito cobrados. Treinávamos por duas horas, era muito objetivo. E isso que fez dar certo. O Fluminense teve um ano muito bacana e eu evoluí muito com ele por causa disso. Ele passava muita confiança. Quando você fazia uma jogada certa e as coisas iam acontecendo, você ia ficando mais leve e isso era muito importante.
Também foi no Fluminense que Manoel conquistou o maior título de sua carreira: a Libertadores de 2023. E, de novo, Fernando Diniz está envolvido por ter sido o técnico daquela conquista.
— É um título muito importante, não só para mim, mas para todos os jogadores, para os torcedores e para o Fluminense. Foi uma sensação maravilhosa. Em 2022, começamos a formar um time muito forte e ganhar confiança, os jogadores se conhecendo e tendo liberdade. No treinamento, todo mundo muito sério e focado. Isso foi muito importante para 2023. Foi muito especial. Um título dessa grandeza é muito importante e é um título que vai ficar marcado na minha memória.
Também foi no Fluminense onde Manoel viveu um período complicado. Em 2023, foi suspenso preventivamente por doping depois de testar positivo para a substância “ostarina” após um exame realizado após a goleada por 5 a 1 em cima do River Plate, no Maracanã, pela fase de grupos da Libertadores. Ele nem chegou a entrar em campo na partida, mas foi sorteado pela entidade.
Pelas regras da suspensão, Manoel não podia frequentar o Centro de Treinamento Carlos Castilho na Barra da Tijuca e nem mesmo encontrar os companheiros de equipe pessoalmente. A suspensão poderia render anos de exclusão, mas ele conseguiu provar a sua inocência e ficou fora de combate apenas na suspensão preventiva de oito meses.
— (O doping me ensinou) a acreditar cada vez mais na minha família, acreditar mais em Deus… Não ser tão aberto e ter poucas amizades, acho que é importante ter poucas amizades e ter a família por perto. Não dar muita liberdade para ter muita amizade. É uma coisa que, hoje, levo para o resto da minha vida. Mas com muita fé e dedicação, consegui provar minha inocência. É uma página virada, mas é algo que aprendi muito na minha carreira”
— Depois que aconteceu o doping, quem falava que era meu amigo, sumiu. Fiquei só eu e minha família, todo mundo se afastou de mim.
Manoel renovou com o Fluminense para 2025
Marcelo Gonçalves/FFC
“Não fui no enterro do meu pai”
Outro clube marcante na carreira de Manoel foi o Athletico-PR, clube que o revelou e onde mais atuou na carreira — foram 263 jogos no total. Ao falar do Furacão, o zagueiro chega a se emocionar e admite se arrepiar com duas passagens: o apoio que recebeu após um caso de racismo e o abraço recebido dos torcedores após a morte de seu pai.
O episódio de racismo aconteceu em 2010, em um jogo entre Athletico-PR e Palmeiras pela Copa do Brasil. O então zagueiro alviverde Danilo xingou e cuspiu em Manoel, que procurou a polícia para registrar um boletim de ocorrência após a partida. Ele foi condenado pela 18ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo a pagar 540 salários mínimos (R$ 366 mil) na época, por injúria qualificada. Nesse ínterim, o zagueiro rubro-negro sempre foi defendido em Curitiba.
— É muito triste. Eu lembro bem. Foi um jogo contra o Palmeiras no antigo Allianz Parque. Era um jogo da Copa do Brasil, o Danilo se não me engano, na disputa de bola, trocamos empurrões e ele falou “seu macaco do c…”. Na hora fiquei assustado, chamei meus companheiros e todo mundo chamou o juiz. Mas ali no jogo ficou por isso mesmo, o juiz não fez nada. No jogo de volta, a torcida do Athletico-PR fez um mosaico muito lindo. Eu lembro muito bem disso. Foi um momento especial, que me ajudou muito nesse momento difícil. Eu era novo, não tinha muita dimensão do que era. Fiquei assustado, mas consegui superar.
Sobre a morte do pai, é preciso voltar mais no tempo. Manoel nasceu em Bacabal, no interior do Maranhão, mas desde os 16 anos já defendia o Athletico-PR nas categorias de base. Ele já jogava nos profissionais quando soube da morte de seu pai e, muito abalado, pensou em desistir da carreira com apenas 21 anos. Além do apoio da mãe, o zagueiro foi abraçado pelo clube para não abrir mão de seu sonho.
— Foi um jogo que o Neymar fez seis gols (dois foram anulados). Meu pai faleceu 11 horas da manhã e o jogo era 18 horas. Falei com a diretoria que meu pai faleceu, eles falaram que precisavam muito de mim porque o time estava na zona de rebaixamento. Pediram para eu jogar e eu joguei. É claro que a gente não joga da mesma forma, né? Eu joguei e perdemos o jogo de 4 a 1. Neymar fez seis gols, mas só valeram quatro. Em dois deram impedimento, que não estava (impedido). Se tivesse VAR, ele teria feito seis gols. Foi um momento difícil. Não fui no enterro do meu pai. O jogo foi no sábado e na quarta já tinha jogo. A diretoria pediu para ficar e ajudar. Foi um momento difícil. Me arrependo. Se fosse hoje, eu teria ido no enterro do meu pai.
O Athletico-PR me formou como homem, me ajudou muito no momento do falecimento do meu pai. Em 2011, caímos (no Brasileirão). Tive propostas para sair e estava num momento muito bom. Mas em conversa com o Petraglia, decidimos ficar, conseguimos subir o clube. Hoje, sou muito grato por tudo o que o clube fez comigo
Zagueiro Manoel do Atlético-PR
Site oficial do Atlético-PR/Divulgação
“Teve uma turbulência forte, todos estavam com medo”
Apesar da boa passagem no Athletico-PR, faltavam os títulos. Algo que ele conheceu depois de se transferir para o Cruzeiro, em 2014. As taças vieram aos montes: a do Campeonato Brasileiro de 2017, as das Copas do Brasil de 2017 e 2018 e o título mineiro de 2018. Na Toca, ele pegou dois times emblemáticos: o dos pontos corridos de Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart, e o do mata-mata de Fred e Arrascaeta. Escolher o melhor? Difícil escolher.
— Foi muito importante ter ido para o Cruzeiro. Todo mundo me recebeu muito bem. O nível da zaga era muito grande, tinha Dedé, Léo, Bruno Rodrigo… Era um time muito bom. E aí o seu nível aumenta ainda mais, como concentração e preparação. Muda tudo. Foi muito importante para o meu crescimento, onde consegui conquistar vários títulos. Tinha Dagoberto, Wllian Bigode, Julio Baptista, Everton Ribeiro, (Ricardo) Goulart… Foi um clube muito especial na minha vida e que me transformou como jogador.
— Cheguei em 2014. Esse time ainda tinha Goulart e Everton Ribeiro. Em 2017 e 2018 já era o time do Mano Menezes, que tinha Thiago Neves, Arrascaeta, Fred. Era um time muito forte. É difícil falar (a diferença do time bicampeão brasileiro para o time bicampeão da Copa do Brasil), mas o time bicampeão brasileiro era mais forte. Everton Ribeiro e Goulart estavam num momento muito bom, eles decidiam jogo de forma muito tranquila. O time de 2013 e 2014 era mais forte.
Manoel cai na gargalhada ao lembrar do seu medo de avião. Mas ele entrega logo: não é só ele. Para justificar, cita uma viagem aérea feita nos tempos de Cruzeiro, quando alguns jogadores do elenco se desesperaram por causa do mau tempo. Perrengue que, hoje, ele conta com bom humor.
— Até hoje tenho muito medo de avião. Quando falam que o jogo é fora, tenho medo, muito medo. Teve uma história que aconteceu, estava no Cruzeiro. A gente tinha ido jogar no Espírito Santo. A gente estava voltando, tínhamos empatado o jogo. Teve uma turbulência muito forte, comecei a chorar junto com o (Lucas) Romero, que hoje é o capitão. Todo mundo estava com medo. Depois que pousou, ele ficou brincando que eu estava chorando. Aí eu falei que ele estava chorando também. É uma história muito boa e que lembro até hoje, mas foi um perrengue muito grande. Foi uma viagem muito difícil.
Manoel Cruzeiro
Gustavo Aleixo
“Queria muito ter ficado lá”
No Corinthians, Manoel teve uma passagem curta, mas com bons números. Ao lado de Gil, formou a dupla de zaga menos vazada do Campeonato Brasileiro na época e teve no companheiro um espelho para crescer. Embora o Timão quisesse manter o zagueiro, não foi possível: ele estava emprestado pelo Cruzeiro, que arcava com 30% do seu salário. Após o fim do vínculo, ele retornou a Belo Horizonte.
— Foi uma passagem muito boa. Joguei 59 jogos, fui titular, joguei com Gil. Fui tricampeão paulista, fiz gols importantes. Fiz três gols em clássicos. Queria muito ter ficado lá, mas, infelizmente o Corinthians não exerceu o direito de compra, depois eu voltei para o Cruzeiro e fui para a Turquia. Mas foi uma passagem muito boa. Fui campeão num dos maiores times do Brasil.
Se no Fluminense Manoel não esconde a admiração por Fernando Diniz, no Corinthians, o mesmo vale para Gil. Inclusive, ele o colocou entre os melhores companheiros de zaga que teve na carreira. Os elogios seguem durante a entrevista.
— O Gil é um cara muito do bem. É um cara que me ajudou muito no Corinthians. Ele já tinha jogado, saído e voltado do Corinthians. Ele me mostrou o que é o Corinthians. Ele mostrou que é muita pressão, que tinha que estar muito focado. Ele, Cássio e Fagner me ajudaram muito. Conseguimos ser tricampeões paulista e foi um momento muito especial que vou guardar para sempre na memória.
Manoel, zagueiro do Corinthians, durante treinamento
Daniel Augusto Jr/Ag.Corinthians
Por fim, Manoel teve uma rápida passagem pelo Trabzonspor, da Turquia. E foi rápida mesmo: fez apenas um jogo em que, curiosamente, foi campeão da Copa da Turquia. O zagueiro diz que até hoje não sabe os motivos de não ter jogado mais.
— É difícil falar. Estava muito bem. Joguei um jogo da Copa da Turquia e fomos campeões. Fazia 10 anos que o clube não conquistava o título. Joguei um jogo, mas depois o treinador nunca mais me colocou. Não sei o motivo. Treinava bem, às vezes estava cotado para jogar, mas aí chegava na hora e ele mudava. É difícil falar. Fiquei por lá por oito meses, foi difícil estar lá treinando bem e não jogar. Mas faz parte da vida. Temos que manter a fé e seguir trabalhando. Fui campeão, isso que foi importante. Não havia nenhuma explicação (sobre a falta de chances). O treinador era turco e não falava nada, nem chamava para conversar. Tinha um companheiro de time brasileiro, o Guilherme, que falava que eles eram assim frios. Não tinha o que fazer, só trabalhar e esperar a oportunidade. Mas ela só apareceu uma vez.
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