Brasileirão é amor; Copa do Brasil é paixão
Vitória 2 x 0 Flamengo | Melhores Momentos | 5ª fase | Copa do Brasil 2026
Na Arena Condá, o goleiro Neto, do Botafogo, foi à área nos acréscimos para tentar, em desespero, evitar a eliminação para a Chapecoense; no Barradão, o poderoso Flamengo passou os últimos minutos lançando bolas na área, feito um time escocês dos anos 80, para tentar, em desespero, evitar a eliminação para o Vitória.
Não adiantou. Ambos caíram, assim como o São Paulo caiu para o Juventude, assim como o Bahia caiu para o Remo, em mais uma daquelas semanas que reforçam as delícias de um mata-mata. A Copa do Brasil confirmou sua vocação para o caos: três dos seis primeiros colocados do Brasileirão foram eliminados, enquanto os três últimos despacharam do torneio equipes que estão muito à frente deles na tabela do campeonato nacional.
+ Veja como está a classificação do Brasileirão
+ E quem se classificou às oitavas de final da Copa do Brasil
Vitória x Flamengo, pela Copa do Brasil
Márcio José/AGIF
Meu bruxo (?) Julio Cortázar, contista e romancista dos melhores que a humanidade já pariu, defendia que em um romance se vence por pontos, e em um conto se ganha por nocaute. Os pontos corridos são um romance de 500 páginas, uma longa urdidura tecida com paciência, rodada após rodada; o mata-mata é um conto avassalador, duas páginas que nos pegam desprevenidos e nos arrebatam.
Gosto de campeonatos cozidos a fogo baixo. Acho justo que o melhor time do país seja definido por regularidade, feito um fundista, um Mo Farah da vida, que sabe a hora em que precisa acelerar e quando convém manter o compasso. Mas como é boa a fritura de um mata-mata, como é boa a adrenalina que brota do disparo inicial em uma prova de velocidade – em que qualquer distração pode ser fatal.
Juventude 3 x 1 São Paulo | Melhores Momentos | 5ª fase | Copa do Brasil 2026
Os pontos corridos são o amor construído na cadência do cotidiano, nas pequenas descobertas, na intimidade que se revela aos poucos, nas risadas vendo alguma besteira na tevê. O mata-mata é a paixão dos poetas, dos bêbados, dos gatos que vagam de madrugada pelos telhados em busca de alguma aventura.
Às vezes, é possível viver os dois mundos, como o Flamengo no ano passado ou o Botafogo em 2024 – campeões nos pontos corridos do Brasileirão e no mata-mata da Libertadores na mesma temporada. Mas é raro. O futebol parece pedir que os times se decidam: ou o amor, ou a paixão.
Gol da classificação do Juventude contra o São Paulo
Luiz Erbes/AGIF
Nesse sentido, a paixão parece mais democrática. A Copa do Brasil, disputada desde 1989, já teve 17 campeões diferentes. É o mesmo número de vencedores do Campeonato Brasileiro, com a diferença de que ele (nem sempre exclusivamente em pontos corridos) é jogado, em diferentes formatos, desde 1971 – ou antes, se considerarmos as nomenclaturas anteriores, reconhecidas pela CBF.
Passadas as surpresas desta semana, restaram 16 times na Copa do Brasil. Apenas três deles são da Série B – Chapecoense, Fortaleza e Juventude. Talvez não consigam ir muito mais longe, e o mesmo vale para alguns clubes de menor investimento da Série A. Mas se você viu as cenas de comemoração no Alfredo Jaconi, na Arena Condá, no Barradão ou no Mangueirão, saberá reconhecer torcidas que valorizam uma boa noite de paixão.
Jogadores do Remo comemoram classificação na Copa do Brasil
Samara Miranda / Ascom Remo geRead More


