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Neymar na Copa: o conforto do nome superou a realidade do campo

Neymar na Copa: o conforto do nome superou a realidade do campo

Ancelotti anuncia lista final dos convocados da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo
O país não vivia a expectativa de solucionar um mistério de tamanha envergadura desde a primeira morte de Odete Roitman, em 1989. E a resposta da trama só poderia ser oferecida por um roteirista. No caso, Carlo Ancelotti, que na tarde desta segunda-feira anunciou os 26 nomes que vão em busca do Hexa na Copa do Mundo 2026.
Entre a realidade do que o campo vem mostrando e a comodidade de chamar Neymar, o técnico italiano optou pelo segundo desfecho. A convocação de Neymar parece mais uma opção confortável do que uma busca desesperada por um protagonista — mesmo que a Seleção esteja carente de jogadores que assumam, dentro de campo, o protagonismo necessário para disputar de fato o título. Hoje, nada indica que Neymar possa voltar a ser um diferencial — seu auge foi tão memorável que é difícil desapegar da crença em uma súbita recuperação.
Parece inegável que existe um déficit geracional, ao menos quando se considera os elevados padrões históricos do futebol brasileiro. A nominata não mostra uma seleção com qualidade comparável às nossas melhores formações, mesmo várias que não venceram uma Copa. As laterais são um problema evidente. No setor ofensivo, o elenco carece de potencial criativo, circunstância agravada (até agora, pelo menos) pelo desempenho tímido de Raphinha e Vinicius Jr.
Neymar aparece no telão durante a convocação de Ancelotti
Reuters
A esse contexto é preciso somar as lesões de Rodrygo e Estêvão, o que também abriu caminho para convocação de Neymar. Apenas por esse cenário, pelos nomes à disposição, não chega a ser uma insanidade completa levá-lo entre os 26 eleitos (ainda que não fosse a minha escolha). Mesmo que a escolha não tenha respaldo no desempenho de Neymar em campo após a grave lesão sofrida em 2023, e especialmente nas últimas partidas pelo Santos.
No entanto, a escolha de Ancelotti não parece buscar amparo esportivo e me arrisco a dizer que é, sobretudo, uma decisão diplomática, tendo em vista a relação que vários jogadores do grupo têm com Neymar e o apelo emocional que o jogador desperta em grande parte da torcida. Acredito que, ao chamá-lo, Ancelotti tenta convocar também o país para abraçar a Seleção.
Algumas confirmações são especialmente bem-vindas, como Danilo (Botafogo), Endrick (Lyon), Luiz Henrique (Zenit) e Rayan (Bournemouth), pois oferecem um fôlego necessário ao setor ofensivo. Outra grata surpresa é a convocação de Weverton — o goleiro gremista tem experiência, é seguro e vive grande fase. Em certa medida, surpreende a ausência de João Pedro (Chelsea), atacante que poderia desempenhar várias funções.
Ancelotti explica Neymar e Weverton: “Jogadores experientes, que não precisamos testar”
Mesmo com todas as deficiências, com o saldo negativo geracional, é um grupo que poderia ter chegado ao estágio atual em um nível muito mais competitivo, se não fosse o ciclo caótico proporcionado pela CBF. Após a chegada de Carlo Ancelotti, a situação melhorou e algum padrão de jogo já pôde ser observado nos dez jogos sob comando do técnico italiano.
Não é o ideal, obviamente, mas ao menos abre certa perspectiva e autoriza algum otimismo. Se Neymar representa a esperança no improvável, a Copa do Mundo continua sendo o único lugar onde acreditar no improvável ainda parece razoável.
Público festeja convocação de Neymar no lado externo do Museu do Amanhã geRead More