Camisa de Pelé na final da Copa de 1958 salvou museu em Alagoas e vai a leilão por R$ 30 milhões
Felipe Andreoli e Maurício Meirelles narram a final da Copa de 1958
A camisa que Pelé usou na final da Copa de 1958 voltou a ganhar nesta terça-feira destaque internacional. Leiloada em 2004 para salvar o Museu dos Esportes de Maceió, a peça vai ser leiloada neste mês pelo comprador daquela época, com valor estimado em mais de 6 milhões de dólares, aproximadamente R$ 30 milhões.
A casa de leilões Sotheby’s foi procurada pelo comprador particular, que não divulgou a identidade, e anunciou que o novo leião será realizado entre 29 de junho e 16 julho, durante a Copa.
Camisa de Pelé na final de 1958 vai ser leiloada neste ano
Sotheby’s
Camisa no museu de Alagoas
A camisa de Pelé chegou a Alagoas por intermédio de Dida (Edvaldo Alves Santa Rosa), reserva do rei na Copa do Mundo de 1958, na Suécia.
Em 1993, quando o museu com nome do craque alagoano foi inaugurado justamente no Estádio Rei Pelé, em Maceió, o irmão de Dida, Edson Santa Rosa, doou a peça, que ficou em exposição até 2003, atraindo a atenção dos turistas e frequentadores do estádio. Era a joia da coroa.
Em 2019, o então diretor do Museu dos Esportes, Lauthenay Perdigão, falecido em 2021, quebrou um longo silêncio sobre o assunto e contou ao ge como foi a história.
— Essa camisa estava com o Edson. O Dida, quando veio, deixou a camisa com o irmão. Quando ele (Dida) chegou a Maceió, a gente conversou sobre a camisa, aí ele disse: ”Leve essa camisa para o museu”. E o Edson concordou. Quando eu tive a ideia de colocar a camisa em leilão, eu fui direto no Edson e expliquei a situação do museu para ele e que a solução seria leiloar a camisa. Falei: “Já que a camisa estava com você e foi por você que ela chegou até mim, eu te dou 50% da venda”
Camisa de Pelé na final de 1958 vai ser leiloada
Sotheby’s
Segundo Lathenay, a camisa foi arrematada no leilão da Christie’s em 2004 por 59 mil libras (105.600 mil dólares, aproximadamente R$ 300 mil na época). Ele achou o valor muito baixo.
– O museu vivia uma terrível crise financeira. Paredes mofadas, goteiras e o risco de perder todo o acervo. Eram muitos problemas e, infelizmente, tivemos que colocar a camisa em leião. Mas fui pego de surpresa e tive que pagar o imposto de renda. Foram R$ 36 mil. Tive que pagar advogado para resolver a questão do imposto de renda, paguei outro advogado para resolver o negócio com a Christie’s. Tive que pagar o dinheiro do Edson, irmão do Dida… – explicou Lathenay, que, com os recursos, manteve o museu aberto com menos de R$ 60 mil.
— Eu tinha prometido a ele a metade do dinheiro recebido. No fim, sobraram R$ 52 mil. Fiz reforma, deu para comprar cadeiras para o auditório, deu para comprar móveis que os cupins haviam estragado… Deu para endireitar uma infiltração, que estava prejudicando, e até comprar uma máquina fotográfica. Todo o material para melhorar o museu.
No museu, o jornalista Lauthenay Perdigão e os irmãos Santa Rosa: Wilson, Luiz, Dida e Edson
Arquivo Museu dos Esportes
Edson Santa Rosa, falecido neste ano, disse em 2019 ao ge que foi difícil desapegar da camisa histórica. Era de Pelé, depois foi do irmão Dida e também de seu pai. Era um peso grande.
— Foi um presente e se tornou uma memória… Como Dida recebeu em um momento especial, era algo importante. Foi muito bem cuidada e ficou um tempo com a nossa família, e também foi bem cuidada no museu, passando um bom tempo exposta. A possibilidade do leilão foi em uma emergência — lembrou o irmão de Dida, que entendeu o pedido de Lauthenay.
— Quem tomava conta da camisa era o meu pai, que recebeu de presente do Dida. Após o seu falecimento, na iminência de perder a camisa, resolvemos doar ao museu. Sabíamos como era mantido o museu, que também passou por uma série de dificuldades de ordem técnica (estrutura), de vazamento e outros… Então, para ajudar o museu, resolvemos presentear.
Casa de leilão mostra os detalhes da camisa: a mesma de 1958
Sotheby’s
Arrependimento
Neta de Lauthenay, Marcela Acioli hoje é responsável pelo museu em Maceió e disse nesta terça que a família não vai receber nenhum centavo pelo novo leilão.
— O museu não ganha mais com o novo leilão. Na época, ela foi vendida para salvar o museu, que estava passando por inúmeros problemas e corria sérios riscos de fechar. Uma das coisas que meu avô mais falava era do arrependimento de ter leiloado. A sensação de saber que essa preciosidade já fez parte do nosso acervo é de extremo orgulho, porque só engrandece o nosso museu. Porém, é inevitável não ter esse sentimento de frustração por não ter conseguido outra forma para resolver o problema e a venda dela ter sido a única forma (à época) encontrada. Ele fez o que podia ser feito, sabe? Temos certeza disso. Mas perdemos, talvez, a nossa maior peça. E quando falo nós, não falo o museu. Falo dos alagoanos, dos brasileiros.
Registro da camisa de Pelé em 1958 em exposição no museu de Maceió
Museu dos Esportes
Ao anunciar o leilão de 2026, a Sotheby’s destacou que a autenticidade da camisa de Pelé de 1958 foi comprovada por campeões mundiais em Maceió.
— Foi atestada por quatro membros da seleção campeã da Copa do Mundo de 1958. Além do próprio Dida, outros três campeões confirmaram a procedência da camisa número dez: Nilton Santos, Orlando Peçanha e Mário Zagallo, todos os quais visitaram o museu e autenticaram a peça. A camisa foi posteriormente oferecida em leilão público em setembro de 2004, na Christie’s, ocasião em que toda a sua história foi documentada formalmente por escrito pelo então proprietário. A camisa não é exibida ao público há mais de duas décadas.
Museu dos Esportes foi inaugurado em 1993, em Maceió
João Alvim/GloboEsporte.com
O peso da camisa 10
Na final de 1958, Pelé marcou dois gols e foi o destaque da goleada por 5 a 2 sobre a Suécia, na final da Copa. O rei tinha apenas 17 anos e a camisa 10, azul, virou um dos maiores símbolos do futebol.
Como a Suécia era a anfitriã da Copa, teve preferência na escolha pela cor da camisa na decisão. A deles era também amarela. Às pressas, Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira, comprou camisas azuis em Estocolmo e pediu que fossem costurados os números dos atletas e os escudos da CBD. O resto virou história. geRead More


