Da revolução de Cruyff à seleção de De Jong e Memphis: a eterna busca da Holanda pelo mundo
Da revolução de Cruyff à seleção de De Jong e Memphis: a Holanda tenta o mundo de novo
Uma Seleção muito maior que sua sala de troféus.
A conquista da Eurocopa de 1988, a única de sua história, não condiz com o tamanho e a importância da seleção holandesa para o mundo.
A Holanda ocupa um lugar muito particular na história do futebol porque seu impacto é bem maior do que sua galeria de títulos. Poucas seleções influenciaram tanto a maneira de jogar quanto a geração do “futebol total”. A movimentação constante, a ocupação racional dos espaços, a pressão alta e a ideia de que todos participam do jogo nasceram ali de forma quase revolucionária.
Mesmo sem conquistar aquela Copa, em 1974, a Holanda ajudou a moldar o futebol moderno. Seu legado atravessou décadas, influenciou clubes, treinadores e escolas táticas em todo o planeta.
Johan Cruyff joga contra a Alemanha na Copa do Mundo de 1974, pela Holanda.
Getty Images
Talvez por isso exista uma sensação curiosa quando se fala da seleção holandesa. Ela nunca parece pequena pela ausência do título. Pelo contrário. A Holanda é tratada como gigante porque seu peso histórico vai além das conquistas. Como se a maneira de jogar tivesse construído uma relevância própria, independente do troféu final.
Sem contar que os feitos positivos não se resumiram a uma única Copa do Mundo.
O país revela grandes jogadores em altíssima escala.
Toda geração é recheada de atletas do mais alto nível e todo mundial chega com muita força e respeito dos adversários.
Ao mesmo tempo, existe uma relação permanente entre genialidade e uma obra inacabada em sua trajetória. Quase toda grande geração do país deixou a impressão de que faltou muito pouco. Há mais de 50 anos, a Holanda alterna momentos de revolução do futebol jogado, encanto com sua capacidade técnica, disputas de semifinais e finais, mas nenhuma conseguiu fechar o ciclo com o título.
A equipe desse ano não joga um futebol revolucionário, nem tem uma geração de talentos individuais tão brilhante como em outros tempos, mas chega com nível suficiente pra encarar e ser muito respeitado por qualquer adversário.
Ronald Koeman em Holanda x Gibraltar pelas eliminatórias da Eurocopa
REUTERS/Gonzalo Fuentes
A Holanda atual continua fiel à ideia de controlar o jogo com a bola, mas hoje faz isso com menos rigidez e mais pragmatismo. O time do técnico Ronald Koeman tenta acelerar quando encontra espaço, pressiona forte após a perda da posse de bola e usa muito a mobilidade dos jogadores de frente para desmontar marcações.
O meia Frenkie de Jong segue sendo o centro de tudo. É ele quem dita o ritmo, limpa a saída sob pressão e conecta defesa e ataque com naturalidade. Quando encontra liberdade, a Holanda cresce coletivamente. Ao redor dele, Xavi Simons entrega grande criatividade, Gakpo ataca os espaços com agressividade e Frimpong dá profundidade quase o tempo inteiro.
Talvez o aspecto mais interessante dessa seleção seja o equilíbrio. Em outros ciclos, a Holanda costumava encantar ofensivamente, mas deixava espaços demais sem a bola. Agora parece mais consciente defensivamente.
Van Dijk continua sendo a referência técnica da defesa, enquanto nomes como Van de Ven e Timber aumentam a capacidade física e a velocidade de recuperação da linha.
Van Dijk e Reijnders garantiram a vitória da Holanda sobre a Noruega
ANP via Getty Images
Ainda assim, existem dúvidas. A principal delas passa pela dependência criativa de De Jong. Sem ele, o time perde fluidez. Também falta um centroavante realmente dominante. Memphis Depay continua importante pela experiência e pela leitura do jogo, mas a equipe nem sempre transforma volume ofensivo em eficiência.
Apesar dessa deficiência, as melhores atuações ofensivas da equipe nesse ciclo contava com um quarteto de maior mobilidade.
Um 4-3-3, variando pra um 4-2-4 com bola e com muito dinamismo, tendo:
Gakpo partindo da esquerda e atacando na diagonal;
Frimpong abrindo pela direita e acelerando no espaço criado;
Xavi Simons circulando por dentro e sem posição fixa;
E Memphis recuando para criar superioridade técnica
É um modelo que favorece transição rápida e pressão pós-perda, além de aumentar a imprevisibilidade ofensiva.
O ponto forte dessa configuração é a mobilidade constante. Os quatro são jogadores de condução, aceleração, atacar profundidade; sabem jogar nas costas do volante e de frente para o zagueiro; e ainda pressionam na marcação.
Além deles, Reijnders chegando de trás complementa muito bem esse desenho porque entra bastante na área e ocupa espaços que o falso 9 cria.
Ainda tem o maestro e excelente De Jong por trás para refinar qualquer jogada.
Frenkie de Jong aquece antes de Holanda x Finlândia
Reuters
O meia do Barcelona, em um dia de grande inspiração, é capaz de fazer a Holanda atingir um nível de desempenho de time favorito ao título.
Mas, se for bem marcado, a capacidade de jogo de sua seleção cai drasticamente.
O problema é que esse ataque perde presença física dentro da área. Contra defesas muito baixas, às vezes falta um jogador de referência para finalizar cruzamentos ou prender zagueiros. Por isso Koeman alterna momentos de maior mobilidade com opções mais posicionais.
Taticamente, é uma seleção flexível. Contra adversários inferiores, deve controlar posse e território. Contra equipes mais fortes, tende a baixar um pouco o bloco e acelerar em transição, principalmente pelos lados. Em alguns jogos, Koeman já demonstrou disposição para alternar estruturas e proteger melhor os espaços às costas dos alas.
No geral, a sensação é de uma Holanda mais sólida que espetacular, mais coletiva que genial e mais equilibrada que qualquer geração recente. Talvez não tenha o talento exuberante de outras décadas, mas parece uma equipe mais preparada para jogos grandes. Em torneios curtos, isso costuma pesar bastante.
Xavi Simons é um dos principais nomes da seleção atual da Holanda
Getty Images
Não chega como favorita, mas entra no grupo das seleções capazes de eliminar qualquer adversário – especialmente se De Jong estiver saudável e Xavi Simons estiver – de fato – recuperado da lesão que o tirou das últimas rodadas da Premier League e confirmar o salto definitivo como um dos mais talentosos jogadores da europa.
Ao longo das últimas décadas, a Holanda ajudou a redefinir o jogo e levou ao limite a ideia do futebol como um esporte coletivo, fluido e inteligente. Seu impacto atravessa décadas e fronteiras.
Ainda assim, falta o título mundial para completar sua própria história.
A seleção atual parece menos refém da própria estética. Buscou mais pragmatismo e equilíbrio. Como se, pela primeira vez em muito tempo, a Holanda estivesse menos preocupada em representar uma ideia de futebol e mais focada em realizar o sonho da conquista.
Em 1974, a Holanda começou a pintar uma obra-prima, através das mãos de seu maior artista, Johan Cruyff, e, 52 anos depois, ela segue inacabada. geRead More


