RÁDIO BPA

TV BPA

Uma Copa do Mundo de dar orgulho a Edgar Morin

Uma Copa do Mundo de dar orgulho a Edgar Morin

Em jogo de abertura da Copa, México vence África do Sul no Estádio Azteca
Desmarquem as reuniões, adiem os compromissos, arrumem um atestado se for preciso: a Copa do Mundo começou!
Nas transmissões da Globo, do ge tv e em conversas espalhadas por todos os cantos, há algo inescapável: Qual será a grande surpresa? Qual favorito cairá antes da hora? Que história inesperada surgirá nas próximas semanas?
+ 🔍 Adicione o ge nas suas fontes favoritas do Google
+ Confira a tabela completa da Copa do Mundo
Toda Copa do Mundo é cercada por uma incerteza fascinante, capaz de desafiar previsões, estatísticas e consensos. Uma dinâmica da Edgar Morin, filósofo francês que nos deixou no último dia 29 de maio, dedicou sua vida a estudar.
Edgar Morin
Todos os direitos reservados
Esta será a primeira Copa do Mundo sem Morin. Nascido em 1921, ele tinha apenas nove anos quando o Uruguai levantou a primeira taça. Assistiu à ascensão de Pelé, ao brilho de Cruyff e Maradona, à queda e à redenção de Ronaldo Fenômeno, ao domínio da Espanha, ao trauma do 7 a 1 e à consagração definitiva de Messi em 2022.
Apaixonado por futebol, poucos eventos sintetizam tão bem sua visão de mundo quanto uma Copa: um lugar em que lógica e acaso convivem, onde planejamento e improviso se encontram e no qual o imprevisível frequentemente derrota o provável. Quem diria que o Japão eliminaria a Alemanha ainda na primeira fase da última Copa? Ou que o Marrocos chegaria até uma semifinal?
Entre zebras e reviravoltas, o Mundial é a síntese do que Morin acreditava enquanto filósofo: caótico, imprevisível, complexo e absurdamente apaixonante.
Até onde o Brasil chega na Copa? Elenco da Globo e ge tv palpita resultados dos jogos
A principal contribuição de Morin para a ciência contemporânea foi a Teoria da Complexidade, também conhecida como Pensamento Complexo.
Em oposição à tradição que fragmenta a realidade em partes isoladas para compreendê-la, ele defendia que os fenômenos humanos, sociais, econômicos e culturais só podem ser entendidos a partir das relações que estabelecem entre si. Sua proposta era observar como diferentes fatores interagem ao mesmo tempo.
Matías Manna, analista da Argentina campeã do mundo em 2022, cita suas ideias em trabalhos sobre futebol e aprendizagem. Paco Seirul·lo, que ajudou a construir a metodologia do Barcelona ao lado de Cruyff, vê em Morin uma das bases conceituais de seu pensamento. José Mourinho estudou sua obra na universidade. Marcelo Bielsa recomendava sua leitura a jovens treinadores.
Tudo isso porque, durante muito tempo, o futebol foi estudado em partes. Havia a preparação física, o treinamento técnico e a escolha do esquema tático. Montar o time era somar essas partes, como se desempenho coletivo fosse apenas a soma dos desempenhos individuais.
Só que o mundo não é algo fixo. As pessoas mudam, a sociedade muda e a forma como produzimos conhecimento também.
+ Afinal, qual é a identidade tática do futebol brasileiro?
+ Tuchel, Mourinho e a escola da aprendizagem guiada
+ José Mourinho e a descoberta guiada
+ Entenda a filosofia tática de Pep Guardiola e Fernando Diniz
A partir dos anos 1980, alguns pesquisadores e treinadores passaram a tratar o jogo como um sistema de relações, não uma coleção de habilidades separadas. Em Portugal, Vítor Frade desenvolveu a Periodização Tática, baseada em uma ideia simples: se o jogo é integrado, o treino também precisa ser.
A Periodização Tática ajudou a formar a escola portuguesa de futebol. Seu maior expoente foi José Mourinho. Mais do que colecionar títulos, ele popularizou uma visão em que o físico, o técnico, o tático e o mental deixavam de ser departamentos independentes para se tornarem manifestações de um mesmo fenômeno: jogar futebol.
José Mourinho pode voltar ao Real Madrid após mais de 10 anos
Efe
Enquanto isso, na Espanha, Paco Seirul·lo percorria caminho semelhante. Integrante da revolução metodológica do Barcelona, defendia que o atleta deveria ser entendido como um sistema complexo, formado por estruturas que se influenciam mutuamente. Seu trabalho ajudou a moldar uma das metodologias mais influentes da história do futebol.
Nos anos 2000, essas ideias passaram a dialogar com áreas como neurociência, pedagogia, teoria dos sistemas e dinâmica ecológica. O foco deixou de ser apenas a execução dos movimentos e passou a incluir percepção, tomada de decisão e adaptação constante aos problemas do jogo.
Querem um exemplo de como o pensamento de Morin está presente nesta Copa do Mundo?
A munhequeira tática utilizada por Carlo Ancelotti no treinamento da seleção brasileira é um bom começo. O acessório permite que os jogadores consultem instruções de bola parada durante os exercícios. Parece um detalhe banal, mas revela uma mudança importante na forma de pensar o treinamento. A preparação física, a tomada de decisão e a organização tática acontecem simultaneamente.
Pulseira tática? Veja o novo acessório da Seleção nos treinos para calibrar a bola parada
+ Estilo NFL: Seleção adota munhequeira tática para ensaiar jogadas de bola parada
+ Ancelotti pop star: técnico custa caro e tem grupo seleto de propagandas
+ Romário estimula geração atual contra jejum: “Pressão dá um tesão do c…”
A convocação da Inglaterra feita por Thomas Tuchel é outro exemplo. O alemão deixou fora da Copa jogadores talentosos como Trent Alexander-Arnold, Cole Palmer e Harry Maguire. A lógica é pensar talento individual não garante desempenho coletivo. Mais importante do que reunir os melhores nomes é construir relações que funcionem dentro do grupo.
É uma mudança de pergunta. Durante décadas, o futebol tentou descobrir quem era o melhor jogador. A lógica da complexidade pergunta outra coisa: como as relações entre os jogadores produzem vantagem?
Se Messi já era considerado o melhor jogador do mundo em 2010, por que só conquistou a Copa em 2022? Se Vinicius Júnior é um dos atletas mais decisivos do planeta, por que ainda não reproduziu na seleção o mesmo desempenho que apresenta em seu clube?
Raphinha e Vini Jr. tentam repetir sucesso de famosas duplas brasileiras em Copas
O problema estava nos jogadores ou nas relações ao redor deles? Morin provavelmente escolheria a segunda hipótese. Para ele, compreender um fenômeno significa olhar menos para os elementos isolados e mais para as conexões que eles estabelecem.
Ainda assim, permanece a pergunta que ninguém consegue responder com segurança: quem vai ganhar a Copa do Mundo? Seja o polvo Paul em 2010, um modelo matemático que aponta uma eliminação do Brasil para o Japão ou o bolão da firma, todo mundo tenta prever o futebol.
Cahe Mota revela como Ancelotti treinou a seleção nesta quinta
É uma tentativa de controlar o imprevisível. Morin diria que compreender o futebol não é eliminar sua incerteza nem apontar favoritos. É entender melhor as relações que o tornam imprevisível.
Quando a Copa terminar, os debates girarão em torno do melhor treinador, do melhor jogador ou do melhor sistema. Mas a equipe campeã talvez seja aquela que compreender melhor a natureza do torneio: reorganizar-se diante do inesperado, adaptar-se às mudanças e transformar a incerteza em parte do caminho.
Caminho que Edgar Morin acompanhará agora de um lugar sobre o qual sabemos muito pouco.
Afinal, poucas coisas parecem tão imprevisíveis quanto uma Copa do Mundo e quanto o futebol em si.
Talvez apenas a própria vida.
Mais Lidas geRead More