Ponto pros que não mereciam perder
Não foi um primor de técnica e talento – e num modelo com 48 seleções haverá muitas situações semelhantes. Mas para quem valoriza no futebol a tática, a estratégia e, principalmente, a vontade de vencer, a entrega, a raça, valências que sustentam sonhos em equipes menos brilhantes numa Copa do Mundo, o Canadá 1 x 1 Bósnia – que completou a festa de abertura em Toronto – foi um prato cheio, um jogo que prendeu a atenção até o último instante. A Bósnia, uma nação forjada no talento da extinta Iugoslávia, mas muito na resiliência da guerra sangrenta de independência, não se cansa de surpreender com façanha (a Squadra Azzurra que o diga). E o Canadá, que em seis jogos nas Copas de 1986 e 2022 não fizera um pontinho sequer, não aceitou perder diante de seu povo. Ambos mereceram pontuar, ninguém merecia perder.
Canadá 1 x 1 Bósnia | melhores momentos | Copa do Mundo 2026
O jogo começou com o Canadá mais próximo do gol, tentando assumir o papel de protagonista – por ser anfitrião – mas com muitos erros nas finalizações. A Bósnia causava estranheza porque, embora estivesse bem montada com duas linhas de quatro, não encaixava a marcação, não fazia a dobra pelos lados sem a bola, e concedia corredores por onde o onipresente Ismael Koné, do italiano Sassuolo, construía com qualidade. Mas aos 20 minutos a resiliente Bósnia entrou no jogo. Escanteio batido na primeira trave, raspada de Kolasinac e Lukic, mesmo marcado, nem precisou subir para escorar de cabeça e fazer 1 a 0. Marcação alta, “perde e pressiona”, e bolas paradas são as jogadas que mais decidem jogos no mundo. Se a Copa é do mundo, não poderia ser diferente.
No banco, o desespero do técnico do Canadá, o americano Jesse Marsch. Na última segunda-feira, o treino do Canadá foi inteiramente dedicado à marcação das bolas aéreas defensivas – jogada na qual a Bósnia é especialista, uma das poucas em que os visitantes são difíceis de marcar. Com a vantagem, o time do gigante Dzeko (que, sem condições físicas, não conseguiu sair do banco de reservas) cresceu ainda mais em confiança e até o fim do primeiro tempo parecia insuperável.
O segundo tempo ia pelo mesmo caminho, ainda que o Canadá fosse muito valente e levasse o jogo totalmente para sua intermediária de ataque. Koné, um dínamo no meio, não conseguia acionar Oluwaseyi e Johnatan David. Primeiro porque sempre um dos dois caia pelo lado e se afastava do outro. Segundo porque o quarteto Katic, Muharemovic, Tahirovic e Basic fechava tudo por dentro e a recomposição bósnia pelos lados era quase perfeita. Até que Marsch teve o insight: seu time precisava de presença de área e gente próxima na frente para dividir e confundir a marcação adversária.
Para fazer isso, entraram Larin e Promise David. E apenas dois minutos depois de ter entrado em campo, aos 33 minutos Larin empatou. Bela triangulação que começou com Koné pela esquerda, ele arrastou a marcação para dentro, tocou a Promise David, que de primeira acionou Larin. Ele bateu firme, a bola desviou na zaga e morreu nas redes: 1 a 1.
Até o fim da partida só deu Canadá pressionando e a Bósnia se defendendo com enorme raça. No último lance do jogo, a zaga bósnia prensou uma bola na pequena área que era o gol da vitória canadense desenhadinho… Mas, que os irmãos canadenses não fiquem bravos, foi melhor assim. Afinal, a Bósnia não merecia perder, e o 1 a 1 deu a cada time um pontinho de presente – que pode ser decisivo para ambos avançarem no grupo. geRead More


