O 7 a 1 do bem: um gol de Curaçao é capaz de justificar a Copa com 48 países
Curaçao é o menor país da história a se classificar para a Copa
A Copa do Mundo nos apresentou, ontem, mais um daqueles episódios em que os derrotados deixam o campo com uma particular sensação de triunfo que vai ecoar pelos séculos. Apesar da goleada de 7 a 1 imposta pela Alemanha (sim, percebam o escárnio), quem entrou para a história foi a modestíssima seleção de Curaçao, que fazia seu primeiro jogo em Mundiais.
O primeiro gol curaçauense em uma Copa, marcado por Livano Comenencia para decretar o surpreendente empate parcial, ampliou ainda mais a atmosfera emocional do momento — antes do jogo, a Onda Azul já havia ido à lágrimas com o hino do país da América Central, o menor a disputar uma Copa, com menos de duzentos mil habitantes. Nesse caso, o 7 a 1 foi o oposto da humilhação.
Assim como a maioria dos companheiros de seleção, Comenencia atua na Europa e defende Curaçao devido às suas origens. Na verdade, apenas um jogador, o meia Tahith Chong, nasceu no país. E a própria história de Curaçao tem contornos muito recentes: até 2010, fazia parte das extintas Antilhas Holandesas, e hoje compõe o Reino dos Países Baixos. A sua seleção, portanto, nasceu apenas há dezesseis anos — e neste domingo provocou uma comunhão nacional jamais vista no pequeno território.
Livano Comenencia comemora gol em Alemanha x Curaçao
Alexander Hassenstein/Getty Images
Falando em influência holandesa, lembrei de um jogo em específico. Muitas Copas do mundo atrás, em 1990, quando tudo era mato e sonho, fiz questão de parar e assistir a Holanda enfrentar a Irlanda, pela fase de grupos. Tinha especial interesse em ver o trio Rijkaard, Gullit e Van Basten, os incríveis holandeses do Milan. Todo o encanto desmoronou quando as seleções resolveram fazer um jogo de compadres, pois o empate classificava ambas. Uma forma nada sutil de acabar com a inocência de um guri de dez anos.
O catártico gol de Comenencia foi marcado horas após diversas federações (incluindo Curaçao) emitirem um comunicado mostrando repúdio a declarações do presidente da UEFA, Aleksander Ceferin. Em entrevista recente, ele afirmou que a expansão da Copa para 48 países provocaria jogos “desinteressantes”. Conforme a manifestação assinada por Marrocos, Egito, Senegal e Costa do Marfim, entre outras confederações, “o futebol não pertence a um grupo reduzido de nações”.
Para usar um eufemismo livre para todas as faixas etárias, podemos dizer que a declaração do presidente da UEFA revela, no mínimo, uma enorme falta de sensibilidade. Tanto que causou desconforto em diversos países que costumam fornecer jogadores de alto nível para os principais clubes europeus. E, a cada posicionamento da elite futebolística europeia, mais podemos deduzir que se trata de má vontade em dividir os holofotes (e o dinheiro, obviamente) com o restante do mundo — exatamente como nas críticas ao Mundial de Clubes.
Torcida de Curaçao na partida contra a Alemanha
Annegret Hilse / Reuters
É possível discutir o critério de 48 seleções, mas também se pode ponderar que a Copa do Mundo vem sendo mais prejudicada pelas sedes alheias à cultura do futebol do que pelo acréscimo no número de participantes (inclusive, se chegarmos a 86 países, quem sabe a Itália se classifica).
Até porque jogos tecnicamente limitados certamente ocorreriam mesmo com apenas 20 seleções. Mas acontece que, quando se gosta de Copa do Mundo, mesmo os “jogos ruins” são totalmente apetitosos para grande parte do mundo, ao contrário daquele confronto entre as europeias Holanda e Irlanda, em 1990. E, enquanto esse texto era escrito, quem dera, saiu mais um gol de Curaçao — e outro de Cabo Verde, depois da Jordânia e, por fim, do Uzbequistão.
Alemanha 7 x 1 Curaçao | Melhores Momentos | 1ª rodada | Copa do Mundo 2026 geRead More


