RÁDIO BPA

TV BPA

ANÁLISE: Clausewitz e a guerra no Irã

ANÁLISE: Clausewitz e a guerra no Irã

 Iranianos caminham perto de escultura que representa míssil do Irã em rua de Teerã no dia 11 de junho de 2026
Majid Asgaripour/Wana/Reuters
Para Carl von Clausewitz, a guerra não é um fim em si mesma; é “a continuação da política por outros meios”. Isso implica que uma vitória militar sem alcance dos objetivos políticos não é uma vitória na guerra. O filósofo prussiano também distinguiu três pontos de análise: o político (o porquê se luta), o estratégico (como se mobiliza o poder para atingir a finalidade política) e o tático (os resultados no campo de batalha). Esses três pontos devem estar alinhados. Quando se desconectam, surge o paradoxo clausewitziano: vitórias táticas que não se convertem em vitória política. A guerra do Irã de 2026 é um caso exemplar dessa tensão.
Em 28 de fevereiro de 2026, Israel e os Estados Unidos lançaram um ataque conjunto coordenado contra alvos no Irã. Batizada de “Operação Leão Rugidor” por Israel e “Operação Fúria Épica” pelos EUA, a ofensiva visava autoridades iranianas, comandantes militares e instalações estratégicas. Os ataques foram precedidos por negociações nucleares indiretas mediadas por Omã, que estavam em andamento quando a ofensiva teve início.
Os EUA apresentaram ao Irã três exigências principais: o fim de todo enriquecimento de urânio, com entrega dos 441 kg enriquecidos a 60%, limites rigorosos ao programa de mísseis balísticos e a interrupção completa do financiamento e apoio a grupos considerados terroristas pelos americanos, por Israel e por aliados europeus, como Hamas, Hezbollah e Houthis. O objetivo político dos Estados Unidos era limitar a capacidade do Irã de projetar poder, conforme declarado pelo secretário de Guerra, Pete Hegseth.
Os ataques incluíram a morte do aiatolá Ali Khamenei, cujo complexo foi destruído, além de Ali Shamkhani, ex-chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, e de vários outros membros do regime. Segundo relatos, milhares de membros da Guarda Revolucionária do Irã, incluindo vários altos comandantes, morreram ou ficaram feridos devido aos bombardeios.
Com base em Clausewitz, essas são vitórias táticas evidentes, que focam em alguns centros de gravidade: eliminação da cadeia de comando do oponente, degradação da capacidade de combate e disrupção das instalações estratégicas. Israel também danificou novamente a defesa antiaérea e a infraestrutura nuclear em Fordow, Natanz e Isfahan. No plano tático, a coalizão foi dominante.
A estratégia é a ponte entre o campo de batalha e o objetivo político. Aqui começa o problema. Na sequência do fechamento do Estreito de Ormuz, as alianças regionais dos EUA foram abaladas. Os aliados de Washington no Golfo Pérsico, que foram alvos de ataques iranianos com mísseis e drones, passaram a se deparar com a perspectiva de ter um vizinho com liderança ainda mais linha-dura e que mantém a capacidade de ameaçá-los com seu arsenal remanescente.
Contudo, é na ótica política que Clausewitz se torna implacável: uma guerra só termina com vitória quando os objetivos políticos são alcançados.
Os objetivos políticos dos EUA eram limitar a capacidade do Irã de projetar poder, por meio da desnuclearização permanente, eliminação do programa de mísseis e corte dos proxies regionais. Neste momento, o resultado é um memorando de entendimento que deixa para uma discussão posterior os temas espinhosos do programa nuclear iraniano e o financiamento a grupos considerados terroristas, mesmo oferecendo um alívio econômico ao regime que se desejava derrubar.
Quanto aos objetivos políticos de Israel: mudança de regime, destruição do programa nuclear e eliminação das ameaças existenciais. O resultado evidente é que regime iraniano não colapsou. Mesmo tendo apoio de apenas 15% da população e sendo abertamente opressivo contra os próprios cidadãos. O Irã rejeitou incluir seu programa de mísseis nas discussões. Não há como chamar isso de vitória política.
Como consequência, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou que seu país não vai aderir ao memorando de entendimento. Os dois líderes, Trump e Netanyahu, entraram em conflito no domingo a respeito da campanha militar de Israel no Líbano, que continua em curso.
A cena mais reveladora é sintomática: Netanyahu estava reunido com o gabinete de segurança em um bunker, preparado para a possibilidade de mísseis balísticos iranianos atingirem o local, quando Trump ligou para informar que a guerra estava efetivamente encerrada. Quando Netanyahu finalmente se pronunciou sobre o memorando, já haviam se passado horas desde que outros políticos israelenses se manifestaram.
A partir dos critérios de Clausewitz, Estados Unidos e Israel saem perdendo politicamente. Venceram no campo de batalha, mas se a guerra terminar desta forma, ela não terá feito seus objetivos políticos serem alcançados. A guerra ainda pode continuar por sabotagem do Hezbollah e de Israel, é verdade. Mesmo o Irã e os Estados Unidos podem violar o que está sendo acordado. Mas se o encerramento proposto se concretizar, não há outra conclusão possível.
Aqui está o paradoxo clausewitziano: o Estado que foi militarmente derrotado (o Irã perdeu seu líder supremo, a Marinha de guerra e o que restava de sua Força Aérea, já depredada pelas sanções) saiu da guerra com o regime renovado, o programa de mísseis mantido e o apoio aos proxies, inclusive exigindo a cessação das hostilidades de Israel com o Hezbollah. A guerra como instrumento político funcionou melhor para o derrotado militarmente do que para os vencedores táticos.
Conforme mencionado acima, o Irã teve sua Marinha e sua Força Aérea fortemente alvejadas, mas mantém seu exército de mais de 610 mil militares na ativa e 350 mil reservistas. É um país montanhoso, com 92 milhões de habitantes. Além disso, possui de 2 mil a 6 mil minas navais, uma indústria própria de drones e até de dois terços de seu estoque de mísseis foi preservado, segundo relatórios da CIA. Para se obter os objetivos políticos traçados pelos atacantes para essa guerra, seria necessário ocupar o território iraniano. Seria uma guerra de ocupação, que provavelmente se estenderia por anos, que seria contrária a tudo que Trump criticou durante décadas nas guerras do Iraque e do Afeganistão e que Israel não teria condições de fazer sozinho, servindo apenas como apoio aos EUA. Trump também precisaria de autorização do Congresso, que dificilmente obteria, dada a impopularidade dessa guerra nos EUA, apoiada por apenas um quarto da população.
Quanto à esfera militar, a Marinha dos Estados Unidos não pode justificar que não esperava por um fechamento do Estreito de Ormuz, o principal centro de gravidade dessa guerra. Isso já ocorreu antes, durante a “Guerra dos Petroleiros”, quando foi necessária uma missão de 14 meses dos EUA, apoiados por França e Reino Unido, inserida na Operação Earnest Will (de julho de 1987 a setembro de 1988) para reabrir o Estreito.
O memorando parece ficar muito aquém em vários dos objetivos que estão na origem do conflito, o que deixa o próprio presidente Trump vulnerável a críticas dentro do Partido Republicano (que já ocorrem), e os EUA numa situação estratégica pior do que a de antes da guerra.
Clausewitz escreveu que nenhum grande general entrou em uma guerra sem antes saber o que queria obter com ela e como pretendia conduzi-la. Os objetivos políticos traçados por Estados Unidos e Israel se desencontraram dos meios necessários para obtê-los militarmente.
O arcabouço de Clausewitz nos conduz a algumas das lições mais antigas e mais obstinadamente ignoradas na história militar: quando a política não governa a estratégia do início ao fim. Quando os objetivos políticos são declarados sem que a vontade de os sustentar até o fim seja equivalente, quando dois aliados entram em uma guerra com fins distintos, sem resolver essa divergência antes de disparar o primeiro projétil, a vitória tática pode se dissolver e deixar de conduzir aos objetivos estratégicos e políticos.
Vitelio Brustolin é professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard
Agora no g1g1 > Mundo Read More