Separados por 30 anos: momentos distintos, desafios muito parecidos
Michael Schumacher e Lewis Hamilton guardam algumas coincidências em suas carreiras. Uma das maiores foi concretizada no último fim de semana. O inglês venceu sua primeira corrida pela Ferrari na Fórmula 1 justamente no Circuito da Catalunha, em Barcelona, pouco mais de 30 anos após o alemão fazer o mesmo pela tradicional equipe italiana. Ambos viviam momentos de carreira distintos, é verdade, mas com desafios muito parecidos pela frente nos carros vermelhos: encerrar um longo jejum de títulos do Mundial de Pilotos. No caso de Schumacher, 21 anos. No caso de Hamilton, 19.
Rafael Lopes comenta vitória de Lewis Hamilton no GP de Barcelona-Catalunha de Fórmula 1
E por que momentos distintos de carreira? Simples. Para isso, precisamos voltar a 1996. Michael Schumacher foi contratado após o bicampeonato em 1994 e 1995 pela Benetton a peso de ouro para encerrar o jejum de títulos que durava desde o sul-africano Jody Scheckter em 1979. Além disso, o objetivo era claro: ajudar no processo de reconstrução da equipe, que era liderado a essa altura pelo francês Jean Todt. Maníaco por trabalho, o futuro heptacampeão trabalhou arduamente, inclusive tendo de superar uma fratura na perna após um acidente em Silverstone-1999. O primeiro título pela Ferrari viria apenas em 2000, quatro temporadas após sua chegada. Mas o ponto de partida foi justamente aquela vitória debaixo d’água no Circuito da Catalunha, em Barcelona, com o câmbio travado em quinta marcha durante metade das 65 voltas da corrida.
Lewis Hamilton e Frédéric Vasseur comemoram a vitória no GP de Barcelona-Catalunha de 2026
Mario Renzi/Formula 1 via Getty Images
Se Schumacher chegou no início da carreira, Lewis Hamilton chegou já no fim dela. A intenção, contudo, era a mesma: encerrar o jejum de títulos que dura desde o finlandês Kimi Raikkonen em 2007. O primeiro ano de trabalho do heptacampeão na Ferrari, contudo, foi bastante conturbado, sem pódios ou vitórias. O projeto, contudo, tinha como objetivo a temporada de 2026, com o advento de um novo regulamento pela F1.
Ao ver como o carro e a equipe funcionavam, Hamilton passou seu ponto de vista para o chefe, o também francês Frédéric Vasseur. Eles são conhecidos de longa data, desde os tempos de ART GP na então GP2, em 2006. O francês ouviu o piloto inglês e o desempenho reapareceu. Já são quatro pódios e uma vitória neste ano. Melhor ainda, com o SF-26, carro deste ano, evoluindo a olhos vistos a cada novo pacote aerodinâmico trazido, como vimos neste fim de semana em Barcelona.
Michael Schumacher recebe a bandeirada após vencer o GP da Espanha de 1996, em Barcelona
LAT Images
As histórias se estreitam justamente no Circuito da Catalunha. Ninguém apostava que a Ferrari poderia vencer a corrida no fim de semana. Mas tudo se encaixou e Hamilton venceu pela primeira vez com o carro vermelho. Foi a 106ª de Hamilton na Fórmula 1, aos 41 anos, se tornando o 41º piloto a vencer pela Ferrari. Há 30 anos, Schumacher conquistava o 106º triunfo da equipe. Apenas coincidências, mas que unem os dois únicos heptacampeões da maior categoria do automobilismo mundial.
A história mostra que, depois de muito trabalho, Michael Schumacher alcançou seu objetivo. E iniciou uma dinastia na Ferrari, conquistando cinco títulos seguidos entre 2000 e 2004. Lewis Hamilton ainda está no início do processo de reconstrução de uma equipe que foi motivo de piada nos últimos anos na Fórmula 1, com erros básicos de estratégia e no caminho do desenvolvimento do carro. A confiança de Frédéric Vasseur em seu antigo pupilo da GP2 e atualmente uma lenda da F1 começa a surtir efeito. Tudo começou a funcionar muito bem dentro da equipe e a vitória em Barcelona é um exemplo claro disso.
Lewis Hamilton recebe a bandeirada de Novak Djokovic após vencer o GP de Barcelona-Catalunha de 2026
Mark Sutton/Formula 1 via Getty Images
Lewis Hamilton, por sua vez, parece outro piloto em relação aos últimos anos. A confiança voltou e os resultados também. O trabalho com Vasseur e com o novo engenheiro, o italiano Carlo Santi – o “Bono italiano”, apelidado pelo heptacampeão em alusão às semelhanças com o inglês Peter Bonnington, seu parceiro na Mercedes – está fluindo muito bem. E a confiança da equipe no feedback do inglês está em alta: ele trocou os discos de freio italianos da Brembo pelos ingleses da Carbon Industries; e ainda identificou um problema de correlação entre os dados do simulador e o efetivo desempenho do carro na pista.
Análise técnica: Rafael Lopes mostra novidades da Ferrari para o GP de Barcelona-Catalunha
O mais difícil, contudo, vem agora. Lewis Hamilton, Frédéric Vasseur e a Ferrari precisam provar que a vitória em Barcelona não foi algo apenas circunstancial. A consolidação deste bom desempenho tem de começar já na Áustria, no dia 27 de junho. O desafio ainda é muito grande: desbancar a Mercedes, que iniciou o ano como grande dominadora. Os sinais, contudo, são muito animadores para a Ferrari em 2026.
Lewis Hamilton comemora a vitória no GP de Barcelona-Catalunha de 2026
Michael Potts/LAT Images
Perfil Rafael Lopes
Editoria de Arte/ge.globo geRead More


