Como funciona o escrutínio, processo que oficializa o resultado das eleições na Colômbia
Apoiador de Aberlardo de la Espriella vota durante 2º turno das eleições presidenciais, em Barranquilla, na Colômbia, em 21 de junho de 2026.
Jair Coll/ Reuters
O resultado preliminar das eleições na Colômbia apontou o empresário e advogado Abelardo de la Espriella como vencedor, com cerca de 250 mil votos de vantagem sobre o senador Iván Cepeda Castro. A primeira fase da apuração ocorreu no domingo (21), após o segundo turno das votações.
Na eleição colombiana, a apuração tem duas etapas. A primeira é o chamado preconteo, uma contagem preliminar feita a partir das atas dos locais de votação. Mas, segundo a legislação do país, o resultado oficial só é proclamado após o escrutínio, em que juízes e outras autoridades revisam as atas para corrigir eventuais inconsistências.
O que é escrutínio?
O escrutínio é a apuração oficial, definitiva e com validade jurídica, que começa logo após o encerramento do preconteo e pode durar dias. Nesta fase, o processo sai das mãos dos jurados de mesa e passa para comissões escrutinadoras, compostas principalmente por juízes, notários e outros delegados eleitorais.
🔎O preconteo é a contagem rápida e provisória dos votos divulgada na noite da eleição na Colômbia, realizada logo após o fechamento das urnas. Os jurados de mesa contam manualmente as cédulas de papel, preenchem uma ata física e transmitem os dados por telefone para a central eleitoral, que atualiza os resultados em tempo real para o público e a imprensa.
🔎Por ser suscetível a erros de digitação e rasuras, esse processo tem caráter exclusivamente informativo e não possui valor legal para declarar ou diplomar o candidato vencedor.
No escrutínio, as comissões conferem os formulários físicos originais enviados de cada mesa. Representantes e fiscais de todas as campanhas acompanham a checagem presencialmente. Se houver inconsistência matemática, rasura ou suspeita de fraude na ata, os partidos podem exigir a abertura da urna e a recontagem física dos votos em papel.
O resultado oficial só é consolidado e o vencedor oficialmente declarado quando o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), em Bogotá, consolida o escrutínio de todo o país e julga todos os recursos e contestações apresentados pelas campanhas. Em disputas acirradas, essa verificação costuma levar cerca de uma semana.
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Como funcionam as eleições na Colômbia?
As eleições presidenciais na Colômbia ocorrem a cada quatro anos e funcionam em um sistema de até dois turnos. Se nenhum candidato alcançar mais de 50% dos votos válidos no primeiro turno (realizado no fim de maio), os dois mais votados disputam o segundo turno três semanas depois, em junho.
O voto é totalmente em cédulas de papel depositadas em urnas físicas. O presidente eleito cumpre um mandato único. A reeleição é proibida pela Constituição.
Na cédula, o eleitorado tem um leque amplo de opções por causa da fragmentação política do país, que conta com dezenas de partidos registrados. Além das siglas tradicionais, a lei colombiana permite candidaturas por “Grupos Significativos de Cidadãos” (movimentos independentes que recolhem assinaturas).
No primeiro turno de 2026, por exemplo, 9 candidatos disputaram a Presidência representando alianças de esquerda, de centro e de direita.
Os dias de votação, que sempre acontecem aos domingos, as seções eleitorais funcionam em um período curto, abrindo às 8h e fechando obrigatoriamente às 16h (horário local).
Para garantir a segurança, o governo aciona as Forças Armadas para patrulhar os colégios eleitorais e decreta medidas rígidas. Tradicionalmente, o governo adota medidas como o fechamento temporário das fronteiras terrestres e a chamada ‘lei seca’, que proíbe a venda e o consumo de bebidas alcoólicas da véspera até a manhã seguinte à votação.
Apoiadores do candidato Iván Cepeda em direção a um comício após a divulgação dos resultados preliminares.
Sergio Acero / Reuters
Direita x esquerda no 2º turno da eleição colombiana
A eleição de 2026 se tornou uma “queda de braço” entre o atual presidente do país, Gustavo Petro, e o presidente dos EUA, Donald Trump. Cepeda era o candidato apoiado por Petro, enquanto o ultradireitista Espriella teve apoio declarado do líder norte-americano. Leia mais abaixo.
O resultado da eleição cimentaria a onda de governos da direita na América Latina. Isso porque Espriella pode se juntar a diversos países latino-americanos que elegeram governos direitistas nos últimos anos, como no Chile, com Jorge Kast, e a Bolívia, com Rodrigo Paz.
O CNE disse que a votação ocorreu de forma tranquila e sem maiores incidentes, e com espectadores internacionais, como representantes da OEA e da União Europeia.
Após polêmica no 1º turno, Petro afirmou neste domingo após votar que respeitará o resultado das eleições. Mesmo assim, o atual presidente fez diversos pedidos por uma mobilização da população para vigiar as atas eleitorais. Cepeda também falou que respeitará o veredito, porém falou em fazer uma “supervisão muito clara, rigorosa e minuciosa” da apuração.
Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda
Reuters/Luisa Gonzalez; Reuters/Sergio Acero
Após o fim da votação, Espriella afirmou em vídeo nas redes sociais que quer ser lembrado como “o reconstrutor da pátria”.
Espriella, advogado de 47 anos e empresário sem experiência política, apresenta-se como um “salvador anti-establishment” e repete promessas de campanha de nomes da extrema direita da América Latina. Ele venceu o primeiro turno com propostas linha-dura para combater o crime organizado, cortar programas governamentais e impostos e revitalizar a exploração de petróleo. Ele também é cidadão naturalizado dos EUA, já viveu em Miami e é republicano registrado.
Leia mais sobre os projetos dos dois candidatos para a Colômbia.
Admirador das políticas adotadas por Trump e pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, o candidato ultradireitista promete uma ofensiva militar e a construção de 10 megaprisões.
“No meu governo não haverá processos de paz. Criminosos que não se submeterem serão eliminados, conforme permitido por lei”, afirmou Espriella.
O discurso do candidato da direita foi o que mais ecoou no eleitorado no primeiro turno. Pesquisas de opinião vêm apontando a violência como o principal fator de preocupação entre colombianos, à frente da economia – fragilizada pela pandemia e pelo aumento do déficit fiscal, apesar de o atual governo aumentar o salário mínimo nominal em 75% e reduzir o desemprego.
Espriella culpa Petro pelos problemas econômicos e de segurança da Colômbia e prometeu reduzir o tamanho do Estado em 40%, ampliar a base tributária e cortar os impostos corporativos para promover o emprego no setor privado.
“A segurança foi a questão central desta campanha, que levou à vitória de De La Espriella no primeiro turno”, disse o analista político Eduardo Pizarro à Reuters.
Pizarro afirma que a percepção de insegurança aumentou nas cidades, incluindo preocupações com extorsão e pequenos delitos. Ao mesmo tempo, a expansão de grupos armados em áreas rurais afetou mais civis.
Cepeda havia liderado as pesquisas de intenção de voto antes do primeiro turno. Por isso, a vitória de Espriella na primeira rodada surpreendeu tanto que Petro chegou a contestar o resultado, posteriormente reconhecido por Iván Cepeda.
Temor de contestação e violência nas ruas
Eleições na Colômbia: Abelardo de la Espriella (à esquerda) e Ivan Cepedo (à direita)
Reuters
A contestação aumentou as tensões e alimentou temores de que o governo Petro reivindique os resultados no caso de uma vitória de Espriella. O Tribunal Eleitoral da Colômbia pediu neste domingo que todas as partes respeitem um resultado.
Autoridades temem que a contestação por uma das partes dos resultados incentivem protestos nas ruas e aumentem episódios de violência que ocorreram durante o processo eleitoral. No ano passado, o candidato da direita à presidência, Miguel Uribe, um dos favoritos em pesquisas de intenção de voto até então, foi assassinado durante um comício.
Direita na América Latina
Homem segura adesivos com imagens dos dois candidatos à presidência no segundo turno da Colômbia, imitando figurinhas da Copa do Mundo, em 4 de junho de 2026.
Jose Vargas/ Reuters
A vitória de la Espriella confirma a onda que levou outros líderes de direita à vitória na América Latina e representa seu maior triunfo até agora, isolando governos de esquerda na região e redesenhando as alianças geopolíticas do continente.
O resultado respalda um movimento que tem, entre seus principais representantes, Nayib Bukele, em El Salvador, Javier Milei, na Argentina, e José Antonio Kast, no Chile.g1 > Mundo Read More


