Carlos Queiroz, o treinador andarilho especialista em Copas do Mundo que travou a Inglaterra
Inglaterra x Gana – Melhores Momentos
A Inglaterra empatou em 0 a 0 com Gana pela segunda rodada da Copa do Mundo de 2026 com mais posse de bola, mais finalizações e Harry Kane perdendo gol inacreditável.
Uma zebra digna um dos maiores especialistas em transformar seleções periféricas em equipes difíceis de derrotar: Carlos Queiroz.
Carlos Queiroz Gana
REUTERS/Peter Cziborra
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Admirado, odiado e talvez subestimado, esse português de 73 anos acaba de se tornar o treinador mais velho a pontuar em uma Copa do Mundo e crava seu nome como especialista em transformar seleções sem tradição em equipes capazes de competir contra adversários mais fortes.
Quase sempre com uma retranca daquelas, capaz de causar indignação ou admiração, dependendo de qual lado você torce. Thomas Tuchel, treinador da Inglaterra, por exemplo, não gostou nada, nada do que viu.
Eles foram mais defensivos do que na primeira partida. Se você não abrir com um gol, vira um jogo de paciência. É um bloco fechado deles. No final de cada tempo, conseguimos atacar, mas não conseguimos marcar. E está tudo certo
Jogar na retranca não é novidade para Queiroz. Foi assim quando levou a Argentina ao limite nas oitavas de final da Copa de 2014 e quando o Irã arrancou um empate de Portugal em 2018, em partida que teve pênalti defendido por Alireza Beiranvand diante de Cristiano Ronaldo.
Ídolo no Irã com retranca que parou gigantes
Jogar na retranca não é novidade para Queiroz. Foi assim quando levou a Argentina ao limite nas oitavas de final da Copa de 2014 e quando o Irã arrancou um empate de Portugal em 2018, em partida que teve pênalti defendido por Alireza Beiranvand diante de Cristiano Ronaldo.
É pelo Irã que Queiroz virou ídolo nacional, a ponto de ir em programas e ser recebido com festa no aeroporto. Quando assumiu a seleção iraniana, encontrou um país distante da elite. Classificou o Irã para três Copas consecutivas, algo inédito na história do país, e construiu uma identidade clara: uma retranca capaz de causar dificuldades para qualquer um.
Na Copa do Mundo de 2018, o Irã empatou contra Portugal e vendeu caríssimo uma derrota para a Espanha, que teve posse de bola, circulou o campo durante noventa minutos e venceu apenas por 1 a 0. Ficou famosa a tal da “linha de seis”: os quatro defensores e os pontas sem vergonha alguma de passar o jogo inteirinho defendendo.
Irã com seus pontas junto a defesa
Leonardo Miranda
Contra a Inglaterra, Gana recorreu à mesma receita. Durante noventa minutos, a seleção africana congestionou a entrada da área. Haja retranca! Harry Kane e Jude Bellingham passaram boa parte da tarde procurando espaços que simplesmente não apareciam.
“Pai” da geração de Figo e Cristiano Ronaldo
Nascido em Nampula, em Moçambique, quando o país ainda era colônia portuguesa, Queiroz transformou o futebol em uma vida itinerante.
Sua projeção internacional começou nas seleções de base de Portugal. Os títulos mundiais sub-20 de 1989 e 1991 ajudaram a lançar a chamada “Geração de Ouro” do futebol português, com nomes como Luís Figo, Rui Costa, Fernando Couto, Paulo Sousa e Vítor Baía.
Natural que fosse apontado treinador da Seleção Portuguesa, logo em 1991. O trabalho foi muito ruim. Queiroz não classificou Portugal para a Euro 1992, na Suécia, e para a Copa do Mundo de 1994, nos EUA. Saiu com uma frase até hoje famosa:
É preciso varrer a porcaria que há na federação portuguesa. Há muita coisa para mudar.
Carlos Queiroz em sua primeira passagem por Portugal, entre 1993 e 1994
Reprodução
Para Queiroz, o futebol nunca foi apenas uma questão de talento. Sua visão parte da ideia de que os jogadores são resultado de um processo que envolve treinadores, competições, estruturas e formação.
Após passagens sem sucesso por Sporting, Nagoya Grampus e no MetroStars, onde assumir o lugar deixado por Carlos Alberto Parreira, Queiroz encontrou projeção na África do Sul, quando desenvolveu um trabalho que levou o time à sua segunda Copa do Mundo na história, em 2002.
O trabalho chamou a atenção de Alex Ferguson. O escocês viu em Queiroz um profissional capaz de desenvolver jogadores e organizar processos e o contratou após a Copa do Mundo de 2002. O planejamento de Queiroz, que levou o United a contratar um certo jovem de 19 anos do Sporting chamado Cristiano, e a melhoria nos treinos, chamou a atenção de outro gigante: o Real Madrid.
Comparo o futebol a um jardim e os jogadores às flores. O que está em cima e o que está em baixo nem sempre depende de nós. Mas tudo o que está no meio depende. Quanto melhores forem os treinadores, quanto melhores forem os quadros competitivos, quanto melhores forem as condições de desenvolvimento, melhores serão os jogadores. E sem melhorar os jogadores, não podemos melhorar o jogo
Fracasso retumbante nos “Galáticos” do Real Madrid
Num daqueles atos que só a cabeça de Florentino Pérez consegue explicar, Carlos Queiroz foi o escolhido para suceder Vicente del Bosque no Real Madrid, em 2003. Quem recusaria treinar Zidane, Ronaldo, Roberto Carlos, Figo, Raúl e Casillas, todos no auge?
Carlos Queiroz assumiu um dos elencos mais estrelados do Real Madrid
Reprodução
Apesar da conquista da Supercopa da Espanha, o Real Madrid foi eliminado pelo Monaco nas quartas de final da Liga dos Campeões, perdeu a final da Copa do Rei para o Zaragoza e terminou La Liga apenas na quarta colocação, depois de ter liderado em boa parte da temporada. Foram somente onze meses no cargo.
Até hoje, Queiroz aponta a saída de Claude Makelele como o início dos problemas. Para ele, o volante era a peça responsável por dar sustentação a um time repleto de estrelas ofensivas.
Nova chance no United e retorno à Portugal
O desgaste em Madri o levou de volta ao Manchester United. Ao lado de Ferguson, participou da reconstrução da equipe que conquistaria a Liga dos Campeões em 2008. Parecia o momento ideal para regressar a Portugal e assumir novamente a seleção nacional.
A segunda passagem pela seleção portuguesa começou cercada de expectativa. Queiroz assumiu após a saída de Luiz Felipe Scolari e classificou Portugal para a Copa do Mundo de 2010. A campanha refletiu características que apareceriam em seus melhores e piores trabalhos.
Cristiano Ronaldo e o técnico Carlos Queiroz na Copa do Mundo de 2010
FRANCISCO LEONG / AFP
Portugal sofreu apenas um gol durante todo o torneio, mas produziu pouco ofensivamente. Avançou em segundo lugar e acabou eliminado pela futura campeã Espanha nas oitavas de final. Um conflito com agentes responsáveis por exames antidoping resultou em processo disciplinar, suspensão e uma longa disputa com a Federação Portuguesa.
Ídolo no Irã e andarilho até na Colômbia
Foi nesse momento que o Irã lhe ofereceu carinho, proteção e uma idolatria recheada de grandes jogos.
Antes de Queiroz, o Irã tinha participado de apenas três Copas do Mundo e ficou famoso por vencer os EUA no chamado “Jogo da Paz”, em 1998. Com Queiroz, o país passou a figurar constantemente em semifinais asiáticas e acumulou vitórias importantes contra Marrocos e País de Gales, além de segurar a Argentina até os 46 do segundo tempo em 2014.
Não é à toa que os jogadores os levantaram em celebração, mesmo sem a classificação para as oitavas-de-final que nunca veio.
Carlos Queiroz é ídolo no Irã, onde conquistou duas vitórias em 3 Copas do Mundo
Reprodução
O sucesso não o acompanhou no Egito, Catar e Omã. Na Colômbia, chegou com imensa expectativa. O início foi promissor, com vitória sobre a Argentina na Copa América de 2019. Mas o projeto perdeu força nas Eliminatórias, mesmo com James Rodríguez, Falcao García e Yerry Mina.
Derrotas pesadas para Uruguai e Equador aceleraram o desgaste e encerraram sua passagem.
O renascimento em Gana e chance de vaga inédita
A chegada nas “Estregas Negras” se deu só em abril desse ano. Após derrotas para Alemanha e Áustria, a federação demitiu Otto Addo e apostou em um treinador acostumado a cenários difíceis. Na apresentação, o português classificou a missão como o maior desafio da carreira.
Carlos Queiroz; Inglaterra x Gana
REUTERS/Peter Cziborra
Os resultados apareceram rapidamente. Depois de vencer o Panamá no último lance, Gana segurou a Inglaterra em um empate sem gols com apenas 21% de posse de bola. A disciplina defensiva deixou os ganeses entre as poucas seleções que ainda não sofreram gols no torneio.
Agora, contra a Croácia, Queiroz pode levar Gana às oitavas de final e reforçar sua reputação como especialista em transformar azarões espalhados por todo o mundo em adversários competitivos. A receita é a mesma de sempre: uma retranca de dar ódio e orgulho. Faz parte do futebol!
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