RÁDIO BPA

TV BPA

Na Bancada da Copa do Caos – Edição 005

Na Bancada da Copa do Caos – Edição 005

No fim das contas, apesar das controvérsias, o novo formato da Copa do Mundo entregou uma novidade animada para a última rodada: a total incapacidade de prever o que vai acontecer na tabela dos 3ºs melhores colocados de cada grupo.
Em pelo menos oito grupos o 2º ou o 4º colocado também estavam na contagem (às vezes os dois juntos) – mesmo que não aparecessem nas tabelas oficiais. Isso tornava o cenário impossível de calcular de forma simplificada, exigindo conferências constantes de quais confrontos restavam nos grupos envolvidos (todos).
Um dos grandes problemas desse formato é o favorecimento que os grupos das letras mais avançadas recebem. Coreia do Sul e Escócia, por exemplo, jogaram no primeiro dia da rodada e não saberão até o sábado se estarão na próxima fase ou se voltarão para suas respectivas casas. Os jogos já ocorrem na segunda-feira.
Entretanto, o Grupo G guardou uma situação incrível: caso o Irã perca para o Egito por 1 a 0 e a Bélgica perca para a Nova Zelândia por 2 a 1 (ou coisa equivalente), as duas seleções encerrarão a disputa pelo terceiro lugar com 2 pontos, -1 de saldo e 2 gols-pró. Como empataram entre si, não conta o critério de confronto direto.
A decisão se dará pela contagem de cartões: a Bélgica teve uma expulsão e três amarelados. O Irã só tomou dois cartões amarelos. Caso isso se iguale nos jogos (haja coincidência), a Bélgica pega a vaga pelo ranking.
A Bélgica é uma das muitas seleções europeias ameaçadas de voltar para casa mais cedo, mesmo com 8 dos 12 terceiros colocados conseguindo vaga para a próxima fase. Áustria, Croácia e Escócia também estão na berlinda.
Bom pra falar do desempenho dos europeus nesta nova e contorversa Copa do Mundo de 48 seleções.
Na Bancada
Dá pra repensar as vagas da UEFA – depois de todo auê com a fala de Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, prevendo (erroneamente) que a Copa se 48 times seria tomada de “jogos completamente desinteressantes”, o importante agora é olhar a vida real: dentre as seleções que apresentaram o pior futebol nessa Copa, várias são europeias.
A chatíssima Tchéquia foi eliminada com todo merecimento. A simpática Bósnia passou de fase em 3º graças à fragilidade do Catar. A Escócia tinha mais graça na torcida do futebol no campo. A Turquia, que pegou o passaporte na repescagem europeia (exclusiva), foi a grande decepção da Copa. Bélgica, Áustria e Croácia, paupérrimas, vão jogar a vida na última rodada e correm o risco de voltar juntas pra casa.
Ainda assim, as críticas ao novo modelo sempre apontam suas armas para entrada de mais seleções africanas, asiáticas e da América Central. Por vezes, condena-se a quantidade de vagas proporcionais para as seleções da Conmebol (que leva mais da metade dos seus membros de forma direta). Pouco se fala que a UEFA concentra um terço das 48 vagas, sem passar pela repescagem, como todas as outras fazem.
Todo mundo sabe que a expansão da Copa do Mundo tem muito a ver com as questões político eleitorais da FIFA, como ocorreu em todas as etapas de expansão: de 16 para 24 participantes, em 1982; de 24 para 32 participantes, em 1998; e agora para 48 times – com chances de ampliação futura, dada a complicada questão da classificação de 8 dos 12 “menos piores” de cada grupo.
O peso da UEFA já foi maior que hoje. Em 1994, última edição com 24 times, a metade era de europeus. Nas edições de 32 times, a UEFA diminuiu sua predominância, mas ainda manteve uma expressiva representação de 13 seleções, mais de 40% do quórum. No formato inaugurado em 2026, embora tenha sido uma das que menos “ganhou vagas” na repartição, segue tendo mais membros do que África e Ásia juntas.
Um argumento muito recorrente para justificar a larga vantagem da UEFA sobre as demais confederações é a quantidade de federações filiadas. A UEFA tem 55 filiadas (16 vagas diretas), uma a menos que as 56 filiadas da CAF (9 vagas diretas); e uma quantidade praticamente igual às 51 federações da soma da Conmebol com a Concacaf (6 vagas diretas cada), e não tão superior às 47 filiadas da Ásia (8 vagas diretas).
As quatro últimas têm “direito” a representantes na repescagem, junto com a Oceania, o que significa que alguém vai fatalmente sair sub-representada (África e Ásia saíram vencedoras). Enquanto isso a UEFA emplaca quase 30% dos seus filiados diretamente na Copa. E se olharmos o nível de umas 45 seleções…
O futebol mudou muito nas últimas décadas. O futebol na África era muito menos desenvolvido no século passado do que é hoje. Para a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, nada menos que 10 das 30 seleções inscritas para as eliminatórias africanas desistiram de participar. Era outro mundo.
Hoje, o Continente Mãe não apenas atingiu um nível de profissionalismo muito maior, como também passou a se valer do talento de jogadores nascidos na Europa. Tanto a Copa Africana como as Eliminatórias são disputadíssimas, com pelo menos 12 seleções de alto nível se confrontando em equilíbrio. Ainda assim, a CAF tem 9 vagas garantidas e uma vaga na repescagem.
A expansão da Copa é controversa e discutível, mas a representatividade das confederações não é desconectada da relevância que elas têm no futebol atual. Isso poderia ser falado, sim, da quantidade de vagas da Europa, porque, definitivamente, pouco importa se são 55 filiadas.
A primeira prateleira da Europa envolve apenas Alemanha, Espanha e França. Poderíamos falar também da Itália, pelo seu peso histórico, mas já são três Copas sem conseguir se classificar, muito por causa do formato das eliminatórias também (é preciso reconhecer – e que já vai mudar para a próxima edição). Ponto.
Portugal, Holanda e Bélgica são fortes, mas nunca foram campeãs e raramente chegam entre as melhores. Juntas, essas três tiveram apenas quatro aparições em semifinais e apenas uma final (2010) nas últimas 10 Copas. A Croácia, finalista e semifinalista recente, viveu uma era de ouro, que parece estar se esgotando.
O que coloca a Croácia na mesma prateleira de Suécia, Suíça e, geralmente, Dinamarca, que não se classificou dessa vez: seleções que não costumam passar vergonha, mas que também nunca fazem nada de muito significativo em termos de desempenho.
Ou seja, falamos de mais ou menos 7 seleções realmente competitivas e algumas boas surpresas aqui e acolá… enquanto o resto costuma a ir a passeio. Antes 3 ou 4, agora umas 6. Todas as outras seleções europeias correm sempre por fora: Áustria, Tchéquia, Escócia e Turquia esse ano (a Noruega vive aquele lance da “ótima geração”), mas volta e meia umas Polônia, Rússia, Hungria, Eslováquia, Eslovênia, Sérvia, Bósnia, Grécia, Ucrânia e até Islândia.
Seis vagas para essa prateleira não pode ser considerado “coisa demais”? Não seria possível garantir 12 vagas diretas para europeus, com duas seleções jogando a repescagem, com fazem as demais confederações?
Seguiríamos tendo mais europeus do que grupos, mas sugerir a redistribuição de duas vagas não é forçar a amizade. Basta trocar pela segunda vaga da Concacaf na repescagem, ou mesmo fechar logo as 10 vagas da CAF (sem repescagem).
No fim das contas, a Copa do Mundo é um torneio… Global. E precisa permitir representação. A expansão para 48 times proporcionou a muitos novos países a chance de desfrutar do maior evento do planeta, o grande encontro dos povos, cores e credos da humanidade, do presente e do passado. Definitivamente não há razão para culpar quem mereceu estar ali. E mesmo quando não jogam tanta bola, entregaram histórias maravilhosas. Desfrutemos.
A Copa Além da Copa
A seleção do Irã chegou à Copa do Mundo como uma das principais prejudicadas pelos usos políticos do futebol. Em guerra (ou sob ataque) com os Estados Unidos, a principal sede do torneio, a seleção persa só teve presença confirmada apenas na véspera, mudou a de base de concentração para o México e foi submetida a um esquema controverso de entrada e saída nos Estados Unidos.
O Irã foi prejudicado pela vaidade e intransigência de Donald Trump e pela leniência e passividade de Gianni Infantino. Mas, passado o pior momento, chegou a vez de deixar de ser pedra para se tornar vidraça.
Quem explica isso é o Copa Além da Copa, que avaliou o caso do jogo que pretendia exaltar o orgulho LGBTQIAPN+, mas que coincidiu incrivelmente com uma partida da Copa que coloca em campo dois países famosos pelo desrespeito aos direitos civis dessa parte da população.
Initial plugin text
Por sinal, o Seattle Sounders FC, time da cidade onde ocorrerá a partida, é famoso pelas ações dos seus coletivos de torcedores, tendo, na Gorilla FC, uma organização militante anti-homofobia, anti-sexismo, anti-racismo e antifascismo.
Esse, aliás, é um dos elementos mais marcantes dessa “nova cultura torcedora” norte-americana, que tem grande presença de grupos do tipo por todo país. É difícil precisar se há uma relação especificamente relacionada ao “soccer”, por ser este um esporte “alternativo” dentro do cenário estadunidense.
Talvez pese o fato do “soccer” ter fincado os pés nos Estados Unidos a partir das comunidades de imigrantes, especialmente latinos, que contrastavam consideravelmente da cultura nacionalista, branca e protestante dos esportes já consolidados no país. O futebol americano (o da bola oval), por sinal, costuma ser um espaço de atuação diametralmente oposta no espectro político.
Ludopédio – para ler o jogo
E vamos de mais sugestões de leitura dos companheiros do Ludopédio – maior portal de produção e divulgação científica sobre futebol da América Latina. Dessa vez, eles recomendaram uma série de textos de um pesquisador brasileiro na Argentina na última Copa de Messi; e depois aproveitaram o encontro entre Inglaterra e Gana para sugerir a leitura de uma dissertação que trata de mercado de futebol, colonialismo e racismo na imprensa britânica. Vale demais!
“Da “reunião improvisada” ao “acontecimento cultural”: uma noite na Fan Fest de Buenos Aires
Gabriel Moreira Monteiro Bocchi – Ludopédio (2020)
Em meio a uma crise econômica e política profunda, os argentinos chegam a esta Copa com a expectativa de conquistar mais um título mundial, sem contar que esta edição pode ser a última participação de Messi em Copas. É nesse cenário que o antropólogo Gabriel Moreira Monteiro Bocchi viajou até a Argentina e iniciou a série de crônicas etnográficas “A Copa do Mundo de 2026 em meio ao ‘Vamos Argentina’” – como parte de seu doutorado-sanduíche no país. Percorrendo regiões turísticas e outras nem tanto, o pesquisador busca descrever para além dos jogos, observando como o futebol se entrelaça com a vida cotidiana, captando tanto a capacidade unificadora da seleção argentina quanto as diferentes formas de torcer – e, por que não, as manifestações políticas que emergem em meio à Copa. Sugerimos essa série como um convite a enxergar como os nossos hermanos vivenciam a Copa do Mundo (e a política) nas ruas, nos bares, nas praças…

“Os Black Stars chegam ao mercado: O jogador ganês na geopolítica das relações internacionais entre Inglaterra e Gana no Pós Colonialismo (1996-2014)
Jonathan Dias Portela (dissertação de mestrado, UNIFESP, 2018)
No último dia 23 de junho, Inglaterra e Gana se enfrentaram pela segunda rodada do grupo L. Para além do futebol, os dois países estão ligados pelo colonialismo. É exatamente essa relação que a dissertação de Jonathan Dias Portela se propõe a dissecar. O trabalho analisa a trajetória de atletas ganeses no futebol inglês entre 1996 (abertura do mercado europeu após a resolução do Caso Bosman) até 2014, observando como a imprensa britânica tratou os jogadores de origem ganesa no futebol ingles. A análise do pesquisador expõe que o discurso colonialista – e racista – permanecia no futebol: seja tratando os jogadores ganeses como mercadoria e força de trabalho, seja fetichizando-os ou descartando-os conforme as conveniências do capital europeu. Sugerir esta leitura depois do confronto entre Inglaterra e Gana é um convite a olhar como história e geopolítica também entram em campo.” geRead More