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Sucesso na Copa, Curaçao não pode participar das Olimpíadas; entenda esse “limbo olímpico”

Sucesso na Copa, Curaçao não pode participar das Olimpíadas; entenda esse “limbo olímpico”

COMEMORAÇÃO PELO PRIMEIRO PONTO DE CURAÇAO NA HISTÓRIA DAS COPAS! 🇨🇼🎉
A histórica primeira participação de Curaçao na Copa do Mundo, encerrada após a derrota para a Costa do Marfim, nesta quinta-feira, colocou os holofotes do planeta sobre a pequena ilha caribenha. Com bandeira, hino e uniforme próprios, a seleção do menor país a jogar um Mundial masculino de futebol encantou não só brasileiros, mas também torcedores ao redor do globo. O cenário, porém, muda quando o assunto é olímpico.
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Rainha assiste a jogos de Holanda e Curaçao no mesmo dia e mostra festa nos vestiários
Por mais que a ilha do Caribe revele talentos de elite mundial, o nome de Curaçao não vai aparecer na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, daqui a dois anos, em 14 de julho de 2028. Tão pouco o nome de Curaçao estará no quadro de medalhas, mesmo que um dos cerca de 160 mil habitantes curaçaenses conquistem uma delas.
A explicação para essa ironia esportiva está em um nó geopolítico e em uma mudança de regras que aconteceu na década de 1990.
– O reconhecimento dos Comitês Olímpicos Nacionais (CONs) é regido pela Carta Olímpica. De acordo com a Carta Olímpica, um “país” é definido como “um Estado independente reconhecido pela comunidade internacional”, e o reconhecimento de um novo CON está vinculado a essa definição. Essas disposições estão em vigor desde 1996 e têm sido aplicadas de forma consistente pelo COI, sem qualquer exceção. Consequentemente, na situação atual, o COI não pode reconhecer nenhum CON para Curaçao – disse um porta-voz do Comitê Olímpico Internacional (COI) ao ge.
Jogadores de Curaçao agradecem torcida após eliminação na Copa do Mundo
REUTERS/Pilar Olivares
– Apesar disso, muitos esforços foram feitos ao longo da última década para facilitar a participação dos atletas de Curaçao, sempre que possível, em competições esportivas regionais e internacionais (dependendo das regras de filiação e elegibilidade de cada Federação Internacional) e em Jogos multiesportivos regionais. Os atletas de Curaçao também têm a oportunidade, sempre que possível, de se classificar e, potencialmente, participar dos Jogos Olímpicos por meio de uma Federação Nacional e do CON dos Países Baixos (reconhecido pelo COI) ou de uma Federação Nacional e do CON de Aruba (reconhecido pelo COI), caso cumpram as regras aplicáveis de elegibilidade e nacionalidade – concluiu o COI.
Torcida de Curaçao na partida contra a Alemanha
Annegret Hilse / Reuters
O fim das Antilhas Holandesas
Até o ano de 2010, atletas de Curaçao competiam nos Jogos Olímpicos e nos Jogos Pan-Americanos sob a bandeira das Antilhas Holandesas, bloco reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) desde 1950.
A vizinha Aruba fazia parte desse mesmo grupo, mas conseguiu sua independência como estado autônomo dentro do Reino dos Países Baixos em 1986. Com isso, Aruba fundou seu comitê olímpico próprio pouco antes de as regras do jogo mudarem drasticamente no cenário internacional.
Em 1996, impulsionado pelo colapso da União Soviética e pelas intensas mudanças geopolíticas mundiais, o COI alterou a sua Carta Olímpica (Regra 30.1). A partir da alteração que baliza as regras do olimpismo, determinou-se que apenas territórios que fossem estados independentes reconhecidos pela comunidade internacional –ou seja, membros da ONU– poderiam criar novos Comitês Olímpicos Nacionais (NOCs).
Churandy Martina em 2008
AFP
Então, em 10 de outubro de 2010, as Antilhas Holandesas foram formalmente dissolvidas. Curaçao tornou-se um país autônomo dentro do Reino dos Países Baixos, com moeda e leis próprias, mas sem uma cadeira na ONU.
Como as Antilhas deixaram de existir, o COI extinguiu o antigo comitê em 2011 e barrou o pedido de Curaçao para criar um novo comitê, aplicando a regra de 1996. Como a Panam Sports, que organiza os Jogos Pan-Americanos, segue estritamente as regras do COI, a ilha também ficou impedida de enviar delegações ao Pan.
Atualmente, a entidade máxima do esporte na ilha é a Federashon Deporte i Olimpiko Kòrsou (FDOK), espécie de comitê olímpico local, mas que atua como uma confederação.
Glenka Antonia, de Curaçao, defende a Holanda no salto em altura do Campeonato Europeu, na Romênia
Istvan Derencsenyi/Getty Images
Por que na FIFA é diferente?
A grande confusão após o sucesso da Copa ocorre porque a FIFA e a World Athletics (federação internacional de atletismo), por exemplo, possuem critérios de filiação diferentes do COI.
A FIFA reconhece territórios dependentes e associações regionais, o que permitiu a Curaçao herdar diretamente o histórico e a vaga das Antilhas Holandesas no futebol. Por isso, eles jogam torneios da Concacaf e a Copa do Mundo, mas seguem vetados nos Jogos Olímpicos.
Jogadores de Curaçao aplaudem torcedores depois da estreia na Copa do Mundo
Phil Noble / Reuters
Apesar das restrições do COI, Curaçao consegue competir com sua própria bandeira em eventos regionais das Américas que abrem exceções em seus estatutos. É o caso dos Jogos Sul-Americanos (ODESUR), Jogos Centro-Americanos e do Caribe, e Jogos Bolivarianos. Nos Sul-Americanos de Assunção 2022, por exemplo, a ilha enviou 27 atletas e conquistou uma prata com Glenka Antonia no salto em altura.
Mas para realizar o sonho de competir nos Jogos Olímpicos, os atletas nascidos em Curaçao enfrentam um dilema: eles precisam escolher entre defender a bandeira dos Países Baixos (Holanda) ou a da vizinha Aruba. A maioria opta pela estrutura oferecida pelo comitê holandês.
Glenka Antonia, de 26 anos, é o maior exemplo dessa dualidade. Nas competições globais e continentais organizadas pela World Athletics e pela European Athletics –onde Curaçao não pode alinhar uma delegação própria–, ela compete representando os Países Baixos, país pelo qual também disputa competições europeias de salto em altura.
Vanessa Mercera, de Curaçao, compete no heptatlo dos Jogos Centro Americanos e do Caribe 2023, em El Salvador
APHOTOGRAFIA/Getty Images
No entanto, como as federações regionais das Américas abrem exceção para a ilha, foi defendendo diretamente a bandeira de Curaçao que Antonia alcançou seus resultados históricos mais marcantes: além da medalha de prata nos Jogos Sul-Americanos de Assunção em 2022, ela repetiu o feito nos Jogos Centro-Americanos e do Caribe de 2023, em El Salvador, onde conquistou outra medalha de prata ao saltar a marca de 1,84 metro.
O dilema também alcança em cheio a nova geração que mira os Jogos de Los Angeles 2028. É o caso de Vanessa Mercera, de 21 anos. Natural de Willemstad, a atleta de Curaçao chocou o atletismo universitário americano em 2026 ao cravar a melhor marca do mundo na temporada do pentatlo indoor. Especialista também nos 400m com barreiras, Vanessa deve competir e buscar a vaga olímpica representando a Holanda.
Para Glenka, Vanessa e tantos outros, o sucesso no futebol serve de inspiração, mas a barreira burocrática do COI segue sendo o maior obstáculo no caminho em direção aos Jogos Olímpicos.
Torcida de Curaçao festeja empate em shopping na capital do país
Número de filiados
FIFA: 211 membros
COI: 206 Comitês Olímpicos Nacionais reconhecidos
ONU: 193 Estados-membros
Conheça alguns atletas de Curaçao
A ilha possui um histórico de atletas de elite que brilharam no cenário mundial:
• Churandy Martina (Atletismo): Maior lenda esportiva local, correu pelas Antilhas Holandesas em 2004 e 2008 (onde cruzou a linha dos 200m em segundo, atrás de Usain Bolt, mas foi desclassificado por pisar na linha). Após 2010, competiu pelos Países Baixos, sendo campeão europeu.
• Liemarvin Bonevacia (Atletismo): Nos Jogos de Londres 2012, em meio à transição política, competiu sob a Bandeira Olímpica Independente. Depois, naturalizou-se esportivamente holandês e foi prata no revezamento 4x400m misto em Tóquio 2020.
• Terrence Agard (Atletismo): Velocista de elite que também integrou a equipe dos Países Baixos no revezamento 4x400m masculino, faturando a prata em Tóquio.
• Odile van Aanholt (Vela): Filha do velejador olímpico curasauense Cor van Aanholt, compete pelos Países Baixos devido à ausência do comitê local e consolidou-se como uma das principais velejadoras do mundo na classe 49erFX, acumulando títulos mundiais.
• Just van Aanholt (Vela): Medalhista nos Jogos Olímpicos da Juventude e competidor nos Jogos de Paris 2024.
• Philippine van Aanholt (Vela): Representou a ilha nos Jogos do Rio 2016 e em Londres 2012 (como atleta olímpica independente).
• Kaj Rozeboom e Zara Rozeboom (Windsurf): Grandes promessas do windsurf olímpico (classe iQFoil) que recentemente conquistaram medalhas nos Jogos.
• Rob Timmermans (Caratê): Principal nome do país no caratê comitê (+84 kg), que chamou a atenção global ao ser o porta-bandeira solitário de Aruba nos Jogos Mundiais.
• Philip Elhage (Tiro Esportivo): Atleta de pistola em Pequim 2008. Para continuar competindo na região das Américas sem precisar se mudar para a Europa, associou-se ao comitê de Aruba e conquistou medalhas pan-americanas.
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